EDUARDO GRABOSKI

A crise silenciosa das bets: talvez seja a hora de rever os nossos ídolos

Famosos promovem sites de apostas e jogos caça níquel e as pessoas perdem dinheiro
Famosos promovem sites de apostas e jogos caça níquel e as pessoas perdem dinheiro - Foto: Pexels
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 20/08/2026, às 17h45

Preciso admitir: não tinha dimensão do tamanho do problema das apostas e joguinhos tipo caça níquel no Brasil. Sei que existe, claro. Vejo propagandas, artistas, jogadores e influencers divulgando plataformas. Sei dos relatos de pessoas que perdiam dinheiro. Mas era algo distante da minha realidade. Até voltar a conversar sobre isso com amigos mais próximos.

Comecei a ouvir histórias de pessoas que apostaram dinheiro que deveria estar indo para outras coisas. Gente tentando recuperar o que perdeu, gente acreditando que uma aposta poderia resolver uma dificuldade financeira, um momento de crise. Famílias tendo que lidar com as consequências.

Foi quando percebi uma coisa óbvia que, justamente por ser óbvia, muitas vezes passa batida: isso está muito mais perto da gente do que parece. Enquanto famosos recebem milhões para divulgar bets e jogos, o Brasil tem 82% das famílias endividadas. É o maior percentual já registrado. Assustador e triste.



E não dá mais para fingir que uma coisa não conversa com a outra. Dados da Confederação do Comércio mostram que entre janeiro de 2023 e março de 2026, as apostas e jogos movimentaram R$ 143 bilhões e podem ter empurrado 270 mil famílias para uma situação de pura inadimplência.

É dinheiro que poderia estar no supermercado, na prestação, no aluguel, na farmácia, no comércio. Em muitos casos, vai parar numa tela piscando a promessa de que o próximo giro da roleta resolverá a vida. Essa talvez seja a parte mais perversa. Quem já tem dinheiro vende esperança de dinheiro para quem está desesperado por dinheiro. E ganha mais dinheiro com isso.

Claro que sempre aparece o argumento mais confortável: cada um faz o que quer da vida. Verdade. Adultos são responsáveis pelas próprias decisões. Mas, se influência não fosse nada, nenhuma plataforma pagaria milhões para colocar um famoso em sua propaganda. Isso é incentivar, empurrar goela abaixo.

Publicidade existe porque funciona. O artista empresta algo muito mais valioso: credibilidade, confiança e alcance. Quando aquele jogador que você admira, aquela atriz que acompanha há anos ou aquela ‘influencer da vida perfeita’ mostra uma plataforma e ganhos altíssimos, a mensagem não chega como chegaria se fosse dita por uma pessoa desconhecida. Existe confiança ali e isso vende muito.

Fernanda Torres mostrou que existe outro caminho, mais decente. A atriz recusou proposta milionária para divulgar uma bet. Ela poderia pegar o dinheiro, mas preferiu pensar no que sua imagem estava vendendo. Parece pouco, mas é quase revolucionário. Porque talvez tenha chegado a hora de discutir não apenas sobre apostas, regulamentação ou publicidade. Mas sobre quem escolhemos admirar.

A fama não deveria funcionar como anistia moral. É curioso ver pessoas cobrando responsabilidade de políticos, empresários, jornalistas, marcas, mas tratando celebridades como crianças inocentes quando elas colocam o próprio rosto numa campanha milionária. Vão dizer: “é só publicidade, estão trabalhando”. Não é. Quando alguém tem milhões de seguidores, a publicidade também é influência. E influência traz responsabilidade.

Existem artistas e ídolos que usam a própria influência para inspirar. E existem aqueles que descobriram que é muito mais lucrativo transformar a esperança dos fãs em comissão e lucro. Precisamos aprender a diferença.

Talvez esteja na hora de cobrar mais responsabilidade de artistas que só pensam em lucrar. E de repensar nossos próprios ídolos. Porque, em tempos difíceis, um verdadeiro ídolo não é apenas aquele que sabe ganhar. É também aquele que sabe de onde prefere não ganhar.


Meu Querido Zelador

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