
por Eduardo Graboski
Publicado em 04/03/2026, às 17h46 - Atualizado às 18h09
Tem uma nova categoria surgindo no entretenimento adulto digital: a mentira. É aquela que só existe na legenda. Nos últimos tempos, isso se multiplicou no Privacy, Onlyfans e outras plataformas do tipo. Virou quase rotina esbarrar com anúncios, manchetes e posts do tipo: “gravei com ator famoso”, “ex-global no meu quarto”, “cantor casado me procurou”, “a cena mais bizarra que você já viu”.
A chamada é forte. A curiosidade é inevitável. As assinaturas crescem. Entra muito dinheiro. O problema começa quando o tal famoso nunca apareceu. Nunca existiu. Nunca passou perto. Aí não é marketing. É mentira mesmo. E vamos combinar: são coisas diferentes.
Para ficar bem claro: marketing é ferramenta, é meio, é divulgação daquilo que existe ou foi criado. Criar expectativa, provocar, instigar, soltar teaser enigmático, montar narrativa, tudo isso faz parte do jogo. Sempre fez. O entretenimento vive de exagero. Vive de tensão. Vive de promessa. Mas promessa precisa ter entrega.
Plataformas como Privacy e OnlyFans não são apenas vitrines. São modelos de assinatura. Existe pagamento recorrente. Existe relação de consumo. Quando alguém afirma que gravou com alguém específico e isso nunca aconteceu, não estamos mais falando de personagem ousado, nem de marketing. Estamos falando de propaganda enganosa. E isso é outra coisa.
O que está acontecendo, na prática, é um certo desespero criativo. Muita gente já fez de tudo. Já gravou todas as combinações possíveis. Já explorou todos os nichos. Já criou todos os “primeira vez”. Quando o conteúdo começa a repetir, a tentação é inflar o marketing. Até aí, tudo bem.
O problema é quando o marketing deixa de amplificar algo real e passa a inventar algo inexistente. É diferente dizer: “vocês não estão preparados para o que eu gravei” e dizer: “gravei com o ator X”, quando na verdade não gravou.
Uma frase cria expectativa. A outra cria um fato falso. E fato falso, quando envolve dinheiro, costuma dar dor de cabeça. Existe também um erro estratégico curioso nisso tudo: tratar o assinante como se fosse ingênuo e burro. Ele pode até entrar pela curiosidade. Mas não renova pela mentira. E mais: sai espalhando que é golpe.
O mercado adulto amadureceu. Hoje é branding, é gestão de comunidade, é fidelização, é recorrência. Quem constrói carreira entende que confiança vale mais que hype. Hype traz pico. Confiança traz estabilidade. E estabilidade é o que paga boleto mês após mês.
Talvez o problema seja mais profundo. Parte dessa nova geração de criadores e criadoras parece pensar muito no agora e pouco no amanhã. E reputação, no fim das contas, é exatamente isso: pensar no amanhã. Quando um nome começa a circular associado a palavras como “golpe”, “fraude” ou “mentira”, a conta chega. Pode demorar um pouco, mas chega. Não é à toa que alguns perfis aparecem do nada, explodem em vendas por algumas semanas e depois simplesmente desaparecem. O hype passa. O histórico fica.
Por outro lado, as plataformas precisam se mexer e de certa forma fiscalizar isso. Quem engana o próprio público, fica ileso? As pessoas iludidas são ressarcidas ou ficam no prejuízo?
Eu sou defensor de marketing agressivo. De narrativa. De criar conversa, fatos, polêmicas. De provocar. De transformar algo pequeno em grande, quando existe algo ali de verdade. Mas inventar e não entregar, não é ousadia. É atalho curto. E atalho curto geralmente termina em queda rápida. Se prometeu, anunciou ou divulgou, tem que entregar. Isso é obrigação, responsabilidade e reputação.
Se vai criar, sustente. Se vai prometer, entregue. Se não existe, não venda. Porque fantasia faz parte do entretenimento. Fraude faz parte do Código de Defesa do Consumidor. Marketing constrói marca. Mentira destrói reputação. E reputação, nesse mercado, vale mais do que qualquer teaser polêmico.
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