
por Eduardo Graboski
Publicado em 16/12/2025, às 09h17
A decisão de Zezé Di Camargo de pedir ao SBT para cancelar seu especial de Natal — já gravado —, porque a emissora recebeu o presidente Lula e outros políticos no lançamento do SBT News não é só um exagero, é um erro conceitual grave sobre o que significa viver em uma democracia.
Democracia, vale lembrar, não é um clube de afinidades. Não é um grupo de WhatsApp onde todo mundo espalha o que lhe convém e concorda. Democracia é convivência. É lidar com ideias opostas, opiniões divergentes e escolhas que nem sempre agradam. Inclusive quando elas partem de um canal de televisão.
O SBT não fez militância. Fez o básico. Recebeu o presidente da República. Recebeu também o governador de São Paulo, de partido adversário ao do presidente. Recebeu outras lideranças políticas e figuras públicas. Abriu espaço institucional. Exatamente o que se espera de uma emissora de alcance nacional que lança um canal jornalístico e precisa dialogar com o país real. E não com bolhas ideológicas.
Transformar isso em um escândalo moral é criar um conflito artificial, vazio e, francamente, tosco. Não existe favorecimento político quando há pluralidade. Existe jornalismo. Existe compreensão do papel público da comunicação.
Quando um artista reage tentando punir uma emissora por não refletir sua visão pessoal de mundo, ele não está defendendo valores democráticos. Está revelando o quanto só tolera a democracia quando ela concorda com ele. É a defesa da liberdade… desde que seja a própria.
Esse tipo de postura expõe artistas rasos, incapazes de conviver com o contraditório, alérgicos à diferença e desconfortáveis com qualquer ideia que não reproduza exatamente seus próprios valores. E aí a coisa começa a ficar feia, porque o discurso passa a flertar com uma lógica perigosa: a de que só existe uma opinião aceitável, um posicionamento correto, um jeito “certo” de pensar. Todo o resto deve ser cancelado.
Isso não é democracia. É seu oposto.
Não é uma questão específica do SBT. É algo muito maior. É sobre não aceitar a diversidade de ideias no espaço público. É sobre transformar qualquer gesto institucional em guerra cultural rasa, “moralista” e sem profundidade. Um debate que não acrescenta nada, só empobrece.
Que outros artistas não se deixem seduzir por essa onda. Não há nada de corajoso nesse tipo de embate. Não gera reflexão, não eleva o debate e ainda queima a própria imagem diante de um público cada vez mais cansado de radicalismos performáticos.
Democracia exige maturidade. Exige escuta. Exige aceitar que o mundo não funciona como um espelho. Quem não entende isso talvez não esteja defendendo valores, esteja apenas defendendo a própria intolerância. Afinal, todo fanatismo é ignorância.
COLUNISTAS
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