EDUARDO GRABOSKI

Boninho em “A Fazenda”: quando a TV brasileira assume o próprio delírio

Boninho aparece em 'A Fazenda' para divulgar seu novo reality show na Record
Boninho aparece em 'A Fazenda' para divulgar seu novo reality show na Record - Foto: Reprodução
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 15/12/2025, às 14h22

A televisão brasileira atravessou, neste fim de semana, um daqueles momentos em que a gente pisca duas vezes para confirmar se não está sonhando.

Boninho invadiu a sede de “A Fazenda 17”. Sim, ele mesmo. O diretor que por décadas foi praticamente sinônimo de “Big Brother Brasil” apareceu, tranquilo, no reality da Record, como se estivesse entrando na sala de casa.

Não era pegadinha. Não era meme. Era a TV aberta, ao vivo, abraçando o próprio caos. E isso diz muito.



Durante anos, Globo e Record cultivaram uma rivalidade quase folclórica. Cada uma no seu quadrado, fingindo que a outra não existia, no máximo uma indireta aqui, outra ali. Agora não. Agora a rivalidade virou conteúdo, virou hype. A rivalidade morreu. No lugar, nasceu o crossover.

Boninho não “visitou” “A Fazenda”. Ele participou do espetáculo, consciente do peso simbólico daquele gesto. A Record, por sua vez, entendeu algo que muita gente ainda resiste em aceitar: em 2025, não existe mais muro alto quando o assunto é atenção. Se mistura, viraliza. Se viraliza, vence.

Boninho entrou para vender. E vendeu. Com ajuda da estratégia, da leitura de jogo e da generosidade de Rodrigo Carelli, diretor de realities da Record. O detalhe mais saboroso é que tudo tinha um propósito muito claro: anunciar “A Casa do Patrão”, novo reality que Boninho vai comandar justamente no canal.

Reality novo, anônimos, três casas, dinheiro real, poder, regras meio opressivas e aquela promessa clássica de todo formato que quer nascer grande: “isso aqui nunca foi feito antes”. Ou seja: Boninho usou o palco mais improvável possível para lançar o próximo capítulo do gênero, dentro do reality rival, na reta final, quando o público está 100% ligado.

É o tipo de movimento que só funciona quando se entende profundamente o jogo e o momento histórico. O simbolismo não poderia ser mais perfeito. Enquanto isso, a Globo se prepara para estrear o primeiro BBB da história sem Boninho. Pela primeira vez, o programa que ele moldou por décadas segue sem seu criador no comando.

E onde está Boninho nesse exato momento? Dentro de “A Fazenda”.

Se isso fosse ficção, diriam que está óbvio demais. Mas a TV brasileira tem essa vocação: quando parece exagerada, normalmente é só honesta. Nada disso é só sobre audiência. É sobre narrativa.

Hoje, o público não assiste apenas ao confinamento. Assiste ao bastidor, à negociação, ao ego, ao crossover improvável, ao inevitável “como assim isso está acontecendo?”. Boninho virou personagem. Carelli virou personagem. As emissoras viraram personagens. A TV aberta, finalmente, assumiu que funciona como a internet: o assunto é o produto.

E isso é histórico de verdade. Porque marca um ponto sem volta. A partir de agora, ninguém mais finge que reality é só programa de domingo à noite. Reality é linguagem central da cultura pop brasileira. É onde a TV se reinventa, se expõe, se ridiculariza e, principalmente, se mantém relevante.

Boninho em “A Fazenda” não é traição nem provocação. É sobrevivência. É leitura correta de época. É entender que, no fim das contas, quem domina a conversa domina o jogo. Neste domingo, a televisão brasileira fez algo raro: parou de tentar parecer organizada e assumiu o próprio absurdo. E, curiosamente, foi exatamente aí que ela ficou boa de novo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.