ROBÉRIO DE OGUM

Entre a bola e a fé: o lado espiritual do futebol que ninguém assume

Robério de Ogum fala sobre o lado espiritual da Copa do Mundo
Robério de Ogum fala sobre o lado espiritual da Copa do Mundo - Foto: Divulgação
Robério de Ogum

por Robério de Ogum

Publicado em 21/05/2026, às 21h03

Quanto mais a Copa do Mundo se aproxima, mais se fala em elenco, convocação, patrocínio, preparo físico, contrato milionário, arbitragem... Tudo isso é importante. Ninguém vence uma grande competição sem trabalho, disciplina e talento.

Mas existe um lado do futebol que muita gente evita assumir publicamente: o jogo também é espiritual.

Eu digo isso porque vivi o futebol por dentro. Não falo como alguém que observou de longe. Trabalhei com grandes nomes, estive próximo de treinadores, jogadores, clubes importantes e vi, muitas vezes, que aquilo que acontece dentro de campo começa antes, no invisível.



O futebol é místico. O futebol é mágico. A vida de um atleta não se resume aos 90 minutos. Existe energia no vestiário, existe força espiritual em uma decisão, existe uma carga emocional e invisível que pode levantar ou derrubar um time.
Muita gente acha que isso é superstição. Eu vejo de outra forma. Fé, ritual, oração, proteção e orientação espiritual sempre fizeram parte da história da bola.

O Brasil sabe disso. O jogador entra em campo fazendo o sinal da cruz. O torcedor acende vela. A mãe reza. O técnico se apega a uma roupa, a uma imagem, a uma corrente, a um gesto. No fundo, todo mundo sabe que o futebol mexe com algo maior.

Eu me lembro de trabalhos com clubes como Palmeiras, Corinthians, Santos, Flamengo, Bragantino. Também tive relação com treinadores importantes, como Wanderlei Luxemburgo. E posso dizer: muitas vezes, o trabalho espiritual não é para “ganhar jogo” como quem aperta um botão. É para limpar o caminho. É para proteger o elenco. É para tirar a energia pesada, a inveja, a carga negativa que entra em um grupo quando existe muita pressão, dinheiro e expectativa.

Um caso que sempre me marcou foi a final do Campeonato Paulista de 1993, entre Palmeiras e Corinthians. Eu senti uma energia pesada no antigo Parque Antártica. Naquele momento, entendi que era preciso mudar alguma coisa. Orientei que o Palmeiras trocasse as meias verdes por meias brancas.

Para muitos, aquilo poderia parecer detalhe. Para mim, não era. A meia branca trazia luz, trazia uma vibração diferente, uma força espiritual mais limpa para aquela decisão. Era preciso se reinventar. E eu também havia dito que o Palmeiras venceria por 3 a 0 no tempo normal e conquistaria o título na prorrogação. Foi o que aconteceu.

Outro episódio conhecido envolve o Corinthians, em 1977, no caso que ficou famoso como o “sapo enterrado” no Parque São Jorge. Pouco depois, o clube venceu a Ponte Preta e encerrou um jejum histórico. Quem viveu aquela época sabe que o futebol brasileiro sempre teve essas histórias. Algumas são contadas em voz alta. Outras ficam guardadas nos bastidores.

E não é só comigo. Quando lembro de Pelé, Pepe e do Santos de Lula, também lembro que a espiritualidade rondava aquele time. O maior jogador que o mundo viu jogar também conhecia essa força. Isso mostra que, por trás dos maiores talentos, sempre existiu fé.

Hoje, o futebol movimenta cifras bilionárias. Tem análise de dados, fisiologia, psicologia, marketing, contratos gigantescos. Mas nada disso anulou o invisível. Pelo contrário: quanto maior a pressão, mais o espiritual pesa.

Na Copa do Mundo, isso fica ainda mais forte. Uma seleção carrega milhões de pensamentos, orações, cobranças e expectativas. Não é apenas um grupo de jogadores em campo. É um país inteiro vibrando junto. Essa energia chega até eles.

Eu acredito no hexa do Brasil. Também vejo Neymar em uma boa fase com a seleção. Mas, mais do que previsão, deixo aqui uma reflexão: talento ganha jogo, estratégia organiza time, mas a espiritualidade também abre caminhos.

No futebol, nem tudo aparece no placar. Às vezes, antes da bola entrar, o jogo já começou no invisível.

Mais conteúdos no Instagram @ogumroberiodeogum

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.