
por Eduardo Graboski
Publicado em 31/10/2025, às 16h33
Tudo começou com um vídeo da piloto de avião Cris Macahiba no TikTok. Ela mostrando o nascer do sol da cabine, o café antes do voo, o hotel depois do pouso… e eu, ali, hipnotizado, torcendo pra ela conseguir descansar antes do próximo trecho.
Assisti um, dois, três vídeos. Curti alguns. E pronto: o algoritmo entendeu que eu tinha sido fisgado. De repente, minha For You virou um universo paralelo feito só de rotina alheia. Gente acordando cedo, fazendo café, indo pro trabalho, estudando, lavando louça, voltando cansada, abrindo o notebook…
Era a vida real, em HD, com trilha leve e filtro suave. Foi aí que me dei conta: os daily vlogs – e seus irmãos, os story vlogs – são o novo vício coletivo. E, provavelmente, a maior tendência de 2026. Ah, e a Cris é referência nisso: conteúdo leve, fluido e na medida certa.

A partir daí, o TikTok virou uma série de rotina. Marcela Lahoz, a Tchela, com seus vídeos sobre organização, podcasts, livros e desafios que fazem com que os seguidores formem uma verdadeira comunidade.
Isabella Rotta, que mistura beleza e cotidiano com naturalidade quase terapêutica. Manuela Cit, espontânea, leve, divertida – o tipo de pessoa que a gente acompanha até tomando um simples café.
E Thomas Ruegg, aos 29 anos, o representante oficial da geração CLT em São Paulo: o trânsito, o expediente em frente ao computador, o almoço apressado (mas com toque gourmet) e o merecido vinho no fim do dia. É um cardápio completo da vida comum – e a gente consome sem culpa.
Os daily vlogs são o “Big Brother” sem direção, o reality show sem prêmio e sem eliminação, mas com mais alma e naturalidade. É o novo gênero favorito da web: o drama leve do cotidiano. E o mais curioso é que a febre começou com elas. As mulheres descobriram que a vida real dá mais engajamento do que qualquer roteiro.
Hoje, o uniforme de loja, o lanche no intervalo e o “voltei do turno” são mais assistidos que muito podcast por aí. Os homens estão chegando, claro – empreendedores, barbeiros, entregadores, criadores de conteúdo – todos tentando entrar no jogo. Mas ainda são coadjuvantes num universo dominado por elas.
No fundo, o fascínio é simples: a gente cansou do fake. Depois de anos de ostentação, luxo e promessas de “vida perfeita”, ver alguém lavando louça virou um respiro. E é fácil acompanhar. Parece que o mundo desacelera por alguns segundos. Aquela sensação de “tamo junto”, mesmo sem saber quem é a pessoa do outro lado.
E quer saber? Esses diários dariam um ótimo programa de TV. Imagina uma atração nas madrugadas, entre uma reprise e outra, naquele horário em que a audiência some, mostrando a rotina real de gente comum direto das redes. Algo no estilo ZapZap, da RedeTV!, ou Perrengue, da Band, só que com vídeos de rotina, café frio, metrô lotado e despertador tocando às seis.
Porque, no fundo, a gente só quer saber se o dia dos outros é mais interessante que o nosso. Ou, talvez, exatamente igual. E mesmo quando não é – o que é quase sempre – a gente continua assistindo. Porque nada é mais viciante do que perceber que o tédio dos outros é quase igual ao nosso… só que com edição rápida e trilha de fundo.