
por Eduardo Graboski
Publicado em 03/02/2026, às 08h42
Você dá play achando que vai assistir a mais um suspense psicológico elegante, daqueles para ver enquanto mexe no celular. Dez minutos depois, o celular está longe, o coração acelerado e você já percebeu: All Her Fault não quer só a sua atenção. Ela quer o seu julgamento, sua empatia e, principalmente, o seu desconforto.
A série do Prime Video é viciante, provocadora e perturbadora porque não trabalha com vilões óbvios nem com heroínas fáceis de amar. Pelo contrário. Ela brinca com o que há de mais incômodo no espectador moderno: a certeza precipitada de que sempre existe alguém para culpar e de preferência alguém bem identificável.
Aqui, a culpa não é um detalhe do roteiro. É o tema central. É o motor da narrativa. É o veneno que contamina todas as relações. E funciona. A cada episódio, a série constrói situações que parecem simples, quase banais, mas que vão se acumulando como pequenas rachaduras morais. Quando você percebe, já está julgando personagens, tomando partido, revisando suas próprias opiniões… e se sentindo meio mal por isso.
All Her Fault não te manipula com sustos baratos ou reviravoltas gratuitas. Ela faz algo mais cruel: te coloca na posição de juiz sem te dar todas as provas. E depois muda o contexto. E depois muda de novo.
É uma série sobre maternidade, relações, segredos, expectativas sociais, crime, mas, acima de tudo, sobre a necessidade humana de apontar culpados para seguir em frente.
Visualmente, tudo é contido, elegante, quase frio. Nada grita. Nada exagera. O desconforto vem justamente desse controle. As atuações são secas, precisas, sem excesso de emoção, o que só torna tudo mais sufocante. Parece que todo mundo está sempre segurando algo que não pode cair. E talvez esteja.
É o tipo de série que termina um episódio e você fica parado, olhando para a tela preta, pensando: “Ok… mas e se fosse comigo?” ou então “E agora, o que vai ser?”.
E aí vem o golpe final: All Her Fault não fala apenas sobre os erros dos outros. Ela fala sobre como nós, espectadores, adoramos encontrar um culpado rápido, organizar o caos em uma narrativa simples e seguir em frente com a consciência tranquila. A série não deixa. Perturba porque não absolve ninguém. Provoca porque nos inclui no jogo. Vicia porque cada resposta abre uma pergunta ainda mais desconfortável.
No fim, a maior culpa talvez seja acreditar que histórias complexas podem ter responsáveis simples. E All Her Fault faz questão de esfregar isso na nossa cara com inteligência e uma certa crueldade que cai bem.
COLUNISTAS
Faustino Júnior | Nerd de Negócio
A Reconfiguração da Imunidade Tributária do Mercado Editorial em 2026: a implementação do cBenef e seus desafios à indústria do livro
Robério de Ogum
Robério de Ogum: alma gêmea e a razão do amor