EDUARDO GRABOSKI

Com 5ª temporada confirmada, "Meu Querido Zelador" acerta onde quase todas as séries erram

Série "Meu Querido Zelador": por que torcemos por alguém que jamais deveríamos admirar?

Guillermo Francella vive personagem ambíguo e cativante na série
Guillermo Francella vive personagem ambíguo e cativante na série - Foto: Divulgação
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 10/08/2026, às 08h39

Meu Querido Zelador (Disney+) conseguiu uma façanha rara: chegou à quarta temporada e ainda queremos saber o que Eliseo vai aprontar. E haverá mais. A quinta temporada já está confirmada e a série argentina também ganhará uma adaptação brasileira para o cinema, O Zelador, com Matheus Nachtergaele no papel principal.

O sucesso talvez esteja justamente no desconforto provocado pelo personagem. Eliseo, o zelador, conhece os moradores, seus horários, relacionamentos, problemas e, principalmente, seus segredos. Ele não é o homem mais rico nem o mais importante do prédio. Mas possui algo que hoje talvez valha tanto quanto dinheiro: informação.

Por isso, assistir à série nesse momento é ainda mais interessante. Vivemos expondo onde estamos, com quem estamos, o que compramos, o que pensamos e até o que sentimos. Eliseo é quase um algoritmo com uniforme: observa comportamentos, identifica fragilidades e usa aquilo que sabe para conseguir o que deseja.



A diferença é que o Instagram ainda não toca o interfone. Mas a melhor jogada da série é outra: nós sabemos que Eliseo mente, manipula e ultrapassa limites. Mesmo assim, na maioria das vezes, torcemos por ele. A série manipula o espectador da mesma maneira que Eliseo manipula os moradores. Uma trama que fala de poder, status, apego e obsessão.

O ator Guillermo Francella ajuda muito nessa construção. Seu personagem consegue ser simpático e perturbador praticamente ao mesmo tempo. É doce e vilão. É calmo e tóxico. Mas não é o vilão clássico, que entra em cena anunciando suas maldades. Pelo contrário: ele ajuda, conversa, resolve problemas e parece indispensável.

Até percebermos que alguns dos problemas que resolve foram criados por ele mesmo. A quarta temporada amplia esse jogo. Eliseo chega a espaços maiores de influência e aquilo que começou como uma guerra particular dentro de um prédio se transforma cada vez mais numa história sobre poder.

Porque Eliseo nunca quis apenas conservar seu emprego. Ele quer ser necessário. E talvez seja justamente por isso que reconhecemos tantos “Eliseos” fora da televisão: gente que precisa saber de tudo, participar de tudo e estar no centro de qualquer história. Antes essa pessoa ficava na janela. Hoje está no grupo de WhatsApp.

A confirmação da quinta temporada mostra que a fórmula ainda tem muito combustível. E a adaptação brasileira parece quase natural. Convenhamos: condomínio no Brasil já é praticamente um gênero dramático. Tem grupo de WhatsApp, síndico, fofoca, câmera, vaga de garagem, assembleia e vizinho investigando quem deixou alguma coisa no elevador.

Eliseo se sentiria em casa. Mas talvez o maior mérito de Meu Querido Zelador seja não dizer ao público exatamente o que pensar sobre seu protagonista. Não precisamos gostar dele. Muito menos admirá-lo. O problema é que continuamos querendo vê-lo vencer.

E quatro temporadas depois, talvez a grande pergunta da série já não seja quem Eliseo realmente é e que tipo de transtorno ou obsessão ele tem. É o que diz sobre nós o fato de ainda estarmos torcendo por ele. No fim, talvez o maior personagem da série nem seja o zelador. Seja o nosso próprio julgamento.


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