EDUARDO GRABOSKI

“Velhos Bandidos”: como reunir um elenco dos sonhos para contar uma história tão sem graça?

Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e grande elenco salvam o filme que chegou ao streaming
Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e grande elenco salvam o filme que chegou ao streaming - Foto: Divulgação
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 02/06/2026, às 11h39

Existe um fenômeno curioso acontecendo com Velhos Bandidos, filme que acaba de chegar ao streaming depois de uma passagem bem discreta pelos cinemas. Ninguém comenta. Ninguém indica. Ninguém critica. Ninguém defende. E, depois de assistir, eu finalmente entendi o motivo.

"Velhos Bandidos" parece aquele evento que anuncia Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos, Vera Fischer, Tony Tornado, Nathália Timberg e Reginaldo Faria no mesmo convite. Você chega esperando um acontecimento histórico. Sai se perguntando como tanta gente talentosa foi parar na mesma armadilha.

A premissa até parece divertida no papel: um casal de aposentados decide organizar um grande assalto a banco e recruta dois criminosos mais jovens para executar o plano. Um policial tenta impedir tudo. É praticamente um encontro entre Onze Homens e Um Segredo, Golpe Baixo e a sessão da tarde.



Mas alguma coisa acontece entre a ideia e a execução. Ou melhor: quase nada acontece. O filme é vendido como comédia. Mas as piadas raramente funcionam. As situações parecem engraçadas apenas porque os personagens riem delas. O espectador, não.

O roteiro também parece incapaz de decidir que filme quer ser. Em alguns momentos tenta ser uma aventura de assalto sofisticada. Em outros, aposta numa fantasia quase bizarra. Em seguida flerta com o drama familiar. Nenhuma dessas camadas é desenvolvida o suficiente para convencer.

Tudo soa improvisado, como se a produção estivesse apostando que o público aceitaria qualquer coisa desde que Fernanda Montenegro aparecesse em cena.

E aí chegamos ao ponto mais desconfortável da experiência.

Fernanda Montenegro e Ary Fontoura são gigantes. Não apenas pelo currículo, mas pela capacidade de dar dignidade até para diálogos frágeis. Vladimir Brichta continua sendo um dos atores mais carismáticos do país. Bruna Marquezine cumpre seu papel. Lázaro Ramos faz o que pode. O problema é que o elenco inteiro parece tentar salvar um roteiro a toda hora.

Em vários momentos surge uma sensação estranha de vergonha alheia. Não pelos atores. Mas pela história, pela trama. É como assistir músicos extraordinários tocando uma música desafinada.

O mais impressionante é que "Velhos Bandidos" não fracassa por falta de dinheiro, elenco ou estrutura. Fracassa justamente naquilo que deveria ser o básico: o enredo. Faltam surpresas. Faltam conexões lógicas. Falta graça. Sobram atalhos narrativos, soluções convenientes e cenas que parecem existir apenas para empurrar a trama até o próximo acontecimento.

Talvez por isso o silêncio em torno do filme seja tão grande. Porque filmes muito bons geram conversa. Filmes muito ruins também. Mas existe uma categoria mais perigosa: a dos filmes que simplesmente não deixam marca. Que terminam e evaporam da memória poucos minutos depois.

"Velhos Bandidos" tinha tudo para ser um encontro histórico de gerações. E ter graça do começo ao fim. Acabou se transformando num curioso exemplo de como um elenco cinco estrelas não consegue salvar uma história sem rumo. Vale assistir pelos atores? Sem dúvida. Vale assistir pelo filme? Aí já é outra história.