
por Eduardo Graboski
Publicado em 29/04/2026, às 10h48
Casa do Patrão estreou com uma qualidade rara na TV atual: parecia que alguma coisa podia sair do controle a qualquer momento. E, num reality, isso não é defeito. É combustível. A novidade de Boninho na Record teve algo de surpresa, de teste, de programa que ainda pode mudar de cara no caminho. E eu gosto disso.
A TV ficou muito preocupada em entregar tudo redondo demais. Reality com regra explicada mil vezes, dinâmica mastigada e edição tentando controlar até a reação do público. Às vezes, o que prende é o contrário: uma situação meio inesperada, uma regra que gera dúvida, um apresentador que comenta como gente normal e a sensação de que nem tudo está tão sob controle.
Depois de tantos formatos com acabamento impecável, muito impulsionados pelo padrão Globo, ver um programa com arestas soa quase como respiro. Tudo funciona, tudo encaixa, tudo parece testado antes de ir ao ar. É bonito? É. É eficiente? Também. Mas, convenhamos, às vezes dá uma sensação de produto embalado a vácuo: você consome, mas dificilmente se surpreende.
Casa do Patrão chega com outro espírito. E talvez nem seja um plano tão consciente assim, o que deixa tudo ainda mais interessante.
Tem ali uma engrenagem diferente, uma dinâmica que flerta com disputa de ego, poder e hierarquia, mas sem aquela preocupação de explicar demais cada movimento. Em vários momentos, a sensação é de que o programa também está se descobrindo enquanto acontece. E isso, que muita gente pode chamar de “tosco”, pode muito bem virar identidade.
Porque a graça do reality, o ouro mesmo, raramente está no que é perfeito. Está no constrangimento inesperado, na decisão meio torta, na regra que parece confusa, mas gera conflito. Está naquilo que escapa do controle.
E nesse ponto, Leandro Hassum não é detalhe. É parte do jogo. Ele não vem com aquele pacote engessado de apresentador que precisa conduzir tudo com solenidade. Hassum comenta, brinca, atravessa a cena e parece reagir junto com o público. Tem algo ali de espontâneo, quase improvisado, que combina com a proposta.
É como se o programa assumisse: “não somos perfeitos, e talvez nem queiramos ser”. E isso é refrescante, vai por mim.
Claro que existe risco nesse caminho. O improviso pode virar bagunça. A surpresa pode virar incoerência. A falta de acabamento pode cansar. Mas é um risco que vale correr. Porque o outro lado, o da perfeição absoluta, a gente já conhece bem. E, em muitos casos, já cansou.
O público hoje não quer só assistir. Quer comentar, reagir, zoar, transformar em meme. E programas muito fechadinhos às vezes não deixam espaço para isso. Já o imprevisível gera conversa.
Casa do Patrão pode não ser o reality mais bonito da TV. Pode não ser o mais organizado. Pode, inclusive, irritar em alguns momentos. Mas tem algo ali que anda raro: a sensação de que qualquer coisa pode acontecer. E talvez seja exatamente isso que faça a gente querer continuar assistindo.
No fim das contas, depois de tantos formatos lapidados até perderem a graça, ver um reality que ainda parece “em construção” tem um certo charme. Meio caótico, meio bagunçado, meio arriscado. Mas vivo.
E televisão viva sempre foi mais interessante do que perfeição ensaiada.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.
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A Arquitetura de uma Escolha: por que o Direito Tributário, por que o Método Nerd, por que o Direito Tributário Digital