EDUARDO GRABOSKI

Portiolli na Globo? O SBT pode transformar uma perda em acerto

Celso Portiolli está cotado para assumir atração aos domingos na TV Globo
Celso Portiolli está cotado para assumir atração aos domingos na TV Globo - Foto: Divulgação
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 12/08/2026, às 09h44

A notícia de que a Globo estaria disposta a oferecer algo perto de R$ 3 milhões por mês para tirar Celso Portiolli do SBT parece, à primeira vista, mais uma daquelas cifras criadas especialmente para fazer executivo de televisão perder o sono. Mas o dinheiro talvez seja a parte menos interessante dessa história.

Segundo informação do jornalista Alessandro Lo-Bianco, a Globo estaria preparando uma nova investida em Portiolli. Por enquanto, é importante dizer, não existe contratação anunciada nem proposta publicamente confirmada. Mas imaginemos que aconteça. Eu iria, se fosse ele.

Portiolli tem uma relação quase umbilical com o SBT. Está na emissora desde 1993, virou um dos rostos mais identificados com a casa e, principalmente nos últimos anos, transformou o Domingo Legal em um dos poucos programas capazes de incomodar seriamente a concorrência.



Só que carreira também é movimento. E existe um momento em que permanecer exatamente onde você sempre esteve pode ser mais arriscado do que sair. A Globo permitiria a Portiolli experimentar uma escala completamente diferente de televisão. Não apenas pelos tais R$ 3 milhões. O salário, nesse caso, é quase o começo da conversa. Existe publicidade, merchandising, projetos comerciais, streaming, formatos especiais e toda uma máquina capaz de multiplicar a presença de um apresentador.

Em termos de exposição e mercado, um ano muito bem aproveitado na Globo pode valer 10 anos fazendo aquilo que ele já domina no SBT. E Portiolli tem uma vantagem importante em relação a outras migrações recentes. Ele é extremamente versátil, assim como Silvio Santos, do improviso, da animação.

Celso não depende de uma entrevista, de uma pauta específica ou de um formato muito fechado para funcionar. Ele faz game, palco, brincadeira, improviso, merchandising, conversa com criança, com artista, com anônimo, toma tortada e cinco minutos depois vende um produto olhando para a câmera. Isso vale ouro na televisão aberta.

Por essa razão, não acho correta uma comparação automática com Eliana. Ela saiu do SBT como uma estrela consolidada e chegou à Globo inserida em uma lógica completamente diferente daquela em que construiu sua carreira. Portiolli tem outra natureza televisiva. Ele é mais próximo do animador clássico. Jogue alguma coisa acontecendo no palco e ele resolve.

E existe ainda um detalhe que nenhuma planilha consegue fabricar: o público gosta dele. Não simplesmente assiste. Gosta. São coisas diferentes. Por isso, apesar de todo o DNA de SBT, não vejo dificuldade para Portiolli encontrar espaço na Globo caso exista um projeto realmente pensado para ele. O erro seria tentar transformá-lo em outra pessoa. Ou esperar demais por um formato.

Portiolli não precisa ficar sofisticado porque mudou de emissora. A Globo é que precisaria descobrir como usar o Portiolli que já existe. E aí aparece a segunda parte dessa história. Porque, se Celso sair, o SBT terá um buraco gigantesco na programação. Mas talvez a solução esteja andando pelos corredores da Anhanguera há algumas décadas: Luís Ricardo. Não para virar o novo Portiolli. Muito menos para tentar ser o novo Gugu. Esse seria justamente o erro.

Luís Ricardo precisa ser Luís Ricardo. O Viva a Noite, apresentado por ele aos sábados, mostrou que existe espaço para isso. A atração recuperou uma linguagem ligada ao DNA do SBT: auditório, bagunça organizada, povo, brincadeira e apresentador disposto a entrar no jogo.

Em maio, por exemplo, uma edição do Viva a Noite chegou à vice-liderança e aumentou em 22% a audiência em relação às três semanas anteriores. Não estamos falando, portanto, apenas de nostalgia. Existe resposta do público.

Luís Ricardo é cria de Silvio Santos em um sentido que vai além do currículo. Ele entende o conceito de animador. É uma espécie que anda ameaçada de extinção na televisão brasileira. Hoje temos muitos apresentadores. Animadores mesmo, são poucos.

A diferença é simples: o apresentador conduz roteiro. O animador consegue fazer televisão quando o roteiro acaba. Luís Ricardo tem isso. A espontaneidade que aparece na televisão é praticamente a mesma que existe fora dela. Ele conversa, provoca, brinca e consegue construir proximidade rapidamente. E domingo exige exatamente isso.

Caso Portiolli realmente saia, dar o Domingo Legal a Luís Ricardo não deveria ser encarado como uma solução emergencial, mas uma promoção natural. O interessante seria aproveitar a mudança para mexer no próprio programa. Nada de tentar reconstruir o Domingo Legal de Gugu. Nada de transformar Luís Ricardo em Portiolli.

Um novo Domingo Legal precisa ter a personalidade de quem estiver no palco. E nesse cenário o SBT teria um problema curioso: resolveria o domingo e abriria outro buraco no sábado. Virginia Fonseca já encerrou sua passagem pela emissora e o Sabadou terminou. O espaço acabou ocupado justamente pelo Viva a Noite. Se Luís Ricardo migrasse para os domingos, seria necessário reconstruir novamente parte da programação de sábado.

Talvez isso nem seja ruim. O SBT precisa voltar a fazer uma coisa que durante décadas soube fazer muito bem: trazer e apostar animadores. Gente com experiência em auditório, gente que sabe improvisar, gente popular e que talvez esteja subaproveitada em outros canais. O SBT não precisa necessariamente contratar a celebridade mais cara disponível. Precisa encontrar quem saiba fazer SBT.

Foi assim que Silvio Santos construiu boa parte da história da emissora. Talvez a saída de Portiolli, em vez de representar uma tragédia, obrigue o canal a fazer aquilo que está adiando há algum tempo: formar uma nova primeira divisão de animadores.

Para Celso, a Globo seria uma oportunidade extraordinária de se reinventar. Para Luís Ricardo, o domingo poderia ser a oportunidade de ocupar definitivamente o espaço de grande animador que ele é. E para o SBT seria a chance de perceber que sucessão não significa procurar cópias.

Portiolli não precisa virar Huck. Luís Ricardo não precisa virar Portiolli. E ninguém precisa tentar ressuscitar Gugu. Televisão fica muito melhor quando cada um descobre como ser grande sendo ele mesmo.


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