
por Eduardo Graboski
Publicado em 25/08/2026, às 03h51
Passei pelo C6 no Rock em São Paulo no fim de semana e uma coisa me chamou mais atenção do que qualquer show: o público. Muita gente de 35, 40, 50 anos ou mais. Um público que não estava sentado esperando o show acabar. Estava em pé, cantando, dançando, bebendo, com uma disposição que derruba alguns clichês sobre envelhecer.
Talvez a indústria do entretenimento ainda esteja olhando pouco para essa geração. O C6 no Rock reuniu no Parque Ibirapuera alguns dos principais nomes do rock brasileiro dos anos 80, com Paralamas do Sucesso, Ira!, Blitz, Paulo Ricardo, Marina Lima, além de homenagens a Rita Lee e Cazuza, com Léo Jaime, Leoni, Frejat, Maria Gadú, Arnaldo Antunes, Lobão e mais.
Mas havia ali algo além da nostalgia. Era um público que tinha relação com aquelas músicas. Sabia a letra, lembrava do disco, entendia por que tal canção havia sido escrita e, muitas vezes, conseguia associar a algum momento da própria vida. E isso muda completamente a experiência.
Vivemos a era do refrão de 15 segundos, da música pensada para virar trend e da ansiedade para descobrir qual será o próximo hit antes mesmo de terminar o atual. Nada disso é ruim, a música muda porque o mundo muda. Mas assistir a milhares de pessoas cantando músicas lançadas há 40 ou 50 anos deixa uma pergunta: quantas das músicas que explodem hoje ainda serão cantadas por uma multidão daqui a quatro décadas?
A proposta do festival ajuda a explicar essa sensação. Alguns artistas voltaram a discos completos, como “Fullgás”, de Marina Lima, e “Selvagem?”, dos Paralamas. Em vez de reunir sucessos aleatórios, tinha começo, meio, fim, contexto e conceito. É música tratada como obra. E talvez seja justamente isso que uma parte do público esteja sentindo falta.
Não quero entrar naquela discussão de que “antigamente tinha música de verdade e hoje não existe mais”. Existe música muito boa sendo produzida agora. Assim como também existia muita porcaria nos anos 80 que já esquecemos. O tempo funciona como um ótimo editor, né?!

Mas existe uma diferença importante: durante muito tempo, o álbum, a letra, a identidade de um artista e aquilo que ele tinha para dizer faziam parte central do mercado musical. Hoje, muitas vezes, consumimos primeiro o trecho e depois descobrimos se existe uma música inteira em volta dele, ou talvez uma história.
É por isso que aquele público 35+ estava tão entregue. Não estava apenas ouvindo música velha, estava reencontrando histórias. E estava mostrando uma coisa que publicidade, televisão, festivais e até redes sociais precisam entender rápido: essa geração viaja, consome, vai a shows, compra ingresso, dança, bebe, se diverte e quer novas experiências.
Talvez o mercado passe tempo demais tentando descobrir o que a geração Z quer enquanto há uma multidão de adultos mais maduros com dinheiro, disposição e vontade de sair de casa, esperando alguém lembrar que eles também existem. O C6 no Rock lembrou. E ainda deixou outra reflexão. Talvez envelhecer bem tenha um pouco disso: continuar encontrando razões para ficar horas em pé na frente de um palco. Melhor ainda quando existe uma música que vale a pena cantar até o fim.