
por Eduardo Graboski
Publicado em 09/03/2026, às 17h22
A televisão nunca supera uma coisa: colocar alguém em situação desconfortável e assistir de camarote. A novidade da vez vem da Austrália. Um reality em ambiente extremo com uma proposta simples e eficiente: pessoas enfrentando seus maiores medos. Altura, isolamento, resistência física, pressão psicológica.
A fórmula não é nova. O cenário muda, o medo é reciclado, mas o constrangimento rende audiência. Até aí, tudo dentro do script. O detalhe interessante começa quando o formato passa a ser estudado para uma versão brasileira.
E não, a ideia não seria escalar “celebridades”. O modelo discutido nos bastidores aponta para algo mais atual: um elenco misto. Subcelebridades estão na mira. Ex-reality shows, influenciadores entre 100 mil e 1 milhão de seguidores. E anônimos com histórias fortes. Ou seja: o famoso pelo famoso está ficando caro demais e muito previsível.
A televisão finalmente entendeu o que o algoritmo já tinha ensinado: engajamento não mora necessariamente nos milhões, nos números, mas na comunidade e na história de vida. Um criador com 300 mil seguidores pode ter uma base mais fiel do que muitos artistas que vivem de lembrança dos anos 2000.
E tem outro fator que pesa: o custo. Uma subcelebridade com sede de relevância topa quase qualquer desafio. Um influenciador médio vê ali a chance de virar nome nacional. Um anônimo entra para mudar de vida. Todos têm algo a provar. E reality bom é aquele em que o elenco precisa desesperadamente daquela vitrine.
O público também mudou. Não basta corpo bonito, bordão ensaiado e briga clichê. A audiência quer ver fragilidade, perrengue. Quer ver o filtro cair. Quer ver o influenciador fitness tremendo diante de uma prova de resistência. Quer ver a blogueira de rotina perfeita lidando com lama, frio e medo real. Porque o ambiente extremo não tem filtro do Instagram.
Se esse formato vier mesmo ao Brasil com essa mistura de perfis, ele pode provocar uma coisa interessante: a quebra definitiva da divisão entre “camarote” e “pipoca”, por exemplo. O jogo deixaria de ser sobre quem já é famoso e passaria a ser sobre quem sabe sustentar personagem sob pressão. E aí mora o perigo.
Influenciador acostumado a controlar narrativa (ou tudo o que posta) pode descobrir que, em reality, edição é soberana. Subcelebridade que vive de polêmica calculada e mentirosa pode perceber que conflito natural é bem diferente de tweet estratégico.
A televisão sempre soube fabricar heróis e vilões. A internet fabrica personas. Colocar esses dois mundos dentro de um ambiente extremo pode ser menos sobre sobrevivência física e mais sobre sobrevivência de imagem, de reputação e de imagem.
No fim, talvez o maior medo ali não seja altura, água gelada ou isolamento. Talvez seja o medo de descobrir quem você é quando não está nas redes sociais mostrando só o que quer. Isso te assusta?
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