Por que tanta gente prefere a CazéTV à Globo e SBT?

Eduardo Graboski Publicado em 24/06/2026, às 12h47

CazéTV bate recorde no YouTube e entra para a história com transmissão da Copa do Mundo - Foto: Divulgação

Toda vez que a audiência da CazéTV aparece, alguém corre para explicar o fenômeno da forma mais simples possível: os jovens abandonaram a televisão. É verdade. Mas também é uma explicação preguiçosa. Se fosse apenas uma questão tecnológica, bastaria colocar qualquer transmissão esportiva na internet e esperar o sucesso acontecer. Não é o que acontece.

O que a CazéTV entendeu não foi uma mudança de plataforma. Foi uma mudança de comportamento. Durante décadas, a TV transmitiu futebol como televisão. A CazéTV transmite futebol como internet. Parece a mesma coisa. Não é.

A televisão sempre trabalhou com uma certa distância. O narrador era uma autoridade. O comentarista era uma autoridade. O apresentador era uma autoridade. Existia uma espécie de pacto silencioso entre quem falava e quem assistia.



A internet destruiu esse pacto. Hoje o público não quer apenas ouvir opiniões. Quer sentir que está participando da conversa. É por isso que Casimiro e sua trupe funciona. Não, a CazéTV não tem os narradores e comentaristas mais técnicos do Brasil. Também não é porque o canal tenha acesso privilegiado aos bastidores. Nem porque descobriu uma fórmula secreta para transmitir futebol.

Funciona porque fala como o torcedor fala. A sensação não é de estar assistindo a uma transmissão. É de estar sentado no sofá vendo o jogo com amigos. E isso vale ouro em uma era na qual a disputa não é mais por audiência. É por atenção. Antigamente, assistir a um jogo era uma atividade única. Hoje ninguém faz apenas uma coisa.

O sujeito vê o jogo, comenta no X (o antigo Twitter), responde mensagens no WhatsApp, manda meme no Instagram, abre estatísticas, acompanha cortes e ainda reclama da arbitragem em algum grupo.

O futebol deixou de ser um evento isolado. Virou uma experiência coletiva e simultânea. A CazéTV entendeu isso antes de muita gente. Enquanto parte da televisão ainda tenta adaptar a internet aos seus formatos, a CazéTV fez o contrário. Adaptou a transmissão ao comportamento da internet.

Talvez a maior ironia dessa história seja que a própria televisão ajudou a criar esse cenário. A Globo passou décadas transformando futebol em entretenimento. Galvão Bueno nunca foi apenas um narrador. Foi personagem. Tadeu Schmidt virou personagem. Tiago Leifert virou personagem. Os bordões, as brincadeiras e os debates sempre fizeram parte do espetáculo.

A diferença é que a internet acelerou esse processo. Hoje, muitas vezes, a transmissão importa tanto quanto o jogo. Não é mais apenas sobre Brasil e Argentina. É sobre com quem você quer assistir Brasil e Argentina. O narrador virou creator. O comentarista virou influencer. A transmissão virou conteúdo. E o futebol, em alguns momentos, virou cenário.

E talvez seja justamente aí que mora o maior mérito da CazéTV. Não foi reinventar a transmissão esportiva. Foi entender que, em 2026, as pessoas escolhem quem querem ouvir tanto quanto escolhem o jogo que querem assistir.

A Globo continua sendo a Globo. O SBT montou uma cobertura competitiva. Mas a CazéTV encontrou algo que vale cada vez mais na disputa pela atenção: pertencimento. E pertencimento não se compra com direitos de transmissão.

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