
por Eduardo Graboski
Publicado em 01/12/2025, às 12h11
Assistir ao musical “Vale Tudo – Tim Maia”, no Teatro Claro SP, é viver uma experiência curiosa: você sai encantado pelo show, fascinado pelo elenco e, ao mesmo tempo, se perguntando quem teve a ideia de transformar Tim Maia em produto para agradar intelectual.
É quase uma contradição poética: o artista mais popular, mais visceral, talvez mais real, encaixotado num espetáculo que parece ter sido pensado para quem acredita que, transformar Tim Maia em conceito, é mais importante do que sentir Tim Maia no peito.
Como diria Joãosinho Trinta, carnavalesco e mestre supremo da estética do povo: “Quem gosta de miséria é intelectual.” E, no musical, quando o assunto deixa de ser a história, é exatamente isso que temos: miséria. Miséria de narrativa, miséria de roteiro, miséria de curiosidade.
É tudo tão raso que, em certo momento, o próprio ator manda o recado, ainda em tom de brincadeira: “Se quiserem saber mais, comprem o livro do Nelson Motta ou pesquisem no Google”. E a sensação é exatamente essa. O musical não se esforça para contar nada. Não contextualiza, não costura trajetória.
É como se tivessem decidido que contar a vida de Tim Maia em detalhes seria… cafona. E que bacana mesmo seria fazer um tributo high concept, desses que deixam críticos com cara de “entendi a referência”, como na cena em que Tim canta “Chocolate” com Marisa Monte, traduzida para o palco com um gesto sutil sobre maconha.
O problema: Tim Maia nunca foi sobre referência. Tim Maia é sobre presença. E é aí que o espetáculo acerta. No palco, Dennis Pinheiro [que interpretou Tim Maia no dia em que assisti], dá um show. E todo o elenco é igualmente talentoso, dispensa comentários.
O timbre, os gestos, a atitude, o balançar inconfundível, o jeitão debochado, a emoção na voz… Ele não interpreta Tim: ele incorpora Tim Maia. Você até esquece que está num musical. Parece um show do próprio Tim, com potência e emoção. Musicalmente, é tão bem-feito que, se a ideia é prestar homenagem ao síndico, missão cumprida. Na real, é um tributo.
A parte fraca da noite é sempre a mesma: o texto. Além de não contar a história, ainda complica o pouco que decide mostrar. Em vários momentos, entram três personagens narradores que explicam fatos cantando, e aí a sofrida narrativa é prejudicada de vez.
É difícil entender o que dizem (ou o que cantam). As letras se embolam na melodia, a informação se perde, a história fica ainda mais distante. É quase um “telefone sem fio”. Num espetáculo que já sofre por não mergulhar na vida do artista, perder a clareza justamente na hora de explicar alguma coisa… é pedir para o público desistir.
O público só não desiste pela música, pela banda, pela animação. Curiosamente, o ponto alto do roteiro é justamente a única história contada com começo, meio e fim: o hilário episódio do show no Morro da Urca com Sandra de Sá. É quando a plateia finalmente sente o tempero real de Tim Maia: o humor, o caos, o seu temperamento, a sua essência.
É um alívio, um respiro, que infelizmente acaba rápido demais. A cena é curta e a única em quase duas horas de espetáculo. O público assiste pedindo mais.
Por fim, se você entrar no teatro com a ideia de uma biografia, vai sair frustrado. Se entrar esperando um tributo, um show, vai sair de alma lavada. “Vale Tudo” não entrega a vida do Tim, mas entrega o espírito dele no palco. E por isso a plateia sai dançando, mesmo sem ter ouvido a história. No final, quem vence é a música, como sempre foi na vida de Tim Maia.