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Elaine Keller: “O risco da IA é desaprendermos a pensar”

Advogada e economista analisa como a inteligência artificial redesenha poder, trabalho e soberania e alerta para uma ameaça menos óbvia: a dependência humana dos algoritmos

Para Elaine Keller, o maior perigo da inteligência artificial pode não estar na autonomia das máquinas, mas na dependência cada vez maior dos seres humanos em relação aos algoritmos - Reprodução Instagram
Para Elaine Keller, o maior perigo da inteligência artificial pode não estar na autonomia das máquinas, mas na dependência cada vez maior dos seres humanos em relação aos algoritmos - Reprodução Instagram
Mundo Pop

por Mundo Pop

Publicado em 20/08/2026, às 16h08

A discussão sobre inteligência artificial costuma ser acompanhada por uma pergunta quase cinematográfica: até onde as máquinas poderão chegar? Para Elaine Keller, advogada especialista em Direito Digital, economista, doutora em Direito pela PUC-SP e pós-doutoranda pela Universidade de Sevilha, talvez estejamos olhando para o lado errado. A questão decisiva não é quanto poder a tecnologia conquistará, mas quanto estaremos dispostos a entregar.

“O maior risco não é que a inteligência artificial se torne autônoma demais. É que nós nos tornemos dependentes demais dela.”

A provocação resume uma discussão que ultrapassa o universo tecnológico. IA, para Keller, é também uma questão de autonomia, responsabilidade, concentração econômica e soberania.

Algoritmos já participam de decisões relacionadas a crédito, recrutamento e ao conteúdo apresentado nas plataformas digitais. Isso não significa necessariamente que tenham recebido formalmente a palavra final. O ponto de atenção está justamente na etapa anterior: sistemas selecionam informações, estabelecem prioridades, classificam riscos e apresentam recomendações que podem influenciar profundamente a decisão humana.

“O que está em jogo é a definição de quem continuará sendo o sujeito da decisão”, afirma Keller. Para ela, a tecnologia pode ampliar a capacidade de análise e gerar eficiência, mas existe uma fronteira que não deveria ser terceirizada. “O que não podemos transferir aos modelos algorítmicos é o poder de decidir e, sobretudo, a responsabilidade pelas consequências dessas decisões.”

Quando a recomendação vira decisão

Existe uma diferença aparentemente pequena, mas fundamental, entre utilizar uma ferramenta para decidir melhor e simplesmente homologar aquilo que ela determina.

“Talvez o problema não seja saber se a máquina já está decidindo por nós, mas perceber quando o ser humano passa apenas a confirmar aquilo que o sistema sugeriu”, diz.

É nesse ponto que a discussão sobre IA deixa de ser exclusivamente técnica. Quem responde quando uma decisão automatizada produz consequências? Quem estabelece os limites? E, principalmente, quem controla os sistemas e a infraestrutura capazes de influenciar essas escolhas?

A nova corrida pelo poder

A inteligência artificial também inaugurou uma corrida econômica que envolve muito mais do que softwares. Dados, semicondutores, infraestrutura de nuvem, capacidade computacional e capital tornaram-se peças estratégicas.

“Não se trata apenas de saber quem terá a tecnologia mais avançada, mas de quem estabelecerá as regras e controlará a infraestrutura de uma tecnologia que tende a atravessar praticamente todas as atividades econômicas e institucionais”, afirma Keller.

É nesse tabuleiro que entra a discussão sobre soberania tecnológica brasileira.

Para a economista, o Brasil ainda não possui autonomia suficiente para competir em igualdade de condições com os grandes polos tecnológicos, mas reúne ativos que podem evitar uma posição meramente periférica: capacidade científica, dados, instituições e recursos naturais estratégicos, entre eles as terras raras.

A pergunta, portanto, é também sobre geração de riqueza.

“A meu ver, a pergunta que o país precisa fazer é muito objetiva: queremos apenas regular e consumir a tecnologia desenvolvida por outros países ou queremos criar condições para participar da produção da riqueza gerada por essa nova economia?”

Elaine Keller alerta para uma consequência menos óbvia da revolução tecnológica: a terceirização progressiva da capacidade humana de decidir e criar.
Reprodução Instagram

Brasil, Europa e as regras do jogo

Na regulação, a União Europeia adotou um modelo baseado em diferentes níveis de risco, com exigências maiores conforme o potencial de impacto dos sistemas. No Brasil, o debate legislativo também procura estabelecer parâmetros para conciliar inovação e proteção de direitos.

Keller considera que o país tem a oportunidade de observar a experiência europeia antes de consolidar seu próprio modelo, mas alerta para uma diferença essencial: importar regras não significa importar realidades.

Desigualdade, acesso à tecnologia, capacidade institucional e concentração econômica precisam fazer parte da equação brasileira. Uma regulamentação destinada a proteger a sociedade pode produzir o efeito inverso caso os custos de adequação acabem tornando o desenvolvimento tecnológico ainda mais restrito às grandes corporações.

O trabalho não desaparece. Ele muda

No mercado profissional, Keller evita uma leitura simplista sobre uma substituição generalizada de trabalhadores por máquinas. O movimento tende a ocorrer dentro das próprias profissões: determinadas tarefas serão automatizadas enquanto outras ganharão relevância.

O risco está na velocidade e na desigualdade dessa adaptação.

Profissionais capazes de incorporar IA ao trabalho podem ampliar produtividade e capacidade de atuação. Quem não tiver acesso às ferramentas ou à formação necessária corre o risco de ficar ainda mais distante desse grupo.

Assim, uma tecnologia apresentada como democratizadora também pode aprofundar diferenças já existentes.

A fronteira mais delicada: o pensamento humano

É, porém, longe dos balanços empresariais e dos textos regulatórios que Keller identifica sua maior inquietação.

“O cenário que mais me preocupa é o de uma sociedade que, voluntariamente, passa a abrir mão da própria capacidade de decidir em nome da conveniência e da eficiência.”

A dependência deixa então de ser tecnológica para se tornar intelectual.

Direito, música, arte, literatura e produção de conhecimento são atividades construídas também pelo processo: experimentar, interpretar, errar, reformular e criar. Quando esse percurso é sistematicamente terceirizado, não está em discussão apenas quem produzirá determinado texto, imagem ou decisão, mas que capacidade intelectual permanecerá conosco.

No século em que máquinas aprenderam a produzir respostas em segundos, talvez o verdadeiro luxo seja conservar algo que nenhuma inovação deveria tornar obsoleto: a capacidade humana de formular as próprias perguntas.