
por Eduardo Graboski
Publicado em 15/12/2025, às 06h46
Há acontecimentos na TV que desafiam qualquer tentativa de explicação racional. Eles simplesmente brotam, se instalam no imaginário popular e, quando percebemos, já mudaram a lógica do jogo. Dudu Camargo é um desses temas improváveis. Não dá mais para olhar para os realities sem estabelecer uma divisão meio bíblica: antes de Dudu e depois de Dudu.
A presença dele na casa é quase uma afronta aos manuais que transformaram o gênero num laboratório de gestão de reputação. Enquanto boa parte dos participantes entra preparada para parecer impecável, ganhar com publi e atravessar o reality olhando só para marketing e mídia, Dudu escolheu fazer algo considerado ousado em 2025: entregar entretenimento de forma simples e "pura".
Ele joga para o público com a devoção de quem estudou a grade da TV aberta e concluiu que não dá para brincar com a paciência do telespectador. E mais, nem pensa no pós-reality, nem em contratos milionários, reputação, imagem de bom moço ou nas oportunidades depois do programa.
A impressão é que antes de cada atitude ele olha para o nada e pergunta, como quem consulta um oráculo: o que o público quer assistir agora? E aí toma a decisão que, muitas vezes, não é a que mais favorece sua própria imagem. É quase um sacrifício em nome da diversão nacional. Isso, em tempos de pessoas que têm medo até da própria sombra, acaba virando um acontecimento histórico.
Mas talvez o grande encanto esteja fora da casa. No momento em que os realities foram sequestrados por equipes digitais, mutirões e torcidas que tratam a votação como prova do Enem, Dudu aparece sem nada disso. Sem Instagram. Sem TikTok. Sem ADMs. E, ironicamente, é justamente essa ausência de máquina que transforma a torcida dele numa entidade quase mística, um negócio que simplesmente acontece.
Lá no início, todos torceram o nariz quando ele disse que não tinha equipe aqui fora. Que nem tinha rede social ativa. E eu já antecipava: isso pode ser genial. Dito e feito! É Brasil profundo, Brasil raiz, Brasil que vota porque se divertiu, e não porque recebeu card pronto como spam.
No fim das contas, o fenômeno Dudu Camargo funciona como um lembrete de que reality show ainda é televisão popular. E TV, quando dá certo, é sempre sobre gente que se joga e público que compra a história. Dudu entendeu isso. E é por isso que, goste dele ou não, fica cada vez mais difícil negar que a era pós-Dudu já começou.
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