
por Eduardo Graboski
Publicado em 08/07/2025, às 10h49
Há filmes que não gritam, mas sussurram direto no nosso peito. Vitória, estrelado por Fernanda Montenegro, é um desses raros exemplares do cinema nacional que escolhem a delicadeza como fio condutor, sem jamais abrir mão da profundidade ou da força.
Em tempos de produções barulhentas, velozes e cheias de efeitos, este longa chega como um respiro — e nos lembra do poder transformador da arte quando ancorada na emoção genuína e em atuações excelentes.
No centro da história está Vitória, uma idosa que decide, num ato silencioso de coragem, encarar a violência urbana. Da janela do seu apartamento, de frente para um morro no Rio de Janeiro, ela grava a ação dos traficantes e entrega todas as fitas para a polícia.
Enquanto busca soluções para o descaso da segurança, podemos sentir as dores de dona Nina (personagem de Fernanda), perceber seus medos, sua solidão, suas frustrações, esperanças e a desilusão com as forças públicas ao ver as pessoas ao seu redor serem engolidas pelo mundo do tráfico.
Fernanda Montenegro, como sempre, está absoluta. Mas em “Vitória”, sua atuação atinge um novo nível de sutileza. Com um olhar, ela diz o que muitos roteiristas gastam páginas para tentar construir. Há uma humanidade desarmada em cada gesto dela, que carrega uma dor contida, mas também uma esperança teimosa.
Fernanda não interpreta uma personagem — ela a habita com tamanha verdade que é impossível sair ileso. De longe, é a maior obra já protagonizada por ela nesses anos todos.
A direção é contida, elegante, quase poética. O filme não tem pressa, e isso é proposital. Ele quer que a gente fique. Que a gente escute os silêncios. Que a gente olhe para os detalhes, como os olhos marejados de Vitória diante de uma fotografia antiga ou o modo como ela segura a xícara de café antes de um tiroteio.
O enredo, por sua vez, fala de amor — mas não o amor cheio de urgência. Fala do amor que persiste, da esperança. Do amor que amadurece com o tempo, que sobrevive aos preconceitos. É uma história sobre o tempo, sobre resistência. Sobre o que perdemos — e o que ainda podemos resgatar. Sobre humanidade.
Vitória não é um filme para maratonar. É para assistir com o peito aberto, com a alma desarmada. É sobre recomeços, é sobre coragem. E, sobretudo, é um presente para quem admira o talento visceral de Fernanda Montenegro, uma atriz que continua, aos 95 anos, ensinando a todos nós o que significa viver — e representar — com verdade.
Em um país que por vezes esquece de suas artistas mais consagradas, Vitória é também um lembrete: Fernanda Montenegro é nosso maior patrimônio vivo. E quando ela fala, ainda que com um sussurro ou olhar, é preciso parar, ouvir e sentir.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.
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