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Por que o desejo diminui mesmo quando o amor permanece? Psicólogo Renan Santana provoca debate sobre relações duradouras

Em novo artigo, especialista em casais e neurociência explica por que a queda do desejo é mais comum — e natural — do que se imagina, e por que ela não significa, necessariamente, o fim do amor.

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por Zoom Pop

Publicado em 16/12/2025, às 02h50

Amar, construir uma história, dividir a vida e, ainda assim, perceber que o desejo já não surge com a mesma intensidade de antes. A experiência é mais frequente do que muitos casais admitem, e costuma vir acompanhada de culpa, medo e a sensação de fracasso. No entanto, no novo artigo publicado pelo psicólogo de casais e neurocientista Renan Santana, a perda de desejo ao longo do tempo é apresentada não como exceção, mas como um fenômeno humano, previsível e profundamente ligado à forma como o cérebro, a cultura e os relacionamentos funcionam.

Ao longo do texto, Renan desmonta uma das crenças mais difundidas do amor romântico: a ideia de que paixão, segurança, convivência e erotismo caminham juntos de maneira espontânea e permanente. Segundo ele, essa fantasia cria expectativas irreais e faz com que muitos casais interpretem a diminuição do desejo como sinal de desamor, quando, na verdade, amor, desejo e intimidade são experiências distintas, sustentadas por mecanismos emocionais e neurobiológicos diferentes.

Enquanto o desejo está associado à curiosidade, ao impulso e ao mistério — ativado por sistemas cerebrais ligados à dopamina e à busca —, o amor se ancora em circuitos de apego, segurança e pertencimento, mediados por hormônios como oxitocina e vasopressina. O problema surge quando a intimidade e a convivência, fundamentais para relações duradouras, acabam reduzindo o espaço simbólico necessário para que o erotismo exista. Amar aproxima; desejar exige algum grau de distância psíquica.

O artigo também aborda o impacto da rotina e da previsibilidade sobre o desejo. Na fase inicial dos relacionamentos, o cérebro opera em estado de conquista, alimentado pela imprevisibilidade e pela expectativa. Com o tempo, a convivência constante reduz esse efeito, e o organismo passa a economizar energia. A paixão automática dá lugar a um desejo que precisa ser cultivado com intenção, criatividade e movimento — algo que muitos casais não percebem, esperando que a chama inicial se mantenha sozinha.

Outro ponto central da análise é a chamada fusão emocional. Quando o casal perde a individualidade, faz tudo junto e abandona interesses próprios, a alteridade desaparece — e, com ela, o objeto do desejo. O texto alerta ainda para o papel do tédio, frequentemente interpretado como sinal de que algo está errado, quando, na verdade, é um subproduto natural da previsibilidade. Ignorar essa dinâmica, segundo Renan, leva muitos casais à acomodação ou à busca de vitalidade fora da relação.

O psicólogo também destaca o ressentimento como um dos maiores inimigos do erotismo. Mágoas acumuladas, conflitos não resolvidos e inseguranças constantes fazem com que o parceiro deixe de ser percebido como um estímulo seguro. E, sem segurança interna, o corpo não relaxa — condição básica para que o desejo apareça. Ciúme excessivo, vigilância e controle transformam a relação em um espaço de tensão, incompatível com o erotismo.

Além da dimensão emocional e biológica, o artigo chama atenção para o peso da cultura. Renan dialoga com autores que apontam como a moral sexual e o ideal de fusão romântica restringem o prazer, criam culpa e sufocam a liberdade necessária para o desejo circular. Nesse contexto, frases como “eu amo, mas não desejo” deixam de ser vistas como contradições e passam a revelar um excesso de previsibilidade, não uma falta de amor.

Longe de oferecer fórmulas prontas, o texto propõe caminhos possíveis: recuperar a individualidade, investir em comunicação erótica, sair do piloto automático e tratar feridas emocionais antes de tentar reacender o sexo. Para o psicólogo, o desejo precisa de sujeitos vivos, curiosos e em movimento — não de obrigações conjugais ou performances mecânicas.

Renan Santana encerra o artigo com uma reflexão que confronta expectativas idealizadas: amor e desejo não caminham juntos de forma natural para sempre, e isso não significa fracasso. Entender o desejo como um organismo vivo, que reage ao ambiente, ao tempo e à dinâmica do casal, permite uma postura mais madura diante das relações. Mais do que buscar euforia constante, o que mantém um relacionamento vivo é a escolha contínua de cultivar aquilo que, inevitavelmente, não se sustenta sozinho.