O avanço da Inteligência Artificial tem provocado discussões cada vez mais intensas dentro da indústria do entretenimento. Depois de o Oscar anunciar novas regras para limitar o uso da tecnologia em categorias criativas, o debate sobre os impactos da IA no audiovisual voltou a ganhar força em todo o mundo. E no Brasil, profissionais do setor já observam mudanças importantes na forma de produzir filmes, séries e conteúdos digitais.
Embora a tecnologia possa ajudar a reduzir custos e agilizar processos, especialistas alertam que o uso excessivo da IA também traz preocupações. Entre os principais pontos estão a perda de espaço para profissionais criativos, a redução da diversidade cultural e o risco de conteúdos cada vez mais parecidos entre si.
Para Victor-Hugo Borges, diretor de comunicação da Glaz Entretenimento, produtora responsável por obras como “Cabras da Peste” e “De Volta aos 15”, a Inteligência Artificial não deve ser vista apenas como uma ferramenta comum. “É comparável ao surgimento da imprensa e da internet. Não é só uma nova tecnologia. Ela pode mudar completamente a forma como a cultura é criada, distribuída e consumida”, afirma.
Segundo ele, a IA pode até ampliar o acesso à criação audiovisual, permitindo que mais pessoas consigam produzir conteúdos. Ao mesmo tempo, existe o risco de as plataformas priorizarem formatos que já fazem sucesso, diminuindo o espaço para histórias mais regionais e diferentes.
Esse cenário preocupa especialmente a produção brasileira, conhecida justamente pela diversidade cultural e pelas narrativas locais. Para Victor-Hugo, algoritmos globais podem acabar favorecendo conteúdos mais universais e “exportáveis”, deixando de lado identidades culturais periféricas que muitas vezes nem aparecem nos dados usados pelas ferramentas de IA.
Além da questão cultural, outro ponto de atenção é o impacto no mercado de trabalho. Funções como edição, dublagem, roteiro e design audiovisual já começam a sentir os efeitos da automação.
Mesmo assim, o executivo acredita que a substituição completa de profissionais ainda está distante. “A IA ainda não consegue ter a sensibilidade cultural e humana necessária para contar boas histórias”, destaca.
Na prática, algumas produtoras brasileiras já utilizam a tecnologia em áreas mais operacionais. Na Glaz Entretenimento, por exemplo, a IA é usada para otimizar processos internos e aumentar a produtividade, principalmente em setores administrativos e financeiros. Já as decisões criativas continuam sendo feitas apenas por pessoas.
A empresa também afirma que possui regras internas para impedir o uso da IA em processos criativos e reforça o cuidado com questões éticas e proteção de informações.