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E se nem tudo for ficção? Spielberg volta aos extraterrestres e a Unidakila questiona por que o cinema insiste em contar histórias que a ciência começa a investigar

De Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. a Interestelar e ao novo Disclosure Day, Hollywood parece nunca abandonar uma de suas perguntas favoritas: estamos sozinhos? Fernanda Lima, professora da Unidakila com formação acadêmica em cinema pela Université Paris 8 Vincennes–Saint-Denis, na França, provoca outra questão: quanto daquilo que aprendemos a chamar de ficção nasceu, na

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por Zoom Pop

Publicado em 12/08/2026, às 23h55

As luzes se apagam.

Por algumas horas, aceitamos um acordo silencioso com o cinema: aquilo que aparece na tela não precisa ser verdade. Uma nave pode surgir sobre uma cidade. O tempo pode passar de maneira diferente próximo a um buraco negro. Uma inteligência desconhecida pode tentar estabelecer contato.

Dúvidas começam a borbulhar pela mente do espectador: Governos poderiam estar escondendo informações?

E diante das dúvidas, outra dúvida que talvez surja mais como uma resposta: Um homem pode olhar para o céu e descobrir que a humanidade talvez não esteja sozinha.

É ficção ou foi assim que aprendemos a chamar?

O curioso é que, há quase meio século, o cinema continua voltando ao mesmo lugar. Em 1977, Steven Spielberg levou Contatos Imediatos do Terceiro Grau às telas. Cinco anos depois, veio E.T. – O Extraterrestre. Ridley Scott transformou Alien em um dos maiores fenômenos da cultura pop. Contato, inspirado no romance do astrônomo Carl Sagan, colocou ciência e possibilidade de vida extraterrestre na mesma conversa. Denis Villeneuve fez de A Chegada uma reflexão sobre linguagem, tempo e comunicação com uma inteligência não humana.

E Christopher Nolan colocou milhões de espectadores diante de um buraco negro chamado Gargantua em Interestelar. Agora Spielberg voltou e talvez nunca tenha voltado em um momento tão interessante.

Em Disclosure Day, Spielberg retorna ao território que atravessa boa parte de sua carreira: o desconhecido, os fenômenos aéreos e a possibilidade de uma inteligência não humana, só que com a diferença temporal. Há uma grande diferença entre assistir a uma história assim hoje e assistir a Contatos Imediatos em 1977.

Hoje, quando as luzes da sala se acendem, o espectador pode fazer algo que aquela plateia não podia: pegar o celular e pesquisar.

UAP existe como terminologia institucional. Documentos oficiais sobre ocorrências aéreas não identificadas existem. Registros divulgados por órgãos governamentais existem. Relatos de pilotos existem. Investigações existem. Audiências públicas existem.

Isso significa uma coisa : o assunto existe fora da tela. E Spielberg parece saber exatamente onde está pisando. Ao falar sobre Disclosure Day, o cineasta afirmou que o filme foi construído sobre uma “base de verdade”.

A expressão é pequena .O efeito dela, não. Porque de repente a pergunta deixa de ser:

“O que Spielberg inventou?” E passa a ser: “Qual é essa base?”

E a pergunta vira um convite ao leitor ao sair do cinema: Pegue o celular. Pesquise.

Talvez essa seja a parte mais fascinante. Pesquise Roswell. Pesquise UAP. Pesquise investigações oficiais. Pesquise vídeos divulgados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Pesquise audiências realizadas no Congresso norte-americano. Pesquise programas governamentais criados para analisar ocorrências anômalas.

Você encontrará fatos. Encontrará documentos. Encontrará hipóteses. Encontrará testemunhos. Encontrará casos explicados. Encontrará outros ainda discutidos.

E encontrará também exageros, erros, desinformação e teorias sem evidências.

É aí que assistir deixa de ser suficiente. Porque o cinema pode fazer a pergunta. A pesquisa precisa descobrir o que fazer com ela.

Há outro filme que talvez explique essa fronteira melhor do que qualquer discurso: Interestelar.

Talvez Hollywood colocou um físico dentro de um buraco negro. Christopher Nolan poderia simplesmente ter inventado seu Universo mas preferiu complicar as coisas. Chamou Kip Thorne.

Professor do Caltech e um dos grandes nomes da física gravitacional, Thorne trabalhou como consultor científico e produtor executivo do longa. Anos depois, receberia o Nobel de Física.

O acordo era fascinante: levar a ciência conhecida tão longe quanto fosse possível antes de atravessar, conscientemente, a porta da especulação.

E então nasceu Gargantua : o gigantesco buraco negro de Interestelar não foi simplesmente desenhado porque ficaria bonito numa tela IMAX. Para construí-lo visualmente, física e computação gráfica trabalharam juntas para simular como a luz se comportaria nas proximidades de um buraco negro em rotação.

E aconteceu uma dessas ironias que parecem ter sido escritas para um roteiro. A ciência ajudou a produzir a “ficção”. E a “ficção” devolveu material à ciência.

O trabalho desenvolvido para a visualização de Gargantua resultou também em publicação científica relacionada à representação de lentes gravitacionais em torno de buracos negros.

Pesquisadores ligados à NASA destacaram o cuidado científico incomum de Interestelar, embora o longa — evidentemente — também faça concessões narrativas e entre no campo da especulação.

Ainda assim, resta uma pergunta inebriante: em que minuto exatamente a ciência termina e a ficção começa?

Fernanda Lima faz a pergunta pelo outro lado: “você já se indagou se parte da ficção surgiu da própria realidade”?  A pesquisadora de Dakila conhece o cinema por dentro de sua linguagem. Professora da Unidakila, ela tem formação acadêmica em cinema pela Université Paris 8 Vincennes–Saint-Denis, na França, onde cursou Licence Arts, mention Arts du Spectacle – Cinéma.

E sua leitura inverte uma pergunta que costumamos fazer. Talvez não devêssemos perguntar apenas quanto da ficção poderá um dia se tornar realidade. Talvez devêssemos perguntar quanto da realidade já foi transformado em ficção.

“Muitas vezes, o cinema se inspira na própria realidade para construir aquilo que o público recebe como ficção. A linguagem cinematográfica permite criar personagens, situações e narrativas, mas isso não significa que tudo o que aparece ali tenha nascido da imaginação. Dentro da ficção podem existir conhecimentos científicos, acontecimentos, pesquisas, documentos, hipóteses e elementos absolutamente reais.”

É uma distinção sutil, mas muda tudo.Porque um filme continua sendo um filme. Um roteiro continua podendo inventar personagens, acontecimentos e diálogos. Mas chamar uma obra de ficção não significa necessariamente afirmar que todos os elementos que a compõem sejam fictícios.

Fernanda leva a provocação adiante: “Quando dizemos que alguma coisa é ficção, quase automaticamente colocamos aquilo no lugar do que não é real. Mas será que essa separação é tão simples? Quanto da ficção foi inspirada na realidade? Quanto daquilo que vemos no cinema já existe, já foi pesquisado ou documentado? E quanto foi criado exclusivamente para aquela narrativa? Talvez a pergunta seja justamente esta: onde termina a ficção e onde começa a realidade?”

Volte a Interestelar. Gargantua está dentro de uma obra de ficção. As equações que ajudaram a construí-lo, não. Volte a Disclosure Day. Os personagens pertencem a um roteiro. Mas os UAPs não foram inventados pelo roteirista.

As investigações não nasceram numa sala de Hollywood. Os documentos não começaram nos créditos. Então a fronteira fica menos confortável. Para a ciência "convencional” quase sufocante eu diria. Para aqueles que buscam indagar, pesquisar e explorar, tudo fica muito mais interessante.

Há uma palavra que aparece repetidamente quando Urandir Fernandes de Oliveira fala sobre a concepção da Unidakila. Questionar. O Presidente da Dakila Pesquisas defende que a transformação educacional pretendida pela instituição começa justamente quando o aluno deixa de ocupar apenas o lugar de quem recebe respostas, e passa a produzir perguntas: “A Unidakila nasceu com uma proposta muito clara: não queremos formar pessoas para simplesmente repetir aquilo que receberam como verdade. Queremos formar questionadores e pesquisadores. Pessoas que perguntem: por quê? Como sabemos disso? Quais são as evidências? Existe outra hipótese? O que ainda não foi investigado? Uma pergunta não deve ser um problema. Ela pode ser o começo de uma pesquisa.”

Parece simples mas não é. E não é porque perguntar exige aceitar uma possibilidade incômoda: a de descobrir que aquilo em que acreditávamos poderia estar errado. E também a possibilidade oposta: a de descobrir que aquilo que descartamos merecia ser estudado.

É por isso que, na visão de Urandir, questionar não pode ser confundido com acreditar. Muito menos com negar. “Questionar não é acreditar. E questionar também não é negar. É investigar. Se alguém apresenta uma hipótese, precisamos perguntar quais evidências sustentam aquela hipótese. Se existem evidências, vamos estudá-las. Se não existem, precisamos dizer que não existem. Mas descartar uma pergunta antes de investigá-la também não produz conhecimento.”

Talvez seja justamente aí que cinema e universidade se encontrem. Um provoca. O outro investiga. O cinema é uma extraordinária máquina de propagação cultural. Uma pessoa pode entrar numa sala sem jamais ter ouvido falar em relatividade e sair pesquisando dilatação temporal, pode assistir a Contato e descobrir a radioastronomia e pode até mesmo terminar Disclosure Day e procurar o significado de UAP.

“O cinema tem uma capacidade enorme de propagação do conhecimento porque desperta curiosidade. Uma pessoa pode entrar para assistir a uma história e sair querendo compreender física, astronomia, história, tecnologia ou um fenômeno que nunca havia pesquisado. A educação precisa aproveitar essa curiosidade. Em vez de entregar uma conclusão, podemos oferecer ferramentas para que essa pessoa investigue” explica o Urandir.

E então chegamos à Ufologia .Durante décadas, a palavra carregou um peso, foi frequentemente colocada no mesmo território de crenças, teorias conspiratórias e relatos extraordinários.

É nessa diferença que a proposta da Unidakila atua. Porque um fenômeno aéreo anômalo pode exigir física. Astronomia. Meteorologia. Engenharia aeronáutica. Psicologia. História. Geopolítica. Análise de imagens. Sensoriamento.Tecnologia. Comunicação. Metodologia científica.

O pioneirismo defendido pela Unidakila em sua formação na área - e não apenas em Ufologia como disciplina multidisciplinar, mas na expansão da consciência e busca pelo conhecimento - não está em ensinar ao aluno que todo fenômeno inexplicado possui origem extraterrestre. Está justamente em tentar romper com essa lógica. Estudar o tema em objeto multidisciplinar de estudo. Nessa lógica, os fundadores ressaltam: Um registro pode ser explicado? Explique. Uma imagem pode ser analisada? Analise. Uma hipótese possui evidências? Confronte-as.

As luzes da sala se acendem. Os créditos sobem e alguém pega o celular, digita uma palavra que ouviu durante o filme e encontra um documento.

Depois um estudo.

Uma explicação.

Outra hipótese.

Mais uma pergunta.

E talvez seja exatamente nesse instante — não quando acreditamos, nem quando negamos, mas quando decidimos investigar — que a ficção deixa de ser apenas entretenimento e o conhecimento começa.

Talvez Spielberg esteja fazendo a pergunta certa. Porque, no fim, a pergunta que fica não é se devemos acreditar no que Hollywood mostra. É muito mais incômoda. A verdade é que o cinema pode terminar nos créditos. O conhecimento, não.