Autor fala sobre inquietação artística, identidade cultural e a necessidade de amadurecimento do mercado nacional

por Zoom Pop
Publicado em 08/06/2026, às 17h20 - Atualizado às 17h23
Em um momento em que diferentes universos coexistem simultaneamente em sua trajetória, Daniel Salve vive uma das fases mais plurais de sua carreira no teatro musical. Enquanto acompanha o avanço internacional de “Nautopia”, que se prepara para um workshop em Londres, também mergulha na adaptação brasileira de “Percy Jackson” e na construção emocional de “Meu Filho é um Musical”, espetáculo inspirado na trajetória de Paulo Gustavo. Para o artista, essa convivência entre projetos tão distintos não representa ruptura, mas consequência natural de uma caminhada construída ao longo dos anos.
“Durante muito tempo eu trabalhei imaginando que, em algum momento, todas essas frentes poderiam coexistir dentro do mesmo artista”, afirma. “Embora os projetos pareçam muito diferentes na superfície, todos eles conversam com algo que me interessa profundamente: a experiência humana através da emoção, da narrativa e da música.”
Ao longo da carreira, Daniel transitou por áreas como atuação, música, dramaturgia, direção musical e direção artística sem encarar essas funções como compartimentos isolados. Segundo ele, o movimento aconteceu de forma orgânica, impulsionado pela própria necessidade criativa. Ainda assim, admite que os projetos autorais exigiram uma insistência constante para conquistar espaço dentro do mercado brasileiro.
“Criar um projeto do zero, especialmente no Brasil, exige uma insistência quase artesanal. Você precisa defender a existência da obra muitas vezes antes dela existir de fato”, diz. Hoje, ele afirma enxergar o próprio trabalho menos pela ótica de uma função específica e mais pela perspectiva de um criador interessado em conceber experiências completas. “Mesmo em trabalhos comissionados, eu gosto de pensar dramaturgicamente, musicalmente, visualmente… entender como todas as partes conversam entre si.”
Essa inquietação aparece também na forma como ele encara os diferentes desafios da carreira. Para Daniel, construir um musical original continua sendo um dos processos mais complexos dentro da criação artística. “Criar um musical autoral é como gestar um elefante: demora, ocupa espaço, exige resistência emocional e paciência”, comenta. Ao mesmo tempo, ele reconhece que revisitar universos já consagrados pelo público também carrega uma responsabilidade delicada, especialmente quando existe uma relação afetiva consolidada entre a obra e os fãs.
No caso de “Percy Jackson”, Daniel afirma que o principal desafio está em encontrar equilíbrio entre fidelidade e liberdade criativa. “O público não está chegando em branco. Ele já tem memória, expectativa, vínculo”, explica. Recentemente, a produção promoveu um encontro entre a equipe criativa e fãs da saga em São Paulo, experiência que, segundo ele, ajudou a ampliar sua percepção sobre o que realmente importa para quem acompanha aquele universo há tantos anos. “Percebi uma disposição muito bonita deles em aceitar uma leitura brasileira da história. Existe uma curiosidade genuína em ver como esse universo pode ganhar um novo sotaque, uma nova energia, sem perder sua essência.”
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Já em “Meu Filho é um Musical”, inspirado em Paulo Gustavo, a construção passa por um lugar mais íntimo. Daniel conta que o que mais o sensibilizou durante o processo foi perceber que a peça nasce, acima de tudo, da relação afetiva entre Paulo e Dona Déa. “No fundo, é uma grande história de amor entre uma mãe e um filho”, resume. Para ele, o espetáculo busca olhar além da figura pública do humorista. “Existe um ser humano ali, com inseguranças, desejos, medos e uma necessidade muito profunda de expressão.”
A ideia de pertencimento, aliás, atravessa grande parte dos trabalhos que desenvolve atualmente. Em “Nautopia”, musical criado de forma independente e que agora avança para Londres, Daniel percebeu que a universalidade da obra estava justamente na manutenção de sua identidade brasileira. “O que torna uma obra universal não é ela tentar apagar sua identidade cultural, é justamente o contrário. Quanto mais específica, verdadeira e enraizada ela é, mais ela consegue tocar questões humanas profundas”, afirma.
Para o criador, o teatro musical brasileiro ainda vive um processo de amadurecimento em relação às produções autorais. Embora perceba uma nova geração de artistas interessada em desenvolver narrativas próprias, ele acredita que a estrutura do mercado ainda funciona mais voltada para a execução de espetáculos do que para o desenvolvimento contínuo das obras. “Muitas vezes o mercado ainda opera a partir de uma pergunta compreensível, mas insuficiente: ‘isso vai vender?’”, analisa. “Talvez falte uma visão mais ampla sobre construção de legado cultural.”
Daniel também defende que o teatro musical pode ocupar espaços mais profundos do que apenas o entretenimento grandioso frequentemente associado ao gênero. Influenciado por obras como “RENT”, ele afirma se interessar justamente pelo encontro entre emoção e reflexão. “A música tem uma capacidade muito particular de atravessar as defesas do público. Às vezes uma ideia difícil consegue chegar de maneira muito mais potente através de uma canção do que através de um discurso racional.”
Quando olha para a própria trajetória, ele reconhece que essa busca por um teatro musical mais provocativo sempre esteve presente, desde trabalhos mais antigos, como “Ponto de Bala!”, encenado originalmente em 2012 no Theatro São Pedro. Hoje, Daniel acredita que o Brasil vive um momento de transição importante dentro do gênero, ainda que lento. “Existe mais curiosidade do público, mais artistas interessados em criar material original e até uma percepção crescente de que o musical brasileiro não precisa tentar ser uma cópia de outro mercado para ter valor”, afirma.
No fim, sua principal inquietação continua sendo a mesma: manter o trabalho artisticamente vivo. “A sensação de precisar provar alguma coisa nunca desaparece completamente”, reflete. “Hoje ela é muito menos sobre validação externa e muito mais sobre uma inquietação pessoal. Tenho medo da acomodação criativa.”
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