A corrida tecnológica já começou. Agora, cientistas, juristas e especialistas tentam responder uma pergunta decisiva: quem definirá os limites da inteligência artificial quando ela chegar ao cérebro humano?

por Zoom Pop
Publicado em 05/08/2026, às 16h56
Por: Julia Reyes
Enquanto inteligência artificial e neurotecnologias avançam rapidamente, pesquisadores trabalham para definir os limites éticos e jurídicos de uma nova fronteira: tecnologias capazes de interagir diretamente com o cérebro humano.
A história da inteligência artificial costuma ser contada por algoritmos mais poderosos, computadores mais rápidos e descobertas cada vez mais impressionantes. Mas existe outra história sendo escrita ao mesmo tempo, uma história menos conhecida e talvez ainda mais importante: a tentativa de definir quais direitos permanecerão protegidos quando tecnologias passarem a interagir diretamente com a mente humana.
Há pouco tempo, parecia ficção científica imaginar que uma pessoa paralisada pudesse voltar a se comunicar apenas por meio da atividade cerebral. Hoje, interfaces cérebro-computador, inteligência artificial e outras neurotecnologias já abrem novas possibilidades na medicina, permitindo avanços na comunicação, no diagnóstico e no tratamento de doenças neurológicas. Mas esses avanços também inauguram desafios inéditos. Se sistemas inteligentes podem interpretar sinais neurais, quem controla esses dados? Como preservar a autonomia humana quando máquinas passam a participar de processos relacionados à decisão, comportamento e cognição?
O debate ultrapassa os hospitais. Em congressos internacionais de neuroética, pesquisadores discutem desde aplicações terapêuticas até cenários envolvendo privacidade mental, vigilância cognitiva e possíveis usos militares, incluindo aumento de capacidades humanas em contextos de defesa.
O desafio não está apenas no que essas tecnologias podem fazer, mas na velocidade com que avançam.
Enquanto engenheiros desenvolvem ferramentas cada vez mais sofisticadas, juristas, médicos, filósofos e cientistas buscam responder uma pergunta decisiva: quais limites uma sociedade democrática deve estabelecer antes que essas tecnologias façam parte da vida cotidiana?
É nessa corrida silenciosa que atua a jurista brasileira Luíza de Paula Araújo, pesquisadora pré-doutoral da Universidade de Barcelona. Sua trajetória ajuda a explicar por que seu trabalho se encontra justamente nessa fronteira entre Direito e tecnologia.
Muito antes de estudar inteligência artificial e neurotecnologias, Luíza construiu uma carreira voltada à interpretação e proteção de direitos em instituições de alta complexidade.
Aos 17 anos, foi aprovada em um dos concursos públicos mais concorridos do Brasil à época, com quase 100 mil candidatos inscritos. No ano seguinte, aos 18 anos, tomou posse em seu primeiro cargo público.
Ao longo da carreira, atuou em instituições como o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, a Defensoria Pública da União, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Tribunal Superior do Trabalho. A formação acadêmica acompanhou esse percurso: graduou-se em Direito aos 22 anos, especializou-se em Direito do Trabalho, concluiu o mestrado em Direito Internacional pela Universidade de Lisboa e posteriormente ingressou na Universidade de Barcelona, onde desenvolve seu doutorado com financiamento do programa FI Joan Oró, uma das bolsas de pesquisa mais competitivas da Catalunha.
O caminho até as neurotecnologias não representa uma mudança de direção, mas uma ampliação da mesma pergunta que acompanha sua trajetória: como garantir que estruturas de poder — jurídicas, institucionais ou tecnológicas, permaneçam orientadas à proteção das pessoas?
É justamente essa questão que está no centro de sua pesquisa.
Um dos principais temas investigados por Luíza é o consentimento informado diante de tecnologias governadas por inteligência artificial. Diferentemente de sistemas tradicionais, tecnologias inteligentes podem aprender, adaptar-se e modificar seu funcionamento ao longo do tempo. Por isso, a pesquisadora defende que o consentimento não deve ser entendido apenas como uma autorização inicial, mas como um processo contínuo, baseado em transparência, acompanhamento e possibilidade real de revisão.
“Quanto mais avançadas se tornam essas tecnologias, maior é a necessidade de garantir que as pessoas continuem compreendendo, controlando e participando das decisões que afetam suas próprias vidas”, afirma.
Essa abordagem coloca sua pesquisa no centro de um debate internacional sobre governança da inteligência artificial, neurodireitos e proteção da autonomia humana.
Seus estudos foram apresentados em conferências internacionais dedicadas à neuroética, inteligência artificial e interfaces cérebro-computador. Em 2025, um de seus trabalhos foi selecionado entre os destaques científicos da International Neuroethics Society (INS), uma das principais organizações internacionais dedicadas ao estudo das implicações éticas, jurídicas e sociais das neurotecnologias.
A discussão também começa a influenciar governos e organismos internacionais. A União Europeia avançou com o AI Act, a UNESCO desenvolveu recomendações globais sobre ética das neurotecnologias e diferentes países passaram a discutir como equilibrar inovação tecnológica e proteção de direitos fundamentais.
A pergunta central deixou de ser apenas o que a tecnologia conseguirá fazer.
Passou a ser: quem decidirá como ela poderá ser utilizada?
Essa diferença muda completamente o debate. Tecnologias capazes de interagir com a mente humana não podem ser guiadas apenas pela velocidade da inovação ou pelos interesses econômicos de quem as desenvolve. Elas precisam ser acompanhadas por princípios capazes de preservar liberdade, autonomia e dignidade.
A carreira de Luíza acompanha exatamente essa transição. Iniciada ainda muito jovem no serviço público brasileiro e construída ao longo de diferentes instituições jurídicas e acadêmicas, sua trajetória chegou a uma das fronteiras mais complexas da ciência contemporânea: compreender como sociedades democráticas poderão conviver com tecnologias capazes de transformar a própria relação entre humanos e máquinas.
Além do doutorado, Luíza vem desenvolvendo iniciativas relacionadas à inovação tecnológica na área de neurotecnologias e inteligência artificial, enquanto avalia novas colaborações internacionais de pesquisa e oportunidades de pós-doutorado.
A inteligência artificial será lembrada pelos avanços que tornou possíveis.
Mas o verdadeiro legado desta geração será definido pelas escolhas feitas antes que essas tecnologias se tornem parte definitiva da vida humana. Porque o maior desafio não é apenas construir máquinas capazes de compreender cada vez mais. É garantir que, enquanto elas aprendem sobre nós, continuemos sabendo proteger aquilo que nos torna humanos: a liberdade de pensar, decidir e permanecer autores da nossa própria história.