Especialista em comércio exterior, Lucas Congo analisa como as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos estão alterando a estratégia das empresas brasileiras e fortalecendo mercados como China e União Europeia.

por Brenno
Publicado em 23/07/2026, às 14h35
A nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros marca mais um capítulo da crescente tensão comercial entre os dois países. Mais do que elevar custos para determinados setores, a medida já começa a provocar uma reorganização das estratégias de exportação das empresas brasileiras, que aceleram a busca por novos mercados para reduzir a dependência do consumidor norte-americano.
A decisão do governo dos Estados Unidos foi tomada com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado para responder ao que Washington considera práticas comerciais prejudiciais aos interesses americanos. A medida estabeleceu uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, atingindo segmentos como máquinas agrícolas, automóveis, cobre, madeira e têxteis. Em paralelo, permanecem em vigor as tarifas de 50% sobre aço e alumínio, implementadas anteriormente.
Segundo estimativas do governo brasileiro, aproximadamente 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos passam a sofrer impacto direto das novas tarifas. Alguns produtos estratégicos, como café, carne bovina e componentes aeronáuticos, ficaram de fora da nova lista por serem considerados relevantes para a cadeia de abastecimento norte-americana.
Para Lucas Congo, especialista em comércio exterior, planejamento tributário e CEO do Grupo Platina 8, o principal efeito da medida não está apenas no aumento dos custos, mas na mudança de comportamento das empresas exportadoras.
"Quando um mercado se torna mais caro ou mais incerto, as empresas naturalmente começam a buscar alternativas. O impacto das tarifas vai muito além do imposto pago na entrada do produto. Elas alteram decisões de investimento, logística, planejamento e expansão internacional."
O movimento já pode ser observado nos números da balança comercial. Enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos perderam ritmo ao longo de 2026, a relação comercial com a Ásia continua se fortalecendo.
No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para a China alcançaram US$ 58,3 bilhões, crescimento de aproximadamente 32,5% em relação ao mesmo período anterior, estabelecendo um novo recorde histórico. O desempenho reforça a posição do país asiático como principal parceiro comercial do Brasil e amplia sua participação na absorção tanto de commodities quanto de produtos industrializados brasileiros.
Para Lucas Congo, esse processo representa uma mudança estrutural e não apenas uma reação momentânea às tarifas americanas.
"A diversificação de mercados deixou de ser uma estratégia de crescimento para se tornar uma estratégia de proteção. Empresas que dependem excessivamente de um único destino ficam mais vulneráveis a mudanças políticas e comerciais como as que estamos acompanhando agora."
Além da China, a União Europeia também vem ampliando sua relevância para exportadores brasileiros. Em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasília e Washington, empresas passaram a acelerar negociações com mercados europeus em busca de maior estabilidade comercial.
Na avaliação de especialistas, essa redistribuição das exportações pode reduzir parte da exposição brasileira às oscilações da política comercial norte-americana, embora também exija adaptação às exigências regulatórias de novos mercados.
Um dos aspectos menos conhecidos da disputa está justamente na origem das medidas anunciadas pelos Estados Unidos.
Embora o debate público tenha se concentrado nas tarifas, a investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) também apontou divergências relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas tarifárias preferenciais e outros temas considerados sensíveis pelo governo americano. Essas questões serviram de fundamento para a aplicação das sanções comerciais previstas na Seção 301.
Segundo Lucas Congo, esse cenário demonstra que o comércio internacional deixou de ser influenciado apenas por preços, produção e competitividade industrial.
"Hoje as relações comerciais envolvem tecnologia, regras digitais, proteção de dados, questões ambientais e geopolítica. As empresas precisam acompanhar essas mudanças porque muitas vezes uma decisão política acaba produzindo efeitos diretos sobre contratos e operações internacionais."
Enquanto os Estados Unidos reforçam sua política comercial, o governo brasileiro busca minimizar os impactos sobre os setores atingidos.
Entre as medidas anunciadas estão a ampliação de linhas de crédito para empresas exportadoras e a abertura de procedimentos junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), onde o Brasil pretende contestar a legalidade das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Especialistas, entretanto, avaliam que uma decisão definitiva poderá levar anos, mantendo o ambiente de incerteza para o setor exportador.
Na avaliação de Lucas Congo, independentemente do desfecho diplomático, o momento exige uma mudança de postura das empresas brasileiras.
"O empresário precisa olhar para o cenário internacional com mais estratégia. Diversificar clientes, desenvolver novos mercados e construir operações mais flexíveis deixou de ser uma vantagem competitiva. Em muitos casos, passou a ser uma necessidade para reduzir riscos."
Apesar das dificuldades impostas pelas novas tarifas, especialistas avaliam que o atual cenário também pode acelerar a internacionalização das empresas brasileiras. Ao ampliar sua presença em diferentes mercados, exportadores reduzem a dependência de um único parceiro comercial e fortalecem sua capacidade de enfrentar futuras mudanças nas relações econômicas globais.
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Para Lucas Congo, o comércio exterior continuará oferecendo oportunidades, mas exigirá planejamento cada vez mais sofisticado.
"O mapa das exportações brasileiras está mudando. Empresas que conseguirem adaptar sua estratégia comercial, investir em inteligência de mercado e construir relações internacionais diversificadas estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente global cada vez mais dinâmico e sujeito a mudanças geopolíticas."
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Faustino Júnior | Nerd de Negócio
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