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Renan Bastos, referência no mercado de luxo explica como relógios viraram garantia de empréstimo

Expert no mercado internacional de relógios de luxo e CEO da RC Crown, explica por que liquidez, preço público e demanda global transformaram certas peças em garantia de crédito

Renan Bastos, CEO da RC Crown, explica como relógios de marcas como Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet passaram a ser usados como garantia de crédito. - Acervo Pessoal / Divulgação
Renan Bastos, CEO da RC Crown, explica como relógios de marcas como Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet passaram a ser usados como garantia de crédito. - Acervo Pessoal / Divulgação
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por Mundo Pop

Publicado em 25/09/2026, às 19h49

Um Rolex, um Patek Philippe ou um Audemars Piguet pode custar mais do que um carro e, em alguns casos, ter liquidez suficiente para funcionar como garantia de um empréstimo.

Nos Estados Unidos, empresas especializadas já aceitam relógios de luxo como colateral para liberar crédito em poucas horas. No Brasil, a própria Caixa Econômica Federal inclui relógios de marcas consagradas entre os bens que podem ser utilizados em operações de penhor.

O movimento acompanha uma transformação mais ampla da alta relojoaria. Algumas referências deixaram de ser vistas apenas como objetos de desejo e passaram a ter características típicas de ativos patrimoniais: preços de referência acompanhados publicamente, mercado secundário internacional, alta concentração de valor em pouco espaço e compradores em diferentes países.

Para Renan Bastos, especialista no mercado internacional de relógios de luxo, fundador e CEO da RC Crown, o ponto central é a liquidez.

Ele já defendeu publicamente que, para compradores de alto patrimônio, determinadas referências podem ser analisadas não apenas pelo prestígio, mas também pela capacidade de serem negociadas rapidamente em diferentes mercados.

O relógio virou uma forma de transformar patrimônio em crédito

A lógica é relativamente simples.

O proprietário entrega o relógio ao credor. A peça é autenticada e avaliada com base em referências recentes de mercado, histórico de vendas, leilões, condição, documentação e liquidez.

A partir dessa avaliação, o credor oferece uma fração do valor do bem, conhecida como loan-to-value, ou LTV.

Durante o contrato, o relógio fica armazenado em ambiente seguro e segurado. Se o cliente paga o empréstimo, recebe a peça de volta. Se não paga, o credor pode vender o relógio para recuperar o capital.

Segundo reportagem da Forbes publicada em abril de 2026, a Luxury Asset Capital, controladora da plataforma Borro, já originou mais de US$ 1 bilhão em empréstimos garantidos por ativos de luxo.

Os empréstimos típicos ficam entre US$ 15 mil e US$ 20 mil, mas podem chegar a US$ 5 milhões. O LTV costuma variar entre 40% e 65%, com condições mais favoráveis para ativos de maior liquidez, como determinadas referências da Rolex.

Joias, relógios e diamantes estão entre as principais categorias utilizadas como garantia pela empresa.

Por que alguns relógios funcionam tão bem como garantia?

Nem todo relógio de luxo possui as mesmas características.

O que torna determinadas peças mais interessantes para um credor é, principalmente, a possibilidade de estimar seu valor e revendê-las caso seja necessário.

Referências como Rolex Submariner, Daytona e GMT-Master II, Patek Philippe Nautilus e Aquanaut e Audemars Piguet Royal Oak possuem mercados secundários internacionais ativos.

Um Submariner 126610LN, por exemplo, continua sendo a mesma referência em Miami, Genebra, Londres ou São Paulo. Essa padronização facilita comparações.

Além disso, plataformas especializadas, índices de mercado secundário e casas de leilão criaram uma base crescente de informações sobre preços.

“Quanto mais fácil é saber quanto determinada referência está sendo negociada e quantos compradores existem para ela, mais simples fica estimar sua liquidez”, é uma das linhas de análise que Renan Bastos vem defendendo ao tratar do amadurecimento do mercado secundário.

Outro fator é físico: um relógio pode concentrar dezenas ou centenas de milhares de dólares em um objeto pequeno, durável, relativamente fácil de armazenar e transportar.

Mercado secundário voltou a ganhar força em 2026

O avanço desse tipo de operação ocorre em um momento de recuperação do mercado secundário.

Segundo dados do WatchCharts em parceria com o Morgan Stanley, os preços avançaram 1,9% no primeiro trimestre de 2026 e mais 1,5% no segundo trimestre.

Foi o quarto trimestre consecutivo de alta superior a 1%.

No segundo trimestre, 27 das 35 marcas acompanhadas apresentaram valorização, enquanto 29 estavam positivas na comparação anual.

A diferença entre marcas, porém, continua grande.

No período, relógios da Patek Philippe eram negociados, em média, 15,4% acima do preço de varejo considerado pelo índice. Rolex apresentava prêmio médio de 9,8% e Audemars Piguet, de 3%.

Depois dessas marcas, o comportamento muda significativamente.

Para Renan Bastos, essa diferença ajuda a explicar por que não se pode tratar todo relógio de luxo como ativo financeiro.

Marca, referência, condição, documentação, preço de entrada e capacidade real de revenda continuam determinando o comportamento de cada peça.

De objeto de desejo a garantia de empréstimo: Renan Bastos analisa por que liquidez e demanda internacional mudaram o papel de determinados relógios de luxo.
Acervo Pessoal

Leilões ajudam a criar referências de preço

Outro elemento importante é a expansão dos leilões internacionais.

Em maio de 2026, a Phillips realizou em Genebra o leilão de relógios mais valioso já registrado pela casa: CHF 74,8 milhões, equivalente a cerca de US$ 96,3 milhões.

Dos 225 lotes, 224 foram vendidos. Quatorze superaram CHF 1 milhão e 43 estabeleceram recordes mundiais.

O principal lote foi um Patek Philippe Ref. 2523 “South America”, de 1953, vendido por aproximadamente US$ 10,2 milhões.

Na mesma semana, os grandes leilões realizados em Genebra movimentaram cerca de US$ 155 milhões.

Esses resultados não significam que qualquer relógio possa ser avaliado com base em um leilão milionário. Mas ajudam a demonstrar como o mercado passou a produzir preços públicos e comparáveis para determinados ativos.

É justamente essa transparência que interessa ao crédito: quanto mais informação existe sobre o comportamento de uma referência, mais fácil se torna construir uma avaliação.

No Brasil, a lógica já existe há décadas

No Brasil, a associação entre objetos de valor e crédito não é nova.

A Caixa Econômica Federal opera o sistema de penhor e aceita, entre outros bens, relógios de luxo de marcas reconhecidas.

Segundo os dados reunidos para esta pauta, a carteira de penhor da instituição encerrou 2025 em aproximadamente R$ 3,2 bilhões, crescimento de 31,24% em relação ao período anterior.

O crédito pode ser liberado sem análise cadastral tradicional ou avalista, dependendo da avaliação do bem e das condições do cliente.

A diferença está no perfil do mercado.

No Brasil, o penhor costuma ser associado a necessidade de liquidez imediata. Nos Estados Unidos, empresas especializadas passaram a oferecer uma versão voltada a empresários, colecionadores e clientes de alto patrimônio.

Em alguns casos, o objetivo não é cobrir uma emergência financeira, mas liberar capital de curto prazo sem vender definitivamente o relógio.

Um relógio pode virar capital de giro

A Forbes relatou inclusive situações em que colecionadores utilizam um relógio como garantia para financiar a aquisição de outra peça.

Isso ajuda a mostrar como o mercado está mudando.

Em vez de vender um Rolex ou Patek Philippe para levantar dinheiro, o proprietário mantém a exposição ao bem, utiliza a peça como colateral e recupera o relógio ao quitar a operação.

Para Renan Bastos, esse tipo de comportamento só é possível porque algumas referências já contam com uma rede internacional de compradores e preços relativamente observáveis.

O mercado secundário passa, portanto, a exercer uma função que vai além da compra e venda: ele cria a referência utilizada para determinar quanto aquele ativo pode valer em uma operação de crédito.

Nem todo relógio serve como garantia da mesma forma

Os credores tendem a preferir referências que possam ser revendidas com relativa rapidez.

Rolex esportivos de aço, determinados Patek Philippe e Audemars Piguet Royal Oak aparecem com frequência nesse tipo de operação justamente pela liquidez.

Já relógios modificados, sem documentação, com peças não originais ou pertencentes a referências de menor procura podem receber avaliações mais conservadoras.

A documentação também pesa.

Caixa, certificado, cartão de garantia e histórico de manutenção podem influenciar a confiança do comprador e, consequentemente, o valor que um credor está disposto a emprestar.

Crédito rápido tem custo e risco

Transformar um relógio em garantia não significa dinheiro barato.

Nos Estados Unidos, os empréstimos especializados podem ter custos mensais elevados. A reportagem da Forbes aponta que, somados juros, seguro e armazenagem, algumas operações podem chegar perto de 5% ao mês.

Por isso, são estruturas mais adequadas a necessidades de curto prazo do que a financiamentos longos.

Também existe o risco mais óbvio: se a dívida não for paga, o proprietário pode perder o relógio.

E há um terceiro risco, que o próprio mercado já demonstrou: preço não sobe para sempre.

O índice Bloomberg Subdial praticamente dobrou entre 2020 e o pico de 2022, mas depois recuou cerca de 40%. O movimento mostrou que mesmo peças desejadas estão sujeitas a ciclos de mercado.

1. Relógios de luxo podem concentrar centenas de milhares de dólares em poucos centímetros. Para Renan Bastos, a liquidez é o que diferencia uma peça cara de um ativo com mercado real.
Divulgação

De objeto de desejo a patrimônio líquido

A mudança mais importante talvez esteja na forma como certas peças passaram a ser enxergadas.

Um relógio de luxo continua sendo, antes de tudo, um bem de consumo, coleção e desejo.

Mas determinadas referências desenvolveram três características adicionais: preço observável, liquidez internacional e demanda recorrente.

É essa combinação que permite que instituições financeiras e credores especializados aceitem algumas peças como garantia.

Para Renan Bastos, isso reforça uma distinção que ele já vem fazendo ao analisar o setor: não é o fato de um relógio ser caro que o transforma em um ativo líquido.

O que importa é existir um mercado real disposto a comprar aquela referência, por um preço conhecido e em um prazo razoável.

Em um setor no qual algumas peças podem trocar de mãos diariamente entre Miami, Nova York, Genebra, Londres, Dubai e outros grandes centros, o relógio deixou de ser apenas aquilo que está no pulso.

Para determinados proprietários, ele passou também a representar capital que pode ser acessado sem que a peça precise ser vendida definitivamente.