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Por que tanta gente acorda cansada mesmo dormindo bem? Especialista responde

Segundo o Dr. Adiel Rios, estudos internacionais relacionam excesso de estímulos digitais ao aumento de ansiedade, burnout e exaustão mental

Por que tanta gente acorda cansada mesmo dormindo bem? Especialista responde - Reprodução Instagram
Por que tanta gente acorda cansada mesmo dormindo bem? Especialista responde - Reprodução Instagram
Brenno

por Brenno

Publicado em 20/05/2026, às 07h22

Tem um cansaço novo no Brasil e ele não aparece em nenhum exame. Não é dengue, não é tireoide, não é falta de vitamina D, não é fraqueza moral, também não é só “estou precisando de férias”, porque muita gente tirou férias mês passado e voltou do mesmo jeito. Esse cansaço é um esgotamento que ainda não tem nome popular, mas que virou, em 2026, o motivo número 1 de quem marca consulta com psiquiatra qualificado no país. E ele tem origem na coisa que mais amamos.

O cérebro humano nunca esteve tão sobrecarregado de informação, notificação, comparação, cobrança e excesso de conexão simultânea quanto agora. O dia inteiro, inclusive nas pausas, no banheiro, quando a pessoa “está descansando” no sofá com o celular na mão.

“O problema não é apenas excesso de tarefas, é excesso de estímulos emocionais simultâneos. O cérebro humano evoluiu para lidar com ameaças pontuais, não para viver recebendo microdoses de estresse o dia inteiro”, afirma o Dr. Adiel Rios, MD, MSc, PhDst, médico psiquiatra com atuação em neuromodulação em São Paulo, membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e fellow em Transtorno Bipolar pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Os números explicam a escala do fenômeno. Um relatório global da DataReportal divulgado em 2026 mostra que o tempo médio diário de uso da internet ultrapassou sete horas por pessoa no mundo, com o Brasil entre os maiores consumidores do planeta. A cada poucos segundos, a mente alterna entre uma tragédia em outro continente, um corpo editado, uma cobrança do chefe, um vídeo engraçado, uma propaganda, uma briga política e uma foto de viagem alheia. Ao contrário do que parece, isso não é descanso, para o sistema nervoso, é trabalho contínuo. E a ciência já parou de hesitar nesse ponto.

Em 2024, a World Psychiatry, considerada uma das revistas mais influentes da psiquiatria mundial, publicou uma grande revisão científica reunindo 176 ensaios clínicos randomizados. A conclusão foi clara. Uso problemático de smartphone tem ligação consistente com mais ansiedade, mais depressão e mais insônia, em todas as culturas estudadas. Em 2025, a Frontiers in Psychology juntou 47 estudos com mais de 36 mil adultos e mostrou a mesma direção. Quanto mais exposição prolongada à tecnologia digital, mais sofrimento psíquico, burnout, solidão e menos bem-estar.

“Não é teoria conspiratória. É evidência epidemiológica. O padrão se repete em continentes diferentes, em populações diferentes, em metodologias diferentes. Quando a ciência fala assim, não é hora de discutir. É hora de prestar atenção”, afirma Dr. Adiel.

A neurociência foi ainda mais longe na demonstração do efeito. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2024 na Scientific Reports, do grupo Nature, mediu por eletroencefalografia o impacto cerebral de ambientes urbanos saturados em comparação com ambientes naturais. Apenas quarenta minutos de imersão em natureza foram suficientes para restaurar marcadores neurais de controle executivo.

Em ambientes urbanos sobrecarregados, o córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável por foco, decisão e regulação emocional, permanecia em esforço contínuo. Em outras palavras, quando alguém diz que não está conseguindo descansar, raramente está exagerando. Está descrevendo, com precisão, o estado neurobiológico em que vive.

Existe ainda um capítulo silencioso desse fenômeno que muita gente sente sem saber nomear. É aquela sensação difusa de estar atrasado na própria vida, de não estar fazendo o suficiente, de que todo mundo, menos a pessoa, descobriu o segredo. Antes, a comparação era feita com vinte ou trinta pessoas próximas. Hoje, é feita com o planeta inteiro, vinte e quatro horas por dia, com versões editadas e curadas.

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 no International Journal of Eating Disorders mostrou que reduzir essa exposição diminui significativamente a comparação ascendente, a insatisfação corporal e a internalização de ideais inalcançáveis. Quando se desliga o estímulo, o sofrimento cede.

“O cérebro precisa de silêncio psicológico para se recuperar e muita gente perdeu completamente esse espaço. Hoje existe culpa até no descanso. A pessoa para e em segundos pega o celular. O lazer deixou de ser reparador porque ele também virou fonte de comparação, cobrança e excesso de informação”, explica Dr. Adiel.

Há também o impacto da disponibilidade permanente, talvez o ponto mais subestimado de todos. A tecnologia eliminou as fronteiras entre trabalho, descanso e vida pessoal. Mensagem do chefe à meia-noite. E-mail no domingo de manhã. Conversa profissional no grupo da família. O cérebro perdeu as referências de começo, pausa e fim. Sem essas referências, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, sistema responsável por regular a resposta ao estresse, fica com cortisol cronicamente elevado.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde reconheceu o burnout como fenômeno ocupacional. Em 2024, uma extensa revisão na Human Resources for Health, reunindo mais de 215 mil profissionais, encontrou prevalência conjunta de burnout próxima de 39 por cento. Quase quatro em cada dez trabalhadores. Antes era situação extrema. Hoje é o cenário base.

E talvez o mais cruel de tudo. A gente nunca esteve tão conectado e tão sozinho ao mesmo tempo. Em 2025, uma grande revisão científica no British Journal of Health Psychology, com 167 estudos e mais de 303 mil pessoas em 36 países, mostrou que solidão piora sono, função cognitiva e bem-estar geral.

Outra investigação ampla na JAMA, reunindo 90 estudos prospectivos, mostrou que isolamento social e solidão aumentam a mortalidade por todas as causas, com efeito comparável ao tabagismo. Conexão digital não substitui vínculo. Mil mensagens não substituem uma conversa de duas horas, presencial, sem celular na mesa.

Para o Dr. Adiel Rios, o erro mais grave do momento é normalizar sintomas de esgotamento como se fossem inevitáveis. “Muita gente se acostumou a viver cansada emocionalmente. Só que o organismo dá sinais. Irritabilidade constante, dificuldade de concentração, sensação de vazio, exaustão mental, alterações de sono e perda de prazer nas coisas podem indicar que esse sistema interno entrou em sobrecarga”, afirma.

A boa notícia é que o cérebro humano é um órgão de recuperação extraordinária. Quando lhe devolvemos o espaço, ele responde. Em 2025, uma análise científica publicada no European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education revisou dez ensaios clínicos randomizados com quase mil e quinhentos participantes, e demonstrou que apenas reduzir o tempo gasto em redes sociais já produz queda significativa nos sintomas depressivos. Não precisa de heroísmo. Não precisa de um retiro caro. Precisa de espaço. O cérebro humano é leal a quem cuida dele.

Mas para que esse cuidado aconteça, a verdade incômoda precisa ser dita. O esgotamento de 2026 raramente vem como colapso. Vem como procrastinação que não passa. Irritação que aparece sem motivo. Foco que escorrega das mãos. Apatia em coisas que antes davam prazer. Sensação de viver no automático. O corpo continua, a rotina continua, mas a mente, lentamente, vai perdendo a capacidade de se recompor.

“A saúde mental não entra em colapso de uma vez. Ela vai se desgastando aos poucos, em silêncio, quando o cérebro perde o direito de descansar de verdade. O problema é que muita gente desaprendeu completamente o que significa silêncio mental. Reaprender talvez seja a tarefa psiquiátrica mais urgente desta década e talvez seja também, ao mesmo tempo, a habilidade mais valiosa da nossa época”, conclui Dr. Adiel Rios.