Tratamento avançado, reúso de água e novas tecnologias ganham espaço nas estratégias de sustentabilidade e eficiência das empresas brasileiras

por Brenno de Souza
Publicado em 29/09/2026, às 14h37
A busca por maior eficiência no uso dos recursos naturais está transformando a maneira como a indústria brasileira administra um de seus insumos mais importantes: a água. Em diferentes setores produtivos, tecnologias voltadas ao tratamento, recuperação e reúso começam a ocupar uma posição cada vez mais estratégica, aproximando sustentabilidade, inovação e eficiência operacional.
Durante décadas, a gestão da água dentro das plantas industriais esteve concentrada principalmente na captação, utilização nos processos produtivos e posterior tratamento dos efluentes. Esse modelo, entretanto, vem sendo gradualmente ampliado por uma nova lógica: tratar a água utilizada de maneira que ela possa retornar aos próprios processos industriais sempre que as características técnicas da operação permitirem.
A mudança coloca o reúso no centro de uma discussão que envolve não apenas responsabilidade ambiental, mas também competitividade, segurança operacional e desenvolvimento tecnológico.
Para a executiva e inventora brasileira Ana Carolina da Costa Carvalho, vice-presidente da Contech Produtos Biodegradáveis, essa transformação abre espaço para tecnologias capazes de modificar a relação entre produção industrial e consumo de recursos naturais.
Sua experiência profissional está diretamente relacionada ao desenvolvimento, aplicação e comercialização de soluções voltadas ao tratamento e reúso de água, otimização de processos e controle de contaminantes.
A água participa de inúmeras etapas da produção industrial. Dependendo do segmento, pode ser utilizada na limpeza de equipamentos, geração de vapor, resfriamento, transporte de materiais, processamento de matérias-primas e em diferentes fases das linhas produtivas.
Por essa razão, reduzir o consumo não significa simplesmente utilizar menos água.
O desafio está em desenvolver processos capazes de aumentar a eficiência hídrica sem comprometer produtividade, qualidade, segurança ou estabilidade operacional.
É nesse cenário que o tratamento avançado e o reúso ganham importância.
Em vez de trabalhar exclusivamente com uma lógica linear — captar, utilizar, tratar e descartar —, diferentes processos industriais podem incorporar modelos mais circulares, nos quais parte da água é recuperada, tratada e reinserida na operação.
Essa abordagem transforma a água de um insumo simplesmente consumido em um recurso que pode, dentro de determinadas condições técnicas, circular mais vezes pelo processo produtivo.
O avanço tecnológico tem papel decisivo nessa transformação.
Novos sistemas de tratamento procuram atuar sobre contaminantes e características específicas das águas industriais, permitindo ampliar as possibilidades de recuperação e reutilização.
Entre as tecnologias das quais Ana Carolina é inventora estão o Sistema Multioxidativo de Tratamento de Água, a segunda geração do NanoEZE e a plataforma tecnológica SMO + Nanobolhas.
As soluções estão inseridas em uma área de inovação que busca combinar tratamento de água, controle de contaminantes, otimização de processos e sustentabilidade.
Ana figura como inventora de tecnologias proprietárias e patenteadas direcionadas principalmente a essas aplicações.
Mais do que desenvolver equipamentos ou processos isolados, a tendência aponta para soluções que possam ser integradas às necessidades específicas de cada operação industrial.
Isso ocorre porque a composição da água residual varia significativamente de acordo com o setor, as matérias-primas utilizadas e as diferentes etapas da produção.
Consequentemente, estratégias de reúso precisam considerar as características de cada planta industrial e a finalidade que será dada à água recuperada.
Um dos grandes desafios da inovação industrial está justamente na distância entre desenvolver uma tecnologia e transformá-la em uma solução efetivamente utilizada pelas empresas.
Uma inovação precisa passar por testes, avaliações, adaptações operacionais e demonstração de resultados antes de ser incorporada aos processos produtivos.
Essa conexão entre desenvolvimento tecnológico e aplicação prática tornou-se uma das áreas de atuação de Ana Carolina.
Ao longo de sua trajetória na Contech, ela esteve envolvida não somente no desenvolvimento das tecnologias, mas também na identificação de aplicações industriais, apresentação das soluções ao mercado e comunicação de seus benefícios técnicos, operacionais e ambientais.
O Sistema Multioxidativo de Tratamento de Água, por exemplo, foi apresentado no 56º Congresso Internacional de Celulose e Papel, dentro de discussões relacionadas ao potencial de redução do consumo industrial de água e à ampliação das possibilidades de recuperação e reúso.
O caso demonstra como a inovação relacionada à sustentabilidade precisa ultrapassar os laboratórios e chegar ao ambiente produtivo para produzir impactos concretos.
Embora o setor de celulose e papel seja um dos ambientes nos quais a discussão sobre eficiência hídrica possui grande relevância, tecnologias de tratamento e reúso podem encontrar aplicações em diferentes segmentos industriais.
Um exemplo dessa ampliação aparece na indústria de bebidas e processamento de alimentos.
No IFU Global Juice Sustainability Report 2025, Ana Carolina participou como coautora do estudo de caso técnico “Multioxidative System for Water Treatment: A Case Study Applied for Juice Industry”.
O trabalho aborda a aplicação do sistema multioxidativo no tratamento de águas residuais industriais, apresentando a metodologia utilizada e os resultados observados.
A presença desse tipo de tecnologia em publicações especializadas ajuda a levar experiências desenvolvidas dentro das empresas para uma discussão mais ampla sobre sustentabilidade industrial.
Também permite que diferentes setores conheçam alternativas tecnológicas originalmente desenvolvidas ou testadas em outras aplicações.
Essa circulação do conhecimento é especialmente relevante porque o desafio da gestão da água não pertence a uma única indústria.
A transformação da gestão hídrica também está aproximando profissionais de engenharia, sustentabilidade, inovação e administração.
Cada vez mais, decisões relacionadas ao consumo de água precisam considerar simultaneamente aspectos técnicos, ambientais e econômicos.
Ana também teve sua atuação apresentada em O Papel, publicação especializada no setor de celulose e papel, abordando assuntos relacionados a tecnologias patenteadas, reúso industrial de água, sustentabilidade e inovação.
Em 2025, participou ainda do IFU Technical Workshop, discutindo reciclagem de água e tecnologias avançadas para o tratamento de águas industriais contaminadas.
Essas discussões evidenciam uma mudança importante: a sustentabilidade industrial deixa gradualmente de ser tratada como uma área separada da operação e passa a integrar decisões relacionadas à produtividade, inovação e planejamento empresarial.
A redução do consumo de água pode ocorrer de diferentes maneiras.
Mudanças de processos, identificação de perdas, modernização de equipamentos, tratamento mais eficiente e reaproveitamento são algumas das estratégias que podem ser combinadas dentro de uma política industrial de gestão hídrica.
Nesse contexto, o reúso possui uma característica particularmente importante: permite trabalhar sobre a água que já entrou no processo produtivo.
Quando tecnicamente possível, recuperar essa água reduz a necessidade de novas captações e amplia a eficiência do recurso dentro da própria planta.
Por isso, o desenvolvimento de tecnologias capazes de tratar diferentes tipos de águas residuais torna-se parte importante dessa transformação.
Não existe, entretanto, uma solução única para todas as indústrias.
Cada processo apresenta características próprias, o que torna fundamental analisar contaminantes, qualidade necessária para o reúso, finalidade da água recuperada e condições operacionais.
O desenvolvimento dessas tecnologias também começa a ultrapassar as fronteiras nacionais.
Ana liderou iniciativas relacionadas à expansão internacional da Contech, incluindo o desenvolvimento do mercado mexicano, desenvolvimento de relações comerciais e apresentação das tecnologias da companhia.
A internacionalização demonstra outra dimensão da inovação ambiental: soluções criadas para desafios encontrados na indústria brasileira podem encontrar aplicações em mercados que enfrentam problemas semelhantes.
Para isso, porém, é necessário adaptar estratégias, compreender particularidades de cada mercado e demonstrar a aplicabilidade das tecnologias em diferentes ambientes produtivos.
Essa capacidade de transformar conhecimento técnico em soluções comercialmente aplicáveis será cada vez mais relevante à medida que sustentabilidade e eficiência hídrica ganham importância nas estratégias industriais.
A discussão sobre água também acompanha uma transformação mais ampla na forma como empresas avaliam sustentabilidade.
Questões ambientais estão cada vez mais relacionadas à maneira como processos são planejados, tecnologias são desenvolvidas e investimentos são definidos.
Nesse cenário, tratamento e reúso deixam de representar somente uma resposta ambiental e passam a integrar uma visão mais abrangente de eficiência industrial.
O avanço das tecnologias de recuperação pode permitir que determinadas operações aumentem a circularidade da água, reduzam a necessidade de captação e aproveitem melhor os recursos disponíveis.
A tendência também estimula empresas brasileiras a investir em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e formação de profissionais capazes de aproximar engenharia, sustentabilidade e estratégia empresarial.
A própria trajetória de Ana Carolina exemplifica essa convergência.
De trainee à vice-presidente da Contech, sua carreira passou por áreas de marketing, operações, estratégia, inovação, comercialização de tecnologias e expansão internacional. Em 2023 e 2024, também integrou o Conselho Executivo da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP).
Sua experiência demonstra como o desafio da sustentabilidade industrial exige cada vez mais uma atuação multidisciplinar.
A pressão por eficiência no uso dos recursos naturais tende a tornar a gestão hídrica ainda mais relevante nos próximos anos.
Para a indústria, o desafio não está apenas em produzir mais, mas em encontrar maneiras de produzir utilizando recursos de forma mais eficiente.
Nesse contexto, tecnologias de tratamento, recuperação e reúso podem ocupar uma posição estratégica.
O desenvolvimento de soluções como sistemas multioxidativos, nanobolhas e outras tecnologias voltadas ao tratamento de águas industriais mostra como inovação e sustentabilidade começam a caminhar na mesma direção.
Mais do que simplesmente tratar a água depois de sua utilização, a nova fronteira está em repensar todo o seu ciclo dentro das operações industriais.
A lógica passa a ser cada vez mais circular: captar com eficiência, utilizar de maneira racional, tratar, recuperar e, sempre que técnica e operacionalmente possível, reutilizar.
É nesse movimento que empresas, pesquisadores, inventores e executivos ligados ao desenvolvimento tecnológico encontram um dos principais desafios — e também uma das grandes oportunidades — da indústria contemporânea.
A experiência de profissionais como Ana Carolina da Costa Carvalho surge, portanto, não apenas como uma trajetória individual, mas como exemplo de uma transformação mais ampla em curso: uma indústria na qual inovação tecnológica, eficiência produtiva e sustentabilidade passam a fazer parte da mesma estratégia.
No centro dessa transformação está um recurso essencial para a produção e para a sociedade: a água.
COLUNISTAS
Faustino Júnior | Nerd de Negócio
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