Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade, Dr. Diogo Viana afirma que o problema não está nos implantes hormonais, mas na transformação de uma ferramenta terapêutica em produto de consumo vendido por promessas estéticas.

por Mundo Pop
Publicado em 20/06/2026, às 18h18
Poucos temas da medicina brasileira se tornaram tão polarizados nos últimos anos quanto os implantes hormonais. Enquanto clínicas e influenciadores impulsionam promessas de emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora da libido e rejuvenescimento, entidades médicas ampliam alertas sobre o uso inadequado dessas terapias. No centro da discussão, milhões de pacientes tentam distinguir evidência científica de marketing.
Para o médico Dr. Diogo Viana, anestesiologista, mestrando em Ginecologia pela UNIFESP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade (SBEMO), o debate atual tem sido conduzido por uma narrativa equivocada que transforma uma via de administração de medicamentos em símbolo de promessas que a própria farmacologia não sustenta.
“Implante hormonal é apenas uma forma de administrar hormônios. O problema não está no dispositivo, mas nas expectativas irreais criadas ao seu redor”, afirma.
Segundo o especialista, a popularização do termo “chip da beleza” contribuiu para uma percepção distorcida da terapia. Embora amplamente difundida nas redes sociais, a expressão não encontra respaldo técnico e acabou associando o tratamento a objetivos predominantemente estéticos.
“O mercado criou a ideia de que existe uma solução hormonal capaz de entregar emagrecimento, performance física e transformação corporal. Isso simplesmente não existe dentro da medicina baseada em evidências”, diz.
Na avaliação de Diogo Viana, a banalização dos implantes hormonais produz um efeito duplo. De um lado, favorece a expansão de promessas comerciais sem fundamento científico. De outro, dificulta o acesso de pacientes que realmente podem se beneficiar da terapia em situações clínicas específicas.
O resultado é um ambiente de desinformação que afeta diretamente a tomada de decisão dos pacientes.
“O mesmo discurso que vende soluções milagrosas acaba prejudicando pessoas que possuem indicações legítimas para o tratamento. Quando tudo passa a ser tratado como estética, perde-se a capacidade de discutir as aplicações médicas reais”, explica.
A discussão ganhou força justamente em um momento de crescimento do mercado de terapias hormonais, impulsionado pelo envelhecimento da população, pela busca por qualidade de vida e pela influência crescente das redes sociais sobre decisões relacionadas à saúde.
Apesar da polêmica, Viana ressalta que os implantes continuam sendo uma ferramenta importante dentro da medicina moderna.
Entre as principais indicações estão mulheres com menopausa precoce, insuficiência ovariana prematura, doenças ginecológicas que exigem tratamento hormonal contínuo e pacientes que apresentam dificuldade de adesão a outras formas de administração.
Segundo ele, os implantes raramente representam a primeira linha terapêutica.
“Na maioria dos casos, existem alternativas que costumam ser utilizadas antes. O implante passa a ser considerado quando outras opções não apresentaram os resultados esperados ou não foram bem toleradas pela paciente”, afirma.
Para o médico, a discussão atual revela um desafio cada vez mais presente no setor de saúde: a distância entre evidência científica e comunicação de mercado.
Ele defende que pacientes façam perguntas objetivas antes de iniciar qualquer terapia hormonal, entendendo a indicação clínica, os benefícios esperados, os riscos envolvidos e as alternativas disponíveis.
“O hormônio não muda sua ação porque foi colocado em um implante. Quando uma promessa parece boa demais para ser verdade, normalmente ela está mais próxima do marketing do que da ciência”, conclui.
Em um cenário no qual a informação circula com velocidade cada vez maior, a principal disputa em torno dos implantes hormonais talvez não seja tecnológica nem regulatória. É uma disputa por credibilidade. E, nesse campo, a ciência continua sendo o ativo mais valioso.
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