Risco fiscal, inadimplência e baixa concorrência sustentam juros elevados no país

por Mundo Pop
Publicado em 18/03/2026, às 13h14
Os juros elevados no Brasil seguem entre os principais desafios da economia. Dados do Banco Central indicam que o spread bancário no país frequentemente supera 20 pontos percentuais em diversas linhas de crédito, um dos mais altos entre economias relevantes. Ao mesmo tempo, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), cerca de 79% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2025, com aproximadamente 29% em situação de inadimplência. Nesse contexto, o economista Henrique Marengo Teixeira avalia que o problema vai muito além da política monetária e reflete distorções estruturais do sistema financeiro.
Segundo Henrique, o debate público costuma concentrar a discussão no Banco Central e na taxa Selic. No entanto, a taxa básica de juros representa apenas a camada mais visível de um sistema mais amplo. Fatores como risco fiscal elevado, inadimplência estrutural, concentração bancária, insegurança jurídica e baixa eficiência operacional atuam de forma conjunta, sustentando o alto custo do crédito mesmo em momentos de queda da taxa básica.
O risco fiscal, na avaliação do economista, é um dos principais vetores dessa dinâmica. Com a dívida bruta do governo girando entre 75% e 80% do PIB, segundo dados recentes do Banco Central, a percepção de risco do país permanece elevada, exigindo prêmios maiores para o financiamento da dívida pública. Esse encarecimento se transmite para toda a estrutura de juros da economia, elevando o custo do crédito para empresas e famílias. Paralelamente, a inadimplência no crédito livre, que oscila entre 4% e 6%, reforça esse ambiente ao levar as instituições financeiras a incorporarem prêmios adicionais de risco nas operações, pressionando ainda mais as taxas finais ao tomador.
A estrutura do sistema financeiro também contribui para esse cenário. Os cinco maiores bancos concentram mais de 80% dos ativos do sistema, o que reduz a competição e limita a compressão dos spreads. Além disso, custos operacionais elevados, processos burocráticos e limitações tecnológicas ainda impactam a eficiência do crédito. A insegurança jurídica, especialmente na recuperação de garantias, também eleva o risco das operações e acaba sendo repassada ao tomador final.
Nesse ambiente, o endividamento das famílias deixa de ser apenas uma questão comportamental e passa a refletir um problema estrutural. O comprometimento médio da renda com dívidas, segundo o Banco Central, frequentemente supera 25%, enquanto o custo do crédito rotativo do cartão pode ultrapassar 300% ao ano. Com renda pressionada e acesso a crédito em condições frequentemente desfavoráveis, muitos consumidores entram em um ciclo de endividamento difícil de reverter.
Para Henrique Marengo Teixeira, a solução passa por uma abordagem coordenada. O reequilíbrio fiscal é apontado como elemento central, com a adoção de metas de gasto factíveis, maior controle e previsibilidade. Esse tipo de ajuste contribui para a redução da inflação e melhora a confiança dos agentes econômicos, criando condições para uma queda mais sustentável das taxas de juros.
Ao mesmo tempo, iniciativas institucionais vêm ganhando espaço. O open banking, o cadastro positivo e o avanço das fintechs têm contribuído para ampliar a concorrência e reduzir assimetrias de informação no sistema financeiro. Estimativas do próprio Banco Central indicam que o compartilhamento de dados pode reduzir spreads em determinadas linhas ao longo do tempo, embora de forma gradual. Ainda assim, o economista ressalta que essas medidas são complementares e não substituem a necessidade de enfrentar os problemas estruturais.
Na avaliação de Henrique, o desafio brasileiro não está apenas em reduzir juros, mas em construir um sistema financeiro mais eficiente, previsível e competitivo. Sem avanços em disciplina fiscal, segurança jurídica e eficiência operacional, o crédito tende a permanecer caro, e o endividamento das famílias continuará sendo uma consequência direta dessas distorções. Mais do que um indicador econômico, o custo do crédito no país reflete o grau de maturidade da economia brasileira.
Henrique Marengo Teixeira é economista formado pela PUC-SP e membro certificado pela FEBRABAN, com atuação no mercado financeiro, com foco em crédito, risco e eficiência do sistema financeiro.
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