
por Brenno
Publicado em 17/12/2025, às 07h48
Durante a crise de COVID-19, uma médica brasileira atuou simultaneamente no atendimento pré-hospitalar, na regulação de leitos e na gestão macrorregional, exercendo autoridade sanitária em decisões que impactaram milhares de pacientes.
A pandemia de COVID-19 expôs limites inéditos do sistema de saúde brasileiro. Em meio à rápida escalada de casos e à restrição de recursos assistenciais, profissionais que atuavam longe da visibilidade pública tornaram-se decisivos para a manutenção do funcionamento da rede de urgência. Entre esses perfis, destacou-se a atuação da médica Livia de Oliveira Coutinho, cuja função envolveu decisões com efeito imediato sobre fluxos assistenciais, disponibilidade de leitos e deslocamento de recursos críticos.
Durante a crise sanitária, Livia conciliou funções raramente exercidas de forma simultânea: o atendimento pré-hospitalar pelo SAMU CISDESTE 192, a regulação municipal de urgência e emergência em Juiz de Fora e a atuação em processos regulatórios em âmbito macrorregional, vinculados à Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Essa sobreposição de responsabilidades a posicionava em um ponto estratégico da rede, onde decisões não eram consultivas, mas operacionais, exigindo respostas rápidas e sustentadas por critérios técnicos.
Sua atuação se estruturava em três frentes interdependentes. A primeira era a avaliação clínica remota de pacientes que acessavam as centrais de urgência, em um cenário de protocolos ainda instáveis. A segunda envolvia a regulação assistencial propriamente dita, com definição de vagas hospitalares, priorização de internações e organização de transferências intermunicipais. A terceira consistia na participação direta em transportes de alta complexidade, acompanhando pacientes graves em deslocamentos realizados sob elevado risco biológico.
Nos primeiros meses da crise, a incerteza sobre transmissão e gravidade da doença exigia decisões baseadas em análise clínica, adaptação constante de fluxos e uso criterioso de recursos. Ambulâncias passaram a ser isoladas com barreiras físicas, equipamentos de proteção eram continuamente testados e protocolos assistenciais precisavam ser revisados com frequência, sob pressão crescente sobre os serviços.
Nesse contexto, situações-limite evidenciavam o impacto humano das decisões técnicas. Em transportes de pacientes com insuficiência respiratória grave, familiares impedidos de acompanhar o deslocamento se despediam à distância, sob protocolos rígidos. Esses episódios tornavam visível o peso emocional de decisões que, embora técnicas, envolviam sofrimento real e irreversível.
Com o avanço da pandemia, a saturação hospitalar se intensificou. Houve períodos em que dezenas de pacientes aguardavam simultaneamente vagas de enfermaria e UTI, exigindo priorizações constantes e reavaliação contínua da rede. A visão integrada do sistema — da chamada inicial ao destino hospitalar — foi determinante para evitar falhas assistenciais em cadeia.
Essa atuação levou Livia a assumir funções de maior responsabilidade na gestão estadual, incluindo a coordenação macrorregional de regulação. Nessa posição, passou a liderar equipes, articular gestores municipais e hospitalares, cumprir ordens judiciais de internação e implementar estratégias emergenciais voltadas à reorganização da rede.
A atuação de Livia de Oliveira Coutinho durante a pandemia demonstra como profissionais com autoridade decisória foram essenciais para evitar colapsos sistêmicos e permitir que a rede pública de saúde continuasse funcionando mesmo sob condições extremas.
COLUNISTAS