Referência em ginecologia e menopausa, a médica critica o uso estético irregular dos hormônios e afirma que os implantes podem ser uma alternativa segura para mulheres que não respondem aos tratamentos convencionais.

por Brenno
Publicado em 26/05/2026, às 05h19
Os implantes hormonais se tornaram um dos temas mais controversos da saúde feminina nos últimos anos. Entre promessas de emagrecimento, ganho muscular, discursos alarmistas nas redes sociais e a popularização do termo “chip da beleza”, o assunto passou a ocupar consultórios, debates médicos e conversas entre mulheres que atravessam o climatério e a menopausa em busca de qualidade de vida.
Para a ginecologista, obstetra e especialista em menopausa Dra. Ana Comin, o primeiro passo para tratar o tema com seriedade é abandonar uma expressão que, segundo ela, mais confunde do que esclarece. “Os principais mitos seriam que o implante hormonal é um ‘chip de beleza’. Não é um chip, não tem nada de eletrônico”, afirma.
A médica explica que o apelido ganhou força depois que a apresentadora Hebe Camargo comentou publicamente sobre o tratamento hormonal que utilizava. Desde então, o termo passou a ser apropriado pelo mercado e associado a promessas estéticas, algo que a especialista considera perigoso. “O termo ‘chip da beleza’ gera muita desinformação, porque as pessoas confundem o implante com algo eletrônico, e não é. Chip diz respeito a algo eletrônico, que não existe no implante hormonal”, reforça.
Apesar da polêmica recente, os implantes hormonais não são novidade na medicina. De acordo com Dra. Ana, eles surgiram nos Estados Unidos por volta de 1942 como mais uma via de administração hormonal, ao lado de comprimidos, géis, adesivos e anéis vaginais. A proposta era oferecer liberação contínua, sem picos hormonais, especialmente em casos nos quais outras formas de tratamento não alcançam o resultado esperado.
“O objetivo deles era criar mais uma via e que fosse de liberação hormonal contínua e sem picos”, explica. Segundo a médica, o implante pode ser indicado tanto para anticoncepção quanto para reposição hormonal, mas nunca deve ser tratado como primeira opção. “Implantes nunca são a primeira via de administração de hormônio para nós médicos. A gente sempre começa com via oral, adesivos, não se tem o hábito de indicar o implante logo como primeira opção.”
Na prática clínica, a indicação costuma aparecer quando a paciente já tentou outras alternativas sem melhora suficiente. “Quando a paciente já fez uso do gel, já fez uso da via oral, do creme, da via vaginal e nenhum deles dá resultado, é complexo e cansativo para a paciente ficar usando duas vias”, afirma.
Entre os benefícios apontados pela especialista estão a praticidade e a estabilidade hormonal. Em vez de depender de aplicações ou usos diários, o implante pode ser colocado a cada seis ou doze meses, dependendo do caso. Já os implantes anticoncepcionais podem ter duração de até três anos. “Somente quando as outras formas não dão certo, indicamos tentar o implante, que é o mais moderno e proporciona mais praticidade à paciente”, diz.
A médica, porém, faz uma distinção fundamental: uma coisa é reposição hormonal feita com avaliação clínica, exames e acompanhamento. Outra, completamente diferente, é o uso indiscriminado de hormônios com finalidade estética ou de performance física.
“O uso de hormônios não é permitido com fins estéticos e, portanto, não é permitido uso de implante hormonal para fins estéticos. Médicos que usam reposição hormonal para fins estéticos estão tendo atitudes antiéticas, é errado e é algo condenado também pelo Conselho Federal de Medicina”, alerta.
Para Dra. Ana, o problema não está no implante em si, mas no uso inadequado, em doses elevadas ou sem necessidade real. Ela afirma que a reposição hormonal pode trazer melhora de energia, disposição, sono, libido, pele e cabelo, mas não deve ser vendida como milagre. “O implante hormonal é uma força extra quando o estradiol baixou e o FSH subiu. Ajuda na pele boa, no cabelo saudável, mas se você não faz os cuidados do dia a dia não vai adiantar nada.”
A repercussão em torno do tema aumentou em 2024, após denúncias divulgadas na internet e a suspensão temporária dos implantes hormonais pela Anvisa. Dra. Ana afirma que o episódio foi marcado por excesso de informações não verificadas e relatos sem autenticação. “As pessoas não sabem em quem podem confiar e acabam perdidas, criando mais confusão na vida delas”, diz.
Segundo ela, o debate atual tem sido prejudicado por dois extremos. De um lado, profissionais que rejeitam qualquer abordagem que ainda não esteja consolidada em diretrizes. Do outro, médicos que banalizam a prescrição hormonal e indicam implantes sem avaliação adequada. “São os dois extremos completamente errados”, afirma.
No meio desse cenário, a especialista defende uma medicina criteriosa, individualizada e acompanhada de perto. Antes de qualquer tratamento hormonal, exames como mamografia, ultrassom das mamas e avaliações laboratoriais são indispensáveis. “A mulher precisa saber qual a melhor forma de fazer reposição hormonal para ela. Reposição hormonal não envolve você ver a paciente só uma vez por ano. Você a vê constantemente, porque existem acertos que devem ser feitos”, explica.
A escolha do profissional também é decisiva. Para Dra. Ana, a paciente deve buscar médicos com formação sólida, experiência em menopausa e conhecimento sobre diferentes vias de reposição hormonal, e não apenas sobre implantes. Profissionais que oferecem somente uma alternativa devem acender um sinal de alerta.
“Os implantes hormonais são mais uma forma de entregar a reposição hormonal, apenas mais uma via de administração. Como temos cirurgias abertas, abdominais, vaginais, videolaparoscópicas e robóticas, seguindo a mesma lógica, a gente tem também vias de administrar hormônio. O implante é apenas mais uma via”, compara.
Para a médica, a discussão não deve girar em torno de demonizar ou endeusar o método, mas de compreender quando ele faz sentido. A reposição hormonal, por qualquer via, exige indicação precisa, acompanhamento contínuo e responsabilidade médica.
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No fim, a mensagem de Dra. Ana Comin é direta: não existe método universal, nem promessa milagrosa. Existe a mulher, sua história clínica, seus sintomas, seus exames e o tratamento mais adequado para sua realidade. E, nesse caminho, informação de qualidade ainda é o melhor antídoto contra o medo e contra o marketing disfarçado de medicina.
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