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Da quadra ao banco: a virada de Anna Victoria Burnier na ginástica rítmica brasileira

Com uma carreira marcada por mais de 70 medalhas oficiais e títulos expressivos em competições nacionais e estaduais, Anna Victória Burnier fez uma transição bem-sucedida da quadra para a função técnica. Hoje, vê suas atletas conquistarem títulos brasileiros em sequência.

Grupo de Ginástica Rítmica - Reprodução Instagram
Grupo de Ginástica Rítmica - Reprodução Instagram
Brenno

por Brenno

Publicado em 22/12/2025, às 17h54

Com uma carreira marcada por mais de 70 medalhas oficiais e títulos expressivos em competições nacionais e estaduais, Anna Victória Burnier fez uma transição bem-sucedida da quadra para a função técnica. Hoje, vê suas atletas conquistarem títulos brasileiros em sequência.

A primeira vez que Anna Victória Burnier viu uma das suas atletas no pódio do Campeonato Brasileiro de Ginástica Rítmica foi em João Pessoa, na Paraíba, em 2023. Bianca T. tinha treze anos e voltou da Paraíba com a prata, o vice-campeonato brasileiro na sua categoria. Anna já tinha tomado a decisão havia tempo: aposentar o collant da mala e ficar do outro lado da quadra. Foi olhando para Bianca naquele pódio que entendeu o tamanho do que estava começando.

Dois anos depois, a cena se multiplica. Em 2025, três delas subiram em pódios nacionais. Malu P., juvenil, foi campeã brasileira de arco no Campeonato Brasileiro de Ginástica Rítmica, em Natal, no Rio Grande do Norte, e, semanas depois, levou prata nos Jogos Escolares da Juventude, em Brasília. Luanna A., ainda pré-infantil, foi campeã brasileira na sua categoria por bloco, no Brasileiro disputado em Londrina, no Paraná. Bianca, agora mais velha, voltou ao pódio, desta vez nos Escolares da Juventude, também em Brasília, e novamente como vice. A equipe que Anna prepara em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, fechou a temporada como vice no Campeonato Mineiro de Ginástica Rítmica, num campeonato que historicamente é um dos mais duros do país.

"Quando dá certo com perfis tão diferentes, é porque a coisa não depende de uma menina genial puxando o resto", diz ela. "É o método funcionando em corpos diferentes, idades diferentes, cabeças diferentes."

Aos 29, a niteroiense que cresceu colecionando medalhas virou um nome a se observar entre os técnicos da nova geração.

A menina da capa

Tudo começou em 2004, num ginásio do Colégio Plínio Leite, em Niterói. Em 2008, ao ficar em terceiro no Campeonato Brasileiro de Conjuntos, a escola lhe entregou um Certificado de Performance Destacada. Aos catorze, estampou a capa do um jornal sob uma manchete que ela hoje acha graça em lembrar: "A graciosidade Niteroiense".

Veio então a fase séria. Por muitos anos vestiu o collant da Happy Gym, escola filiada à Federação de Ginástica do Estado do Rio de Janeiro, e o currículo desse período é o tipo de coisa que se escreve em letra miúda porque não cabe de outro jeito: campeã nacional por aparelho, campeã regional no individual geral, bicampeã regional por aparelho, medalhista das Olimpíadas Escolares Brasileiras. No Campeonato Brasileiro, subiu ao pódio em múltiplas edições, com destaque para os bronzes no arco e nas maças em 2019, no Rio de Janeiro. No Campeonato Estadual carioca, o número impressiona pela teimosia: hexa no individual geral, 36 títulos por aparelho, tricampeã por equipe, tetra em conjunto, octa em séries de conjunto. Somadas, são mais de 70 medalhas oficiais.

Pergunte qual conquista pesa mais e ela pensa antes de responder. "Adoro os campeonatos nacionais. Você entra na quadra com meninas que depois vão para Mundiais, para as Olimpíadas, e tem que ganhar delas ali. Não tem sensação parecida." Aí vem a outra parte, e a voz muda um pouco. "Mas o hexa estadual é diferente. O primeiro veio em 2008, o último em 2019. São onze anos voltando para a mesma quadra, com o corpo diferente, com a cabeça em outro lugar, com coisas acontecendo fora dali que ninguém via e tendo que entrar e entregar do mesmo jeito. Ganhar uma vez já é um desafio enorme. Ganhar seis, ao longo de uma década, é sobre quem você é nos anos em que o pódio custa mais."

A vida de Anna teve também algumas fugas para fora da quadra. Em 2018, ela coreografou e performou uma sequência de Malhação – Vidas Brasileiras, na Globo. No ano seguinte, abriu a noite de comemoração dos 30 anos da Imovision no Teatro Nelson Pereira dos Santos, na Reserva Cultural de Niterói, com a atriz francesa Juliette Binoche, vencedora do Oscar, e o diretor Cédric Kahn na plateia. Não foram desvios, garante. "A rítmica é um esporte com alma artística. Hoje isso volta no que eu peço das meninas, na musicalidade, na construção das séries, na expressão."

A travessia

A transição para o banco não aconteceu de uma vez. Aconteceu por sobreposição, como costuma acontecer quando o corpo e a cabeça começam a discordar sobre o que vem primeiro. Entre 2014 e 2019, Anna ainda competia, mas também já dava aulas na Escola de Ginástica Simone Garcia, em Niterói. Em 2016, as famílias das alunas lhe entregaram uma placa de agradecimento com os nomes das meninas que ela treinava. Foi a primeira homenagem que ela recebeu como técnica, e ela conta a história com a expressão de quem ainda não a esqueceu.

"Foi ali que entendi que ensinar era tão importante para mim quanto competir."

A virada veio em fevereiro de 2023, quando ela aceitou um convite para Poços de Caldas. A Escola Mineira de Ginástica Rítmica, comandada pelo head coach Weverley “Branco” Cardoso, vinha se consolidando como um dos polos da modalidade no país. Anna entrou para cuidar da preparação coreográfica, artística, montagem de séries, refinamento de expressão corporal, o detalhe que separa a execução correta da execução premiada. O resto da história já está nos pódios.

E começa a estar também nos papéis oficiais. Depois dos títulos brasileiros de 2025, Malu e Luanna foram chamadas para o Bolsa Atleta, o programa do Ministério do Esporte que repassa auxílio mensal apenas a quem comprova desempenho em competição nacional. A equipe foi contemplada pela Lei Municipal de Incentivo ao Esporte de Poços de Caldas. E Lara B., outra ginasta formada na escola, recebeu da Câmara Municipal de Poços de Caldas o Título de Mérito Esportivo em abril de 2024, homenagem que costuma ir para nomes consolidados, raramente para uma adolescente de collant.

O método que Anna vem construindo é declaradamente híbrido. "A escola europeia é a referência do mundo em precisão técnica. A brasileira é forte na musicalidade, na expressão. Cresci aqui assistindo as duas e sempre achei que as melhores ginastas eram as que conseguiam juntar."

Próximo passo, fora do país

A próxima etapa é internacional. Anna almeja levar seu trabalho para fora do Brasil em breve, com planos que incluem firmar parcerias com instituições estrangeiras e disseminar a metodologia que vem desenvolvendo há anos. Como preparação para essa fase, concluiu diversas certificações e cursos ao longo de 2025.

“Penso em levar meu conhecimento e experiência para além das fronteiras e alcançar outros países”, afirma. “A ginástica rítmica brasileira tem uma base técnica e artística muito rica, que pode dialogar com diferentes escolas ao redor do mundo.”