Crises, internacionalização e sucessão mostram por que estruturar empresas e patrimônio para o longo prazo deixou de ser uma preocupação apenas das grandes corporações.

por Brenno de Souza
Publicado em 28/09/2026, às 10h00
O ambiente empresarial brasileiro, marcado por mudanças econômicas, regulatórias e institucionais ao longo das últimas décadas, criou entre os empresários uma preocupação cada vez maior com risco, adaptação e continuidade. Para Leandro Luzone, advogado empresarial internacional, empreendedor, autor e advisor em fusões e aquisições, essa experiência fez com que o empresário brasileiro desenvolvesse uma capacidade particular de pensar além das fronteiras.
Fundador e Chairman da Luzone Group, Luzone atua há mais de duas décadas em negócios internacionais, governança corporativa, M&A, estruturação empresarial e estratégias de preservação patrimonial de longo prazo. É autor de livros sobre patrimônio e negócios internacionais e desenvolve estudos sobre governança, arquitetura institucional e continuidade de empresas e patrimônio através das gerações.
“O empresário brasileiro foi exposto, ao longo das últimas décadas, a uma sucessão de mudanças econômicas, regulatórias e institucionais que o obrigaram a desenvolver uma sensibilidade muito particular para risco e adaptação. Isso criou uma espécie de escola involuntária”, afirma.
Para Luzone, pensar globalmente não significa necessariamente transferir uma operação para outro país ou deixar o mercado brasileiro. Uma empresa pode manter sua principal estrutura no Brasil e, simultaneamente, desenvolver clientes internacionais, estabelecer subsidiárias, acessar capital estrangeiro e diversificar investimentos.
“Internacionalizar não é abandonar o Brasil, mas construir alternativas. Uma empresa pode ter sua principal operação brasileira e, ao mesmo tempo, possuir clientes internacionais, subsidiárias em outros países, acesso a capital estrangeiro e investimentos diversificados”, explica.
A expansão internacional, entretanto, também exige planejamento. Para Luzone, um dos erros mais comuns é criar estruturas em outros países sem definir claramente a função que elas terão dentro da organização.
A mesma lógica se aplica à proteção patrimonial. Para Luzone, organizar patrimônio não deve ser encarado apenas como uma estratégia defensiva, mas como parte da construção de uma estrutura capaz de preservar a continuidade dos negócios e a capacidade de investimento.
“Patrimônio é o resultado de uma vida empresarial e precisa ser organizado para permitir continuidade, liberdade de decisão e capacidade de investimento. Proteger não significa esconder patrimônio ou fugir de riscos legítimos. Significa organizar juridicamente empresas, ativos e investimentos para que acontecimentos previsíveis não destruam desnecessariamente aquilo que levou décadas para ser construído.”
Quando empresas e patrimônio envolvem uma família, os desafios se tornam ainda mais amplos. Segundo Luzone, uma empresa pode apresentar bons resultados e, ainda assim, enfrentar dificuldades decorrentes de uma sucessão mal planejada, conflitos entre herdeiros ou ausência de uma estrutura adequada de governança.
“Transferir patrimônio é relativamente simples. Transferir a capacidade de governá-lo é muito mais difícil. A sucessão mais sofisticada não transmite apenas ativos. Ela transmite governança, conhecimento, responsabilidade e capacidade de decisão”, destaca.
Para o advogado, famílias empresárias que atravessam gerações precisam separar propriedade, gestão e governança. Entre os mecanismos estão holdings, fundações, conselhos familiares e regras para participação dos descendentes na administração.
A perda de patrimônio ao longo das gerações também está relacionada a uma combinação de fatores. Entre eles, Luzone cita fragmentação entre herdeiros, consumo excessivo, conflitos familiares, decisões inadequadas de investimento, concentração em setores que perderam relevância e dificuldade de adaptação.
“Simplesmente criar uma holding não resolve o problema. Nenhuma estrutura jurídica consegue compensar indefinidamente uma governança ruim ou decisões ruins”, afirma.
A preocupação com continuidade também se estende às próprias empresas. Para Luzone, uma organização excessivamente dependente de seu fundador pode perder parte importante de seu conhecimento quando essa pessoa deixa a operação.
O fundador costuma concentrar relacionamentos, autoridade, conhecimento e memória sobre as decisões tomadas ao longo da trajetória da empresa. Institucionalizar a organização significa transformar esse conhecimento individual em processos, governança e capacidade organizacional.
A necessidade de institucionalização se torna ainda mais evidente em operações de fusões e aquisições. Segundo Luzone, processos de M&A costumam revelar rapidamente fragilidades que estavam escondidas na rotina da empresa.
Governança deficiente, contratos desorganizados, concentração excessiva no fundador, contingências, ausência de processos e demonstrações pouco transparentes podem afetar tanto o risco percebido pelo investidor quanto o valor atribuído à companhia.
“Preparar uma empresa para uma eventual aquisição começa muito antes de existir um comprador. Em muitos aspectos, construir uma empresa vendável é simplesmente construir uma empresa melhor.”
O cenário geopolítico também passou a ocupar espaço relevante nessa discussão. Para Luzone, o ambiente internacional apresenta uma característica paradoxal: ao mesmo tempo em que capital, tecnologia, dados, pessoas e empresas circulam com maior facilidade entre países, regulações, sanções, disputas comerciais e interesses nacionais se tornam mais complexos.
“Uma decisão tomada em Washington, Brasília, Bruxelas ou Pequim pode produzir efeitos econômicos em várias jurisdições. Empresas precisam compreender essa interdependência”, afirma.
Nesse ambiente, a arquitetura empresarial e patrimonial precisa permitir adaptação diante de mudanças econômicas, regulatórias e geopolíticas sem comprometer aquilo que foi construído ao longo do tempo.
Para Luzone, empresários que estão construindo patrimônio hoje precisam olhar não apenas para o volume de ativos acumulados, mas também para a forma como empresas, investimentos e patrimônio estão organizados.
A partir dessa perspectiva, crescimento, proteção e continuidade deixam de ser etapas isoladas. O planejamento passa a considerar, desde a construção do patrimônio, como ele poderá ser protegido, governado e transmitido no futuro.
“Não basta construir patrimônio. É preciso construir uma arquitetura capaz de sobreviver ao próprio fundador e continuar criando valor depois dele.”
COLUNISTAS
Faustino Júnior | Nerd de Negócio
Nota fiscal autorizada significa empresa regular na reforma tributária?
Eduardo Graboski
BBB 26 prova que emoção ainda ganha da estratégia