Dra. Helen Henrique explica como a água pode ser utilizada no pós-operatório do joelho para trabalhar força, movimento e confiança antes do retorno ao solo

por Brenno de Souza
Publicado em 29/09/2026, às 15h00
Depois de uma cirurgia no joelho, voltar a andar e deixar de sentir dor são apenas algumas etapas da recuperação de um atleta. Para retornar ao esporte, ele precisa recuperar força, potência, equilíbrio, coordenação e capacidade para correr, saltar, frear e mudar de direção. Há ainda outro fator que nem sempre aparece nos exames: a confiança para voltar a realizar movimentos associados à lesão.
É nesse processo que a fisioterapia aquática pode contribuir para otimizar a reabilitação. A redução da descarga de peso proporcionada pela água permite trabalhar determinados movimentos com menor impacto sobre as articulações, respeitando as restrições de cada cirurgia e o tempo biológico de cicatrização.
Para a Dra. Helen Henrique, diretora da Hidro e Terapia e fisioterapeuta com 27 anos de experiência em terapias aquáticas, o recurso ainda poderia ser incorporado mais cedo a muitos planejamentos de pós-operatório.
“A água não desrespeita o tempo biológico da cicatrização, mas impede que esse período seja um tempo perdido. Enquanto alguns tecidos ainda precisam ser protegidos, podemos trabalhar mobilidade, marcha, condicionamento, ativação muscular, equilíbrio e confiança”, explica.
O início depende do tipo de procedimento e da evolução do paciente. Em alguns casos selecionados, a abordagem pode acontecer de maneira bastante precoce; em outros, é necessário aguardar que a incisão esteja completamente fechada e segura, além da respectiva liberação.
Segundo Helen, o problema é quando a piscina terapêutica passa a ser considerada somente nas fases finais da recuperação.
“Não se trata de substituir a fisioterapia em solo nem de confrontar a conduta médica. Precisamos integrar recursos. A água não pula etapas. Ela antecipa possibilidades e prepara o atleta para enfrentar, no solo, as cargas e os impactos que virão depois”, afirma.
A flutuação reduz a descarga de peso sobre as articulações, enquanto a resistência oferecida pela água pode ser utilizada no fortalecimento e no controle dos movimentos. A pressão da água também auxilia no controle do edema e a temperatura aquecida pode contribuir para diminuir a percepção da dor e a tensão muscular.
Com essas condições, o fisioterapeuta consegue trabalhar força, equilíbrio, propriocepção, coordenação, controle motor, resistência e amplitude de movimento.
Dependendo da fase da recuperação, movimentos relacionados ao próprio esporte também podem começar a ser introduzidos de maneira progressiva. Corrida, saltos, aterrissagens, frenagens e mudanças de direção estão entre os gestos que podem ser trabalhados dentro da piscina antes de serem realizados novamente com toda a carga e o impacto encontrados no solo.
Mas Helen chama atenção para um aspecto que vai além da recuperação física.
“Muitas vezes, o atleta já recuperou parte da força, mas continua com medo de apoiar, acelerar, frear, saltar ou mudar de direção. O corpo pode estar evoluindo, enquanto o cérebro ainda interpreta aquele movimento como uma ameaça”, explica.
A partir dessa percepção, Helen passou a desenvolver, ao longo de seus 27 anos de atuação, uma abordagem própria de atendimento que, aliada à fisioterapia aquática, busca ampliar as possibilidades durante as diferentes fases da reabilitação. O trabalho reúne recuperação física, controle do movimento, exposição progressiva e reconstrução da confiança, permitindo que determinadas habilidades sejam estimuladas antes mesmo do atleta estar preparado para executá-las com toda a carga e o impacto do solo.
A proposta é utilizar a piscina como uma ponte entre a proteção necessária no pós-operatório e aquilo que o atleta precisará executar novamente no esporte. Em vez de antecipar o tempo biológico da recuperação, a abordagem busca antecipar possibilidades dentro de cada fase, aproveitando recursos que podem ser trabalhados com segurança enquanto outras estruturas ainda precisam ser protegidas.
“Na água, conseguimos experimentar o gesto com menos impacto e maior segurança. A cada repetição bem-sucedida, o paciente percebe que consegue realizar aquele movimento. Não trabalhamos apenas músculo e articulação, mas percepção corporal, coordenação, tempo de reação, controle motor e confiança”, explica.
Essa abordagem pode ser utilizada de forma individualizada e sempre respeitando as orientações médicas, em diferentes cirurgias do joelho, como reconstruções ligamentares, incluindo ligamento cruzado anterior e posterior, procedimentos nos meniscos e cartilagens, reconstrução do ligamento patelofemoral, correções da patela, reparos de tendões, osteotomias e próteses.
Também pode integrar a recuperação de determinadas lesões tratadas sem cirurgia, como entorses, lesões ligamentares e meniscais, instabilidade do joelho, tendinopatias, condropatias e dor femoropatelar.
Helen afirma que, em determinados casos, a fisioterapia aquática pode ajudar a otimizar e até reduzir o tempo necessário para o retorno ao esporte. Isso não significa, porém, estabelecer um prazo menor para todos os pacientes.
O tipo de lesão, a cirurgia realizada, a evolução do atleta e a ausência de complicações precisam ser considerados. A integração entre médico, fisioterapeuta e equipe esportiva também é fundamental.
Outro ponto é que a liberação não deveria acontecer simplesmente porque determinado número de semanas passou. Dor e inchaço, amplitude de movimento, força, equilíbrio, propriocepção e controle neuromotor precisam ser avaliados, assim como a maneira como o corpo responde ao aumento das cargas.
Testes funcionais de corrida, salto, aterrissagem, frenagem e mudança de direção também ajudam a verificar se o atleta consegue executar novamente os movimentos exigidos pelo esporte sem compensações.
E a confiança volta a entrar nessa avaliação.
“Não basta o joelho estar forte se o atleta continua com medo de apoiar, acelerar ou repetir o gesto em que se lesionou. A prontidão física e a psicológica precisam caminhar juntas”, ressalta.
Tentar acelerar a recuperação ignorando esses critérios pode provocar o resultado oposto: retorno da dor e do edema, compensações, queda de desempenho e até uma nova lesão. Por isso, para Helen, acelerar não significa pular etapas, mas aproveitar melhor o período entre elas.
“A água pode encurtar o caminho, mas não ultrapassar os limites do corpo. Enquanto o tecido cumpre seu tempo biológico de cicatrização, conseguimos continuar desenvolvendo força, condicionamento, controle neuromotor e confiança. Assim, quando o atleta estiver liberado para avançar no solo, poderá chegar mais preparado”, finaliza a Dra. Helen Henrique.
COLUNISTAS
Faustino Júnior | Nerd de Negócio
Nota fiscal autorizada significa empresa regular na reforma tributária?
Eduardo Graboski
BBB 26 prova que emoção ainda ganha da estratégia