Especialista em tecnologia e inovação aplicada à administração pública. Especialista em estratégias de IA, estruturas digitais e processamento de dados.

por Mundo Pop
Publicado em 20/10/2025, às 16h58
A inteligência artificial está provocando uma transformação silenciosa, porém profunda, no mundo do trabalho. O que antes era considerado um dos setores mais estáveis da economia — o trabalho administrativo — agora se encontra no centro de uma revolução que redefine funções, carreiras e estruturas organizacionais. No Brasil, essa mudança promete ser ainda mais impactante, atingindo tanto o setor público quanto o privado e levantando questões urgentes sobre preparo profissional, políticas públicas e o futuro da economia digital.
“O que antes era símbolo de estabilidade — o trabalho administrativo — está prestes a viver a maior transformação da sua história.” disparou Rodrigo Simões
Em entrevista, Rodrigo Simões esclareceu todos os detalhes sobre o assunto
Rodrigo, você chama esse fenômeno de “revolução silenciosa”. O que exatamente está acontecendo no campo administrativo?
A inteligência artificial (IA) está avançando de forma gradual, porém profunda, mudando a maneira como as pessoas trabalham no mundo todo. O que antes era considerado um território de estabilidade — a burocracia administrativa — agora está no centro de uma grande transformação. Ferramentas capazes de lidar com rotinas, correspondências eletrônicas, estruturação de informações e até decisões operacionais estão se tornando comuns.
No Brasil, esse impacto será particularmente intenso, porque o setor público e muitos escritórios privados ainda funcionam com modelos muito tradicionais.
Estamos falando apenas de uma automação de tarefas ou há algo mais profundo acontecendo?
É bem mais do que uma simples automação. Estamos diante de uma mudança estrutural. Segundo estudos da McKinsey, até 30% das responsabilidades de escritório poderão ser automatizadas até 2030. Isso inclui tarefas de gestão de papel, registro, suporte administrativo e secretariado.
Mas, ao mesmo tempo, surgem novas oportunidades — funções ligadas à análise de dados, coordenação de processos automatizados, administração de plataformas tecnológicas e o uso estratégico da IA.
A questão é que essas novas posições exigem competências digitais avançadas, e nem todos os países — especialmente o Brasil — estão preparados para essa transição.
“A IA não ameaça apenas o trabalho repetitivo. Ela está reformulando a própria natureza das profissões.”
E qual é o impacto específico dessa transformação no Brasil?
O impacto será grande e desigual. O Brasil está entre os países que mais podem sofrer com a automação. Um estudo da LCA 4Intelligence mostra que cerca de 31,3 milhões de empregos estão em alto risco, e 5,5 milhões podem ser eliminados, principalmente no setor administrativo.
Os grupos mais vulneráveis são as mulheres, os jovens, pessoas com baixo nível educacional e aqueles que atuam em funções com pouca presença digital.
O país ainda não desenvolveu plenamente sua base técnica — o que amplia o risco de exclusão digital e social.
Então o principal problema não é a automação em si, mas o preparo das pessoas?
Exatamente. O desafio não é o avanço da IA — é a falta de qualificação e adaptação.
O Brasil ainda ocupa as últimas posições em programas de capacitação tecnológica. Apenas 20% dos trabalhadores tiveram algum tipo de treinamento em IA, segundo pesquisa da BCG.
Enquanto isso, as vagas na área cresceram de 19 mil para mais de 73 mil entre 2021 e 2024, conforme a PwC. Ou seja, há uma enorme demanda e um déficit estrutural de profissionais.
Dado-chave:
O abismo entre os EUA e o Brasil
Como os investimentos em inteligência artificial no Brasil se comparam aos dos Estados Unidos?
A diferença é abissal. Enquanto os Estados Unidos investem dezenas de bilhões de dólares por ano em pesquisa, infraestrutura e capacitação em IA, o Brasil ainda trabalha com valores simbólicos e projetos pontuais.
Nos EUA, há uma estratégia nacional clara — com incentivos fiscais, fundos federais e forte parceria entre governo, universidades e setor privado.
Já no Brasil, os investimentos são fragmentados e, muitas vezes, reativos. Falta uma política nacional integrada de IA.
Se não houver um esforço coordenado, o país continuará importando tecnologia e exportando talentos. IA não é luxo tecnológico — é infraestrutura essencial para o desenvolvimento econômico e social.
“Enquanto os EUA constroem o futuro, o Brasil ainda discute se deve investir.”
Em suas falas você menciona muito o futuro. Como você enxerga o avanço da AGI e da Superinteligência, e o que isso pode significar para a economia brasileira?
A chegada da AGI (Inteligência Artificial Geral) — sistemas capazes de raciocinar e aprender como um ser humano — será um divisor de águas.
Hoje vivemos a era das inteligências especializadas, mas a transição para a AGI e depois para a Superinteligência mudará a estrutura econômica mundial.
Nos países desenvolvidos, que já possuem infraestrutura e pesquisa avançada, a AGI vai multiplicar a produtividade.
Mas em países como o Brasil, o risco é de dependência tecnológica e de perda de soberania econômica.
A superinteligência, quando surgir, será um ponto de não retorno: sistemas que se aperfeiçoam sozinhos poderão gerar avanços — ou crises — que escapam ao controle humano.
Se o Brasil não se preparar agora, ficará restrito ao papel de consumidor, e não de criador, dessa nova era.
Quando isso vai acontecer?
E quando tudo isso deve acontecer? Estamos falando de um futuro distante ou de algo mais próximo do que parece?
Não é um cenário para o próximo século — é uma questão de anos, não de gerações.
Os principais centros de pesquisa estimam que a IA alcance níveis de inteligência geral entre 2032 e 2035.
A superinteligência pode surgir entre 2040 e 2050, dependendo do avanço da computação quântica e dos investimentos globais.
Mas os impactos econômicos e sociais chegarão muito antes. Nos próximos cinco a sete anos, veremos uma onda de automação eliminando funções administrativas, contábeis e operacionais.
Se o Brasil não tiver uma política robusta de IA até 2030, o atraso pode se tornar irreversível.
Que ações seriam urgentes para o país não ficar para trás?
Há cinco pilares fundamentais:
O lado otimista da revolução
Apesar dos riscos, você ainda parece otimista. Por quê?
Porque acredito que a IA pode ser uma parceira do ser humano, não uma ameaça.
Ela tem o potencial de libertar as pessoas das rotinas repetitivas e permitir que foquem em tarefas criativas, estratégicas e humanas — aquelas em que a tecnologia sozinha não dá conta.
Se o Brasil souber aproveitar esse momento, pode transformar um desafio em uma oportunidade histórica de modernização e inclusão.
“A revolução já começou. O que precisamos garantir é que ela aconteça com o Brasil dentro dela, não à margem.”
Rodrigo Simões é especialista em tecnologia e inovação aplicada à administração pública.
Atua há mais de uma década com estratégias de inteligência artificial, infraestrutura digital e gestão orientada por dados.
Iniciou sua carreira na Oracle, atuando em projetos no Brasil e na Europa, e hoje lidera uma empresa de tecnologia que apoia tanto o setor público quanto o privado em processos de transformação digital e eficiência institucional.
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