A aquisição da Serra Verde pelos Estados Unidos não é uma surpresa para quem acompanha o tabuleiro dos minerais críticos. É, antes, a con?rmação de que o Brasil e os EUA são parceiros naturais nessa nova geopolítica de recursos. A questão agora é: como o Brasil se posiciona para colher o máximo dessa aliança?

por Isadora Coimbra
Publicado em 23/04/2026, às 17h11
A USA Rare Earth adquiriu por US$ 2,8 bilhões o Grupo Serra Verde, que opera a única mina de terras raras pesadas do Brasil, destacando a crescente importância geopolítica do país na produção de elementos críticos para tecnologia moderna.
A Serra Verde deve fornecer mais de 50% da oferta mundial de terras raras pesadas fora da China até 2027, em um contexto onde os EUA buscam diversificar suas fontes de suprimento estratégico fora do domínio chinês.
O governo brasileiro enfrenta a oportunidade de estabelecer uma política industrial que promova a transformação local dos recursos minerais, exigindo contrapartidas na aprovação da transação e buscando construir uma cadeia produtiva robusta com os EUA.
Enquanto o Brasil assistia ao feriado de Tiradentes e evocava o mártir que morreu por querer que a riqueza da terra ficasse para o próprio povo, a única mina de terras raras pesadas em operação no país era vendida por US$ 2,8 bilhões a uma empresa norte-americana. A ironia não poderia ser mais brutal.
A USA Rare Earth anunciou a aquisição de 100% do Grupo Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), a única produtora em escala fora da Ásia dos quatro elementos magnéticos mais críticos do planeta: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Elementos que movem turbinas eólicas, veículos elétricos, drones militares e a infraestrutura de defesa da próxima geração.

Um movimento que o mercado já esperava
Para quem acompanha a geopolítica dos minerais críticos, esta transação não veio do nada. Na semana passada, tive a oportunidade de ser ouvida pela Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, em encontro sobre minerais estratégicos e o posicionamento do Brasil nesse novo ciclo de disputas por recursos. O que ficou claro naquele diálogo, e que agora se confirma em letras maiúsculas, é que os Estados Unidos estão executando uma estratégia sistemática, paciente e bem financiada de securitização de fontes de abastecimento crítico fora da China.
A Serra Verde já havia recebido um financiamento de US$ 565 milhões da DFC, a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional do governo americano. Havia firmado um contrato de ocake de 15 anos, com preços mínimos garantidos, para fornecer produção a uma empresa de propósito específico capitalizada por múltiplas agências federais dos EUA.
A compra definitiva era apenas o próximo passo lógico de uma parceria que vinha sendo construída com consistência por ambos os lados. O mercado sabia. Os analistas sabiam. E quem acompanha de perto as conversas sobre minerais críticos entre Brasil e EUA também sabia.
"O Brasil tem o minério. Tem a operação em escala. O que falta não é recurso natural, é arquitetura estratégica." ISADORA COIMBRA
Uma parceria que pode ser transformadora
A Serra Verde deve responder por mais de 50% da oferta mundial de terras raras pesadas fora da China até 2027. Mais de 90% da extração global desses elementos ainda ocorre em território chinês. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial. E os Estados Unidos, a maior economia do planeta, decidiram que querem construir sua cadeia de minerais críticos com o Brasil como âncora. Isso é, objetivamente, uma notícia positiva.
A parceria com os EUA abre portas que o Brasil di@cilmente abriria sozinho: acesso a capital de longo prazo, tecnologia de processamento, contratos governamentais de alto valor e inserção nas cadeias de defesa e energia limpa mais so@sticadas do mundo.
O potencial é real e imenso. A questão estratégica, porém, que cabe ao Estado brasileiro responder com urgência, é: como garantir que o Brasil não seja apenas o endereço do minério, mas também o endereço da transformação?
Exportamos bauxita e podemos exportar alumínio. Temos nióbio bruto e podemos ter componentes aeroespaciais. A Serra Verde pode ser o ponto de partida de uma cadeia que fabrique ímãs permanentes no Brasil, que abasteça montadoras de veículos elétricos instaladas no país, que forme engenheiros e técnicos especializados em elementos de terras raras. Para isso, a parceria precisa ser construída com inteligência de ambos os lados.
A expectativa é que a mina Pela Ema atinja um EBITDA anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões até o <m de 2027. A empresa combinada pode chegar a US$ 1,8 bilhão até 2030. Esse potencial é a base sobre a qual o Brasil pode negociar sua participação na cadeia de valor, não apenas como território de extração, mas como sócio industrial.
O que o Governo precisa fazer agora
Esta transação deveria ser o gatilho de uma política industrial inteligente no Estado brasileiro. Não estou falando de criar obstáculos ao investimento americano, muito pelo contrário. Estou falando de usar esse momento de aproximação como alavanca para construir algo maior: uma cadeia produtiva de minerais críticos com protagonismo brasileiro.
O Brasil tem tudo que os Estados Unidos, a Europa e os aliados da cadeia de minerais críticos precisam. Tem reservas, tem território, tem infraestrutura básica, tem mão de obra, tem clima político relativamente estável e tem, agora, um parceiro estratégico da maior economia do mundo olhando para o seu subsolo com seriedade. Essa é uma posição privilegiada que exige visão de Estado.
Aproveitar esse momento significa negociar, nas aprovações regulatórias desta e de futuras transações, compromissos concretos de instalação de plantas de processamento em solo brasileiro. Significa criar zonas de manufatura mineral com incentivos fiscais para re@no, separação de elementos, produção de ligas e fabricação de ímãs permanentes. Significa usar o poder de compra do Estado, via Petrobras, Embraer e programas de
defesa, como alavanca para criar demanda doméstica por produtos com conteúdo nacional. A parceria com os EUA é o ambiente perfeito para isso.
"O Brasil tem algo que o mundo precisa e os EUA querem construir conosco. Essa é uma posição de força. O momento é de negociar bem, não de hesitar." ISADORA COIMBRA
A janela que ainda está aberta
A transação Serra Verde-USA Rare Earth ainda depende de aprovações regulatórias no Brasil. O Cade, o Ministério de Minas e Energia e a ANM têm, neste momento, instrumentos legítimos para exigir contrapartidas industriais como condição de aprovação. Não para inviabilizar o negócio, mas para que ele seja bom para os dois lados.
Outros projetos de terras raras, nióbio, lítio, cobalto e grafita estão sendo estruturados em todo o país. Há uma janela histórica, aberta pelo desacoplamento geopolítico entre China e Ocidente, para que o Brasil entre no jogo não como fornecedor de commodities, mas como sócio industrial de quem quer diversificar sua cadeia de abastecimento. Essa janela não ficará aberta indefinidamente.
Na entrevista que dei à Embaixada americana na semana passada, falei com clareza: o Brasil não quer ser apenas o celeiro mineral do mundo ocidental. Quer ser parceiro na construção de cadeias produtivas robustas. Essa mensagem precisa sair do protocolo diplomático e entrar na política pública de forma concreta, célere e inteligente.
Tiradentes morreu tentando que a riqueza desse território não financiasse coroas estrangeiras. Duzentos e trinta e cinco anos depois, a pergunta que o Brasil precisa responder é: até quando vamos continuar entregando o ouro antes de aprender a cunhar a
moeda?
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