Por trás do espetáculo da violência urbana, Marcos Nicolini aponta que o colapso da política tradicional dá lugar a uma "tecnodominação" que reconfigura o conceito de soberania

por Isadora Coimbra
Publicado em 31/05/2026, às 20h30
A crescente violência nas favelas brasileiras reflete uma crise estrutural, onde a disputa pelo controle territorial é marcada por um consórcio institucional e outro fora da lei, resultando na fragmentação da soberania estatal.
A análise de Marcos Nicolini destaca que o cidadão comum se torna uma moeda de troca na guerra urbana, perdendo suas garantias fundamentais e sendo submetido a uma dominação cultural que distorce o debate público.
Especialistas sugerem que o enfraquecimento das instituições tradicionais pode indicar o fim da política como a conhecemos, exigindo uma reflexão crítica sobre as certezas atuais na sociedade.
O eco de tiros na favela, o voo da pedra no escuro da madrugada e o tribunal instantâneo das redes sociais.
O que frequentemente é retratado apenas como mais um capítulo da crônica policial brasileira esconde, na verdade, o sintoma de uma crise estrutural: a consolidação de uma violência profana, cujo único objetivo é a manutenção do poder a qualquer custo.
A análise parte de uma leitura crítica sobre as conexões ocultas que moldam a dinâmica social contemporânea. Longe de ser um fenômeno isolado de segurança pública, a realidade urbana atual revela o embate e a simbiose de dois grandes blocos que disputam o controle dos territórios: O consórcio institucional, que utiliza a força do Estado para gerir populações em periferia permanente; e o consórcio "fora da lei", que estabelece territórios armados paralelos.
Para o engenheiro, filósofo e doutor em ciência da religião Marcos Nicolini, essa engrenagem transforma a política em tragédia. Especialista no estudo das relações humanas, Nicolini aponta que o resultado mais imediato dessa disputa é a fragmentação da soberania estatal.
Nesse cenário, o cidadão comum perde seu valor jurídico e passa a ser transformado em mera moeda de troca na guerra urbana, destituído de suas garantias fundamentais.
"A soberania é fragmentada e o cidadão comum perde seu valor jurídico, transformado em moeda de troca na guerra urbana.", analisa Marcos Nicolini.
De acordo com a análise, o aspecto mais alarmante dessa engrenagem não reside na força física ou no poder bélico, mas sim na dominação cultural. O poder contemporâneo opera por meio de uma espécie de engenharia linguística: a produção massiva de narrativas desenhadas para justificar o arbítrio, colonizar o debate público e neutralizar a capacidade de reação da sociedade.
No tribunal da pressa digital, impulsionado pelo imediatismo das redes sociais, a população é seduzida a aceitar o mal-estar civilizacional e a perda de direitos em troca de uma falsa ilusão de ordem e segurança.
O diagnóstico sobre a realidade brasileira não oferece respostas fáceis, mas consolida uma provocação incômoda sobre os rumos da sociedade. Diante do enfraquecimento das instituições tradicionais, o cenário levanta um questionamento central: estaríamos diante do fim definitivo da política e no início de uma era de tecnodominação pós-humanista?
Para especialistas como Nicolini, a resposta a esse dilema exige, antes de tudo, a coragem de colocar pontos de interrogação após cada aparente certeza do debate público atual.