Para o diretor de fotografia Bruno Latoya, que atuou na Copa de 2014 e nos Jogos Olímpicos Rio 2016, a transformação vai muito além da audiência e redefine a linguagem audiovisual das transmissões esportivas.

por Isadora Coimbra
Publicado em 05/08/2026, às 16h35
A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história por diversos motivos. Além do desempenho das seleções em campo, o torneio consolidou uma mudança que já vinha ganhando força no mercado audiovisual: pela primeira vez em mais de quatro décadas, o público brasileiro pôde acompanhar todas as partidas gratuitamente por streaming, rompendo um modelo que durante anos esteve concentrado na televisão aberta e fechada.
Com transmissões ao vivo que quebraram recordes mundiais de audiência no YouTube, o torneio tornou evidente que a disputa entre televisão tradicional e plataformas digitais deixou de ser uma tendência para se tornar uma nova realidade.
Mas, para quem trabalha atrás das câmeras, a principal transformação não está apenas na forma de distribuição do conteúdo.
“O streaming não chegou à Copa. Ele venceu”, afirma o diretor de fotografia e repórter cinematográfico Bruno Latoya, profissional com mais de duas décadas de experiência em televisão ao vivo e cobertura de grandes eventos esportivos.
“O brasileiro passou a assistir ao Mundial inteiro de graça, muitas vezes pelo celular. Isso muda completamente a forma como a imagem é pensada, produzida e consumida.”
Bruno Latoya fala com a experiência de quem acompanhou de perto duas das maiores operações de transmissão esportiva do país. Atuou como operador de câmera na Copa do Mundo FIFA de 2014, pela RPC-TV, e nos Jogos Olímpicos Rio 2016, pelo SporTV, além de integrar equipes de emissoras como TV Globo, SBT e TV Brasil em coberturas jornalísticas e esportivas.
Segundo ele, a mudança provocada pelo streaming não se limita ao meio de distribuição. Ela altera a própria linguagem da transmissão.
“A televisão tradicional foi construída para quem assistia sentado na sala de casa. O streaming nasce pensando na tela do celular, em um público que interage em tempo
real, comenta, compartilha e alterna entre diferentes conteúdos. São gramáticas visuais diferentes.”
Essa adaptação exige mudanças desde o posicionamento das câmeras até o ritmo da edição, a escolha dos enquadramentos e a dinâmica de construção narrativa durante a transmissão.
A engenharia invisível por trás de uma transmissão
Para o espectador, a experiência se resume ao jogo que aparece na tela. Nos bastidores, entretanto, existe uma operação que envolve dezenas de profissionais trabalhando de forma sincronizada.
“Quem assistiu viu o gol. O que não viu foi a quantidade de câmeras, operadores, técnicos, switchers e decisões tomadas em questão de segundos para que aquela imagem chegasse pronta ao público”, explica.
Segundo Bruno Latoya, a transmissão esportiva de um megaevento continua sendo uma das operações mais complexas do audiovisual contemporâneo. A diferença é que, agora, além da produção da imagem, existe um desafio adicional: distribuir esse conteúdo com estabilidade para milhões de dispositivos conectados simultaneamente.
“O recorde desta Copa não foi apenas de audiência. Foi também de engenharia. Manter qualidade de imagem para mais de 20 milhões de aparelhos conectados ao mesmo tempo era algo que parecia inviável poucos anos atrás.”
Democratização do acesso
Na avaliação do especialista, um dos principais legados do Mundial de 2026 foi ampliar o acesso ao maior evento esportivo do planeta.
Com boa parte da população brasileira conectada à internet, mas sem acesso à televisão por assinatura, o modelo gratuito de transmissão aproximou milhões de pessoas do torneio utilizando apenas um smartphone.
Mais do que uma disputa entre emissoras e plataformas digitais, Bruno Latoya acredita que o movimento representa uma mudança estrutural na indústria audiovisual.
“Quando o principal evento esportivo do mundo passa a ser consumido majoritariamente por streaming, toda a cadeia precisa evoluir. Mudam os profissionais, os equipamentos, a linguagem e até a forma como as novas gerações aprendem a produzir conteúdo.”
O futuro das transmissões
Depois de mais de vinte anos atuando em jornalismo, televisão ao vivo e grandes produções esportivas, Bruno Latoya acredita que o mercado entrou definitivamente em uma nova fase.
Na sua avaliação, a tendência é que televisão e streaming coexistem, mas cada vez mais utilizando linguagens próprias e estratégias específicas para diferentes telas e perfis de público.
“O futuro não é substituir a televisão. É entender que existem novas formas de contar a mesma história. A Copa de 2026 mostrou isso de forma definitiva.”

Para quem acompanha a evolução da tecnologia de transmissão, o torneio ficará marcado não apenas pelos resultados em campo, mas pelo momento em que a experiência esportiva passou a ser pensada prioritariamente para o ambiente digital.
Uma transformação silenciosa para quem assiste, mas profunda para quem trabalha por trás das câmeras, e que deve influenciar a maneira como grandes eventos serão produzidos nos próximos anos.
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