Tia Zélia começou com duas panelas e hoje é referência na culinária brasileira

por Flademir Pereira
Publicado em 08/10/2025, às 10h42
Tia Zélia, uma baiana de 72 anos, se tornou uma figura emblemática em Brasília, começando sua trajetória com dificuldades e transformando sua casa em um ponto de encontro para autoridades e pessoas comuns, simbolizando a inclusão e a solidariedade.
Ela chegou à capital fugindo da seca no Nordeste e, após anos de trabalho duro, conquistou reconhecimento nacional, recebendo visitas de figuras como o presidente Lula, que a ajudou a expandir seu negócio de comida caseira.
Atualmente, Tia Zélia mantém seu restaurante e continua a dar aulas sobre agricultura familiar, preparando-se para lançar sua biografia, enquanto reafirma seu compromisso com a simplicidade e o amor ao próximo como pilares de sua vida e trabalho.
Resumo gerado por IA
“Eu sou aquela que comecei com duas panelas e quatro pratos. Hoje, já recebi senador, ministro, juiz e também varredor de rua. Todo mundo tem lugar na minha mesa”, resume Tia Zélia, 72 anos, uma das personagens mais emblemáticas de Brasília.
Baiana de origem humilde, ela chegou à capital federal ainda nos anos 1970, em cima de um caminhão, fugindo da seca e da fome no Nordeste. Aos 18 anos, já era mãe de três filhos. “Eu disse para minha mãe: se eu sofrer lá, também sofro aqui. Então vai ser elas por elas”, recorda a cozinheira, em entrevista ao jornalista Flademir Pereira, para o SBT Pará.
O começo não foi fácil. Zélia viveu em uma cantina no Plano Piloto, lavou roupas para famílias e, lentamente, começou a cozinhar marmitas para operários. Foi ali que nasceu o apelido que a consagraria. “Na cantina, todo mundo era Maria. A dona também. Aí falaram: vamos arrumar outro nome. Ficou Zélia. Depois, virou Tia Zélia”, relembra.
O destino deu uma guinada quando, em 1998, ela recebeu a visita inesperada de um homem alto, em busca de comida caseira, a pedido de um freguês. O freguês era Luiz Inácio Lula da Silva. “Ele comeu, elogiou e, no mesmo dia, mandou um fogão industrial, panela de pressão e tudo que eu precisava para trabalhar. Eu chorei tanto, sem saber como ia pagar. Depois descobri que foi ele que mandou”, conta, emocionada.
Desde então, a baiana se tornou presença constante na vida do presidente. “Na eleição passada, eu fazia a comida dele todo dia, para garantir que ele comesse o melhor, sem correr nenhum risco. Até quando ele esteve preso em Curitiba, eu fui cozinhar para ele. E até hoje, quando Janja vai lá em casa, eu preparo o prato que ele mais gosta: o ovo que só eu sei fazer”, diz com orgulho.
A casa simples virou ponto de encontro de autoridades e jornalistas. “Chegava carro preto atrás de carro preto. Mas também chegava gente humilde pedindo um prato de comida. Nunca neguei. Todo mundo é família na minha mesa”, afirma. Com o tempo, Tia Zélia abriu seu restaurante, hoje conhecido em todo o país. Recebeu reportagens da Folha de S.Paulo, do Correio Braziliense e até de veículos internacionais. “Sou conhecida no Brasil inteiro. Já recebi repórter dos Estados Unidos, Canadá e até da China. Hoje eu tenho casa boa, carro bom, mas continuo sendo aquela mesma Zélia das duas panelas”, diz.
Carismática, ela ainda recebe pessoalmente clientes no restaurante. “Eles não são clientes, são família. Quando chegam, eu digo: bom dia, meu querido, tudo bem? Eu posso estar caindo aos pedaços, mas não deixo ninguém sentir meus problemas”, conta. Aos 72 anos, com 25 funcionários, ela segue ativa, viaja pelo país dando aulas sobre agricultura familiar e se prepara para lançar sua biografia, escrita pela autora Odacy de Brito, renomada jurista, escritora e biógrafa.
Para Tia Zélia, o segredo sempre foi a simplicidade. “Não tenho ganância. Tenho amor pelas pessoas, amor de verdade. Acho que é isso que me trouxe até aqui”, resume. E deixa uma promessa para o jornalista Flademir Pereira, que a entrevistou: “Quando você chegar no aeroporto e disser que quer ir ao restaurante da Tia Zélia, todo mundo conhece. E se você for lá, eu faço o ovo que eu faço pro presidente Lula. Tá gravado, é promessa.”
A história de Tia Zélia mostra que a força de vontade pode transformar não só a vida de uma pessoa, mas também marcar a memória de um país. De duas panelas no sertão a um restaurante que recebe autoridades e gente comum, ela prova que o verdadeiro sabor está no afeto e no respeito com que se acolhe cada um à mesa. E talvez seja justamente esse tempero de humanidade que fez da baiana a cozinheira favorita do presidente Lula e uma referência de resistência, simplicidade e amor ao próximo.