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O que o BookTok descobriu que o mercado editorial ainda não aprendeu

Faustino da Rosa Junior / Divulgação
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Faustino Júnior | Nerd de Negócio

por Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Publicado em 31/03/2026, às 11h46

A notícia que parece ser sobre livros, mas não é

Em março de 2026, a NielsenIQ BookData e a Media Control anunciaram o lançamento de um ranking oficial do BookTok no Reino Unido. O índice combina dados verificados de vendas no varejo com métricas de engajamento da comunidade no TikTok, com peso maior para as vendas reais do que para o engajamento. É a formalização institucional de algo que começou como uma hashtag em 2019 e acumula hoje mais de 370 bilhões de visualizações globais.

Na Europa, a comunidade #BookTok respondeu por 50 milhões de exemplares vendidos e €800 milhões em receita em 2025. Nos Estados Unidos, os títulos associados ao movimento chegaram a 59 milhões de cópias vendidas em 2024, cerca de 8% de todo o mercado editorial impresso americano. O número de livrarias independentes no país dobrou em cinco anos.

Esses dados são relevantes. O que eles revelam sobre o funcionamento dos mercados é mais relevante ainda.

A premissa que o setor ainda não assimilou

Mercados se transformam quando a função social de um produto muda. Raramente quando o produto em si melhora.

O livro permaneceu o mesmo nos últimos cinco anos. A narrativa literária não evoluiu de forma a justificar um crescimento tão abrupto de vendas e engajamento. O que mudou foi o papel que o livro passou a cumprir na vida de quem o lê, especialmente entre jovens adultos.

Comprar um livro que viralizou no BookTok é, fundamentalmente, um ato de pertencimento. É a entrada em uma conversa coletiva, a adoção de um vocabulário compartilhado, a afiliação a uma identidade de grupo. O livro físico, com sua capa específica, sua edição com bordas coloridas e seu potencial fotogênico, já chegou à mão do leitor como artefato social, antes mesmo de ser aberto.

Esse deslocamento de função é a variável que explica todo o resto.

O que os dados brasileiros revelam sobre essa contradição

O paradoxo brasileiro torna a tese ainda mais nítida.

A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em novembro de 2024 pelo Instituto Pró-Livro, registrou pela primeira vez na história da série que não-leitores superam leitores no país. Apenas 47% da população se declarou leitora, queda de 5 pontos percentuais em relação a 2019. Em números absolutos, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores em cinco anos.

Ao mesmo tempo, a Câmara Brasileira do Livro registrou crescimento de 35% nos clubes de leitura nas últimas duas décadas. A hashtag #BookTokBrasil acumula mais de 20 bilhões de visualizações. O TikTok distribuiu 100 mil livros gratuitos em uma livraria temporária na Avenida Paulista em dezembro de 2024 e foi patrocinador master da Bienal do Livro de São Paulo em 2025.

Como um país pode ler menos e, simultaneamente, criar mais comunidades em torno da leitura?

Porque essas duas tendências descrevem fenômenos distintos. A leitura como hábito individual está em declínio. A leitura como prática social está em ascensão. O mercado editorial que continuar medindo apenas o primeiro movimento vai sistematicamente subestimar o segundo.

O modelo que o varejo físico já entendeu

A transformação mais visível do BookTok não aconteceu nas telas. Aconteceu nas ruas.

As livrarias independentes filiadas à American Booksellers Association praticamente dobraram nos Estados Unidos entre 2020 e 2025. A Barnes & Noble abriu 57 novas lojas em 2024 e posicionou cada uma delas explicitamente como um "terceiro lugar", espaço comunitário entre a casa e o trabalho. Todas as unidades passaram a ter mesas e seções dedicadas ao #BookTok perto das entradas.

Em Cambridge, Massachusetts, a Lovestruck Books abriu em dezembro de 2024 como livraria dedicada ao romance, com café, bar de vinhos e eventos que funcionam como encontros sociais. A proposta deixou de ser "venha comprar um livro" para ser "venha pertencer a algo".

No Brasil, o Clube Floriterárias, em Recife, opera nessa mesma lógica desde 2016. Um espaço feminino, horizontal e plural onde a leitura é o pretexto e o pertencimento é o produto. A cofundadora Anita Presbítero descreveu com precisão o mecanismo que o BookTok levaria anos para escalar globalmente: quando uma leitora compartilha como um livro atravessou sua vida, isso desperta curiosidade e identificação em outras. A experiência individual vira matéria-prima de uma experiência coletiva.

A conclusão que qualquer mercado de atenção deveria tirar

Quando um produto migra de função individual para função social, as regras de competição mudam inteiramente.

O que estava sendo vendido antes era um bem de consumo. O que está sendo vendido agora é participação em uma comunidade. Comunidades se constroem com linguagem compartilhada, rituais de pertencimento e a sensação de que existe um "nós" do qual vale a pena fazer parte. Campanhas de marketing conseguem acelerar esse processo, mas raramente criá-lo.

A indústria editorial demorou para entender isso. Quando entendeu, ajustou embalagens, criou edições especiais, treinou vendedores para reconhecer títulos virais e abriu espaço nas prateleiras para o que a comunidade já havia decidido que importava. Quem se antecipou ganhou participação de mercado. Quem esperou confirmação nos números chegou tarde.

O BookTok revelou um motivo social para a leitura existir em público, e esse motivo provou ser mais poderoso do que qualquer campanha construída de cima para baixo. Esse modelo de mercado, onde a função social do produto supera sua função utilitária, pertence a muito mais setores do que o editorial.

Faustino da Rosa Junior - Biblioteca Tianjin Binhai


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A presente coluna é presidida por Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br) advogado tributarista, empreendedor digital, investidor imobiliário, escritor best-seller e criador do Método Nerd. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.

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