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O Ciclo de Capital da Inteligência Artificial e o Vetor Fiscal que o Mercado Ainda Não Precificou

Três eventos financeiros aparentemente distintos compõem um mesmo movimento de fundo, e a variável que os conecta raramente aparece nas manchetes.

Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino Júnior | Nerd de Negócio

por Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Publicado em 30/06/2026, às 04h45

Quando analiso os grandes movimentos de capital de 2026, percebo que o mercado fixa o olhar nas manchetes erradas. Valuations bilionários, IPOs recordes e disputas judiciais entre fundadores dominam a conversa. A variável que de fato sustenta esse ciclo está em um dispositivo tributário que quase ninguém menciona. Defendo uma tese direta: inteligência artificial, infraestrutura espacial e política fiscal pertencem à mesma engrenagem, e é essa engrenagem que vai moldar a hierarquia de mercado nos próximos dez anos.

O dispositivo que reescreve o fluxo de caixa

A One Big Beautiful Bill Act, sancionada em julho de 2025, criou a Seção 174A e restaurou em caráter permanente a dedução imediata de despesas domésticas com pesquisa e desenvolvimento para os exercícios iniciados após 31 de dezembro de 2024. O ponto é técnico, mas a consequência é estratégica. Ao encerrar o regime de amortização em cinco anos que penalizava startups de tecnologia desde 2022, a medida permite que companhias intensivas em queima de caixa melhorem de forma substancial seus modelos de fluxo de caixa livre.

Vejo nessa arquitetura tributária o chão sobre o qual o atual ciclo de capital em IA foi erguido. Ela permite direcionar bilhões para capacidade computacional, o que inclui GPUs, energia e a infraestrutura de treinamento necessária para escalar modelos de fronteira, sem disparar obrigações tributárias sobre recursos que ainda estão sendo reinvestidos. É um detalhe de engenharia fiscal, e é também o que viabiliza tudo o que vem depois.

Domínio corporativo e a nova hierarquia de valor

O exemplo mais eloquente desse mecanismo é a própria Anthropic. A companhia teria acertado os termos de uma captação de cerca de 30 bilhões de dólares a um valuation de aproximadamente 900 bilhões, reescrevendo em um único trimestre a hierarquia de valor da IA generativa. Ela conquistou o cobiçado segmento corporativo, incorporando o Claude a fluxos globais de contabilidade, tributação, jurídico e private equity, e teria atingido uma receita anualizada superior a 47 bilhões de dólares. Uma base de receita corporativa dessa natureza costuma ser mais resiliente do que os ciclos de adoção voltados ao consumidor final.

Há um desenho financeiro sofisticado na forma como essas empresas sequenciam liquidez. A Anthropic concluiu uma oferta de recompra para funcionários de até 6 bilhões de dólares no início de 2026, estruturada para abrir no primeiro trimestre. Esse calendário deu aos engenheiros uma janela de vários meses para realizar perdas de capital e compensar ganhos obtidos com a venda de participações concentradas. Concorrentes que escolheram eventos de liquidez no fim do quarto trimestre de 2025 deixaram seus times com pouquíssimo tempo para otimizar a carga tributária. Em um mercado de talentos disputado, o alinhamento entre janelas corporativas de liquidez e o planejamento tributário individual é uma vantagem competitiva concreta.

A fila dos IPOs e a concentração de voto

A despeito do ruído geopolítico, Wall Street se prepara para o que pode se tornar um superciclo histórico de liquidez. A SpaceX mira uma listagem na Nasdaq em meados de junho, buscando até 75 bilhões de dólares a um valuation ao redor de 1,75 trilhão. Com a Starlink entregando receita recorrente de alta margem e o programa Starship V3 avançando rumo a uma economia de lançamentos plenamente reutilizável, enxergo a SpaceX como um ativo de infraestrutura de nível soberano.

O detalhe estrutural que importa para o alocador está na arquitetura das classes de ações. A revisão de trechos de documentos regulatórios feita pela Reuters indica que Musk manteria controle de voto concentrado por meio de ações Classe B com supervoto, cada uma valendo dez votos, enquanto investidores de varejo e institucionais se alinham nas ações Classe A. Essa assimetria de governança sinaliza o grau de alavancagem que fundadores visionários hoje exercem sobre os mercados de capital.

O caminho da OpenAI é mais complexo. Em 31 de março, a companhia fechou uma rodada privada de 122 bilhões de dólares a um valuation pós-money de 852 bilhões, e sua diretora financeira, Sarah Friar, sinalizou que a organização se prepara para operar com a aparência e a conduta de uma empresa de capital aberto. Metas internas apontam para uma possível listagem no quarto trimestre de 2026 ou em 2027, com capitalização de mercado que poderia se aproximar de um trilhão de dólares. Litígios em curso, dúvidas sobre a conversão em corporação de benefício público e o escrutínio da SEC sobre negociações de ações secundárias criam ventos contrários reais. A OpenAI detém a preferência do consumidor. Construir a estrutura corporativa exigida para uma estreia limpa nessa escala demanda mais transparência e estabilidade de governança do que a organização projetou até aqui. O mesmo valeria para qualquer companhia.

Duas gramáticas de poder tecnológico

O embate jurídico recente entre Elon Musk e Sam Altman funciona como termômetro de uma disputa maior sobre governança tecnológica e alocação de capital. Em 18 de maio de 2026, um júri federal rejeitou por unanimidade a ação de Musk contra a OpenAI após menos de duas horas de deliberação, ao entender que suas alegações estavam fora do prazo prescricional. Musk classificou o veredicto como uma tecnicalidade de calendário e prometeu recorrer.

Não acredito que as tensões de fundo estejam sequer perto de resolvidas. Esse confronto deixou nítidos dois modelos rivais de poder tecnológico, e nenhum alocador sério consegue mais tratá-los como detalhe. Microsoft e OpenAI representam a integração institucional, operando dentro do perímetro regulatório tradicional das grandes empresas de tecnologia e navegando estruturas de compras públicas, segurança e governança ao longo de sucessivas administrações.

Musk ergueu uma arquitetura radicalmente distinta: soberania tecnológica controlada pelo fundador, ancorada em estruturas de ações com supervoto e reforçada por um padrão de confronto público com a regulação administrativa. Cada modelo carrega riscos próprios de natureza regulatória, política e de execução. Para o alocador institucional, precificar essas distinções dentro de ambientes abertamente polarizados passou a fazer parte do trabalho.

O que isso exige de quem aloca capital

Assistimos, em tempo real, à instrumentalização simultânea de capital, política e desenho tributário. Para líderes financeiros e alocadores institucionais, ignorar como esses três vetores se conectam tornou-se um risco em si. A leitura correta dessa interdependência é, no meu entendimento, o piso mínimo para operar com segurança na economia da inovação que se forma, seja para mitigar risco, seja para crescer. O ciclo já está em marcha. Resta saber quais estratégias de capital foram desenhadas para enxergá-lo e quais ainda tratam essas peças como eventos isolados.

As informações aqui apresentadas não constituem aconselhamento de investimento, tributário ou financeiro.


Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Faustino Júnior | Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida por Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br) advogado tributarista, empreendedor digital, investidor imobiliário, escritor best-seller e criador do Método Nerd. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.

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