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Brasil Lidera América Latina em Ambiente de Negócios para Startups: entre a escala natural e o desafio regulatório

Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino Júnior | Nerd de Negócio

por Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Publicado em 08/02/2026, às 17h02

Quando o Innovators Business Environment Index 2026 posicionou o Brasil na 42ª colocação global e como líder absoluto da América Latina, minha primeira reação não foi de surpresa. Como fundador da FGMED, a maior startup de educação médica continuada do país, e investidor ativo em mais de 20 startups brasileiras, vivo diariamente a contradição que esse ranking expõe: somos gigantes pela força do mercado, mas ainda lutamos contra amarras que poderiam ser facilmente desfeitas.

O índice da StartupBlink não mede apenas unicórnios ou rodadas bilionárias. Ele avalia o que realmente importa para quem está no front da inovação: quão fácil é abrir uma empresa, operar com previsibilidade e confiar nas regras do jogo. É justamente nesse ponto que nossa liderança regional revela sua fragilidade estrutural.

A Força Bruta do Mercado Brasileiro

Nossa posição de liderança na América Latina não é acidental. Com um ecossistema que abriga mais de 5 mil startups ativas e um mercado consumidor de 214 milhões de habitantes, oferecemos algo que poucos países da região conseguem: escala natural para testar e validar modelos de negócio. Como membro da ABStartups, acompanho de perto essa evolução e percebo que a densidade de capital, volume de empreendedores e diversidade setorial nos colocam em patamar diferenciado frente a países como Colômbia e México.

Na FGMED, formamos mais de 100 mil médicos utilizando tecnologia educacional de ponta. Essa escala só foi possível porque o Brasil permite que você teste, erre e ajuste sem precisar atravessar fronteiras. Mas essa vantagem vem acompanhada de um custo invisível que corrói nossa competitividade: a complexidade regulatória e tributária.

O Paradoxo da Lituânia

Um dos dados que mais me provocou reflexão no ranking foi a posição da Lituânia na 22ª colocação global. Um país com mercado infinitamente menor que o nosso, mas que nos supera em vinte posições por uma razão simples: clareza institucional. Enquanto aqui ainda discutimos se determinada startup deveria ser tributada como serviço ou produto, lá o empreendedor abre sua empresa em minutos através de processos completamente digitalizados.

A diferença não está no tamanho da economia, mas na fricção para fazer negócios. Como advogado tributarista e colunista que acompanha startups em diversos estágios de maturação, vejo empresas brilhantes perderem tempo precioso tentando navegar o que costumo chamar de "manicômio tributário brasileiro". Não é raro encontrar fundadores que gastam mais energia entendendo como tributar um produto híbrido do que refinando sua proposta de valor.

O Custo Real da Burocracia

Os dados do ecossistema brasileiro mostram que 53% das startups conseguem atingir operação ou tração, mas apenas 15% chegam à etapa de escala. Esse vale da morte entre crescer e escalar não é apenas uma questão de capital — é uma questão de ambiente de negócios. Minha carteira de investimentos, que hoje ultrapassa R$ 500 milhões sob gestão, me ensinou que o custo de conformidade no Brasil frequentemente supera o investimento em inovação.

Vejo isso de forma ainda mais aguda nas healthtechs, vertical que representa 9,4% do nosso ecossistema e onde atuo como fundador da First Doctor. A digitalização da saúde avançou consideravelmente, mas a alta carga tributária sobre medicamentos e insumos, somada à judicialização excessiva, cria um ambiente onde inovar é um exercício de resistência heroica, não de eficiência sistêmica.

A Promessa da Reforma Tributária

O ano de 2026 marca o início da transição para o novo sistema tributário brasileiro, com a introdução do IBS e da CBS. Como alguém que dedica parte significativa do meu trabalho a descomplicar o direito tributário — minha trilogia "Direito Tributário Digital" tornou-se o primeiro best-seller jurídico do Brasil a liderar rankings de não ficção — vejo nessa reforma a possibilidade de finalmente fecharmos as portas do nosso "manicômio fiscal".

A instituição de um IVA dual pode ser a pedra angular para que o Brasil combine sua escala natural com a agilidade regulatória que observamos em países menores, mas mais eficientes. Contudo, essa transição exige o que chamo de "visão fiscal de futuro". Empreendedores que não se adaptarem rapidamente às novas obrigações e à transparência ativa de benefícios pagarão um preço alto.

Inteligência Artificial Como Compensação Estrutural

Outro dado que merece destaque é que 29% das startups brasileiras já utilizam inteligência artificial em aplicações sofisticadas. Acredito que a IA pode ser a ferramenta que compensa nossas ineficiências logísticas e burocráticas. No agronegócio, na saúde, na educação — setores onde tenho atuação direta — a IA aplicada ao mundo real pode transformar gargalos em vantagens competitivas.

Mas para que essa promessa se concretize, precisamos de infraestrutura. Não apenas de conectividade, que ainda engatinha na universalização do 5G, mas de um Estado que funcione como plataforma facilitadora, não como obstáculo regulatório.

O Imperativo da Agilidade Regulatória

Minha defesa como investidor e empreendedor não passa por pedidos de incentivos fiscais setoriais ou protecionismo de mercado. O que o ecossistema brasileiro precisa é de agilidade regulatória. Precisamos reduzir o atrito básico de empreender para níveis próximos aos de países que lideram o ranking não pelo tamanho de suas economias, mas pela inteligência de suas instituições.

Quando combinamos um mercado de 214 milhões de consumidores com a resiliência demonstrada pelo empreendedor brasileiro, que já provou saber crescer na adversidade, o potencial é exponencial. O problema é que continuamos competindo com um pé no acelerador da inovação e outro no freio da burocracia.

Conclusão: Gigante Limitado ou Potência Desbloqueada?

Liderar a América Latina no Innovators Business Environment Index 2026 é importante, mas insuficiente. Ocupar a 42ª posição global quando temos a escala natural para estar entre os 20 melhores é um desperdício de potencial que não podemos mais aceitar.

Como fundador da maior startup de educação médica continuada do Brasil e investidor em dezenas de empresas inovadoras, minha perspectiva para 2026 é clara: ou abraçamos a simplificação regulatória e a clareza institucional, ou continuaremos sendo uma promessa que nunca se cumpre inteiramente. O ecossistema brasileiro já demonstrou sua capacidade de inovar sob pressão. Imagine o que faremos quando tivermos, finalmente, o vento institucional a nosso favor.

A escolha não é entre crescer ou estagnar. É entre sermos um gigante limitado por suas próprias amarras ou nos tornarmos a potência tecnológica que nossa escala natural permite. E essa decisão está sendo tomada agora, em 2026, no início da maior transformação tributária e digital da nossa história recente.


Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Faustino Júnior | Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida por Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br) advogado tributarista, empreendedor digital, investidor imobiliário, escritor best-seller e criador do Método Nerd. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.

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