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Atenção: o ativo executivo que nenhuma empresa coloca no orçamento

Capital pode ser captado e recuperado, mas as horas de atenção qualificada de um líder são fixas, e a nova NR-1 transformou o desenho da carga de trabalho em obrigação de gestão

Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino Júnior | Nerd de Negócio

por Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Publicado em 30/09/2026, às 18h32

Todo executivo com quem trabalho sabe dizer o próprio orçamento de cor. A maioria informa quadro de pessoal, carteira de negócios e metas trimestrais sem abrir um documento. Quase nenhum consegue dizer para onde foi a própria atenção na semana passada. Essa assimetria está entre os pontos cegos mais caros da liderança contemporânea.

As organizações tratam capital como finito e atenção como infinita, quando a realidade se aproxima do contrário. Capital pode ser captado, emprestado ou recuperado num trimestre seguinte. As horas de atenção executiva de alta qualidade disponíveis numa semana são fixas e, uma vez gastas no problema errado, não admitem refinanciamento. Nos processos de coaching, vejo líderes brilhantes operando sistemas sofisticados para gerir dinheiro e nenhum sistema para o recurso que determina o bom uso de todos os outros.

O tamanho do vazamento

Os dados sobre o destino da atenção executiva são desconfortáveis. Um levantamento da Microsoft baseado em dados de uso de suas ferramentas de trabalho constatou que profissionais do conhecimento são interrompidos a cada dois minutos durante o horário principal de expediente, somando cerca de 275 interrupções por dia entre reuniões, e-mails e mensagens. Pesquisa publicada na Harvard Business Review mostrou que o tempo dedicado a atividades colaborativas cresceu 50% ou mais em duas décadas e ocupa cerca de 80% do dia de muitos profissionais. Quando a McKinsey ouviu quase 1.500 executivos sobre o uso do próprio tempo, apenas 9% se declararam muito satisfeitos, e só cerca de metade disse que sua agenda refletia as prioridades estratégicas da organização.

O ambiente brasileiro agrava o quadro. Segundo a Bain & Company, o brasileiro passa mais de nove horas por dia conectado, uma das maiores médias do mundo. A cultura da resposta imediata por aplicativo de mensagens, tão presente nas empresas daqui, transforma cada notificação numa convocação.

Esses números descrevem o resultado previsível de organizações que orçam tudo, exceto a atenção. A falha individual explica pouco.

O imposto invisível da troca de tarefa

O custo mais profundo nunca aparece na agenda. Pesquisas da Universidade da Califórnia em Irvine indicam que a retomada do foco pleno após uma interrupção leva, em média, 23 minutos. Estudos sobre resíduo de atenção mostram que parte da mente continua presa à tarefa inacabada mesmo depois da troca, prejudicando o desempenho na atividade seguinte. A Associação Americana de Psicologia registra que os pequenos bloqueios mentais provocados pela alternância entre tarefas podem consumir até 40% do tempo produtivo.

Lidas em conjunto, as pesquisas descrevem um dia de trabalho que nenhum executivo aprovaria se viesse em forma de orçamento: dezenas de trocas de contexto, cada uma cobrando seu imposto, e o imposto se acumulando em silêncio ao longo da semana. O líder acredita ter trabalhado dez horas. A arquitetura dessas horas entregou três.

Atenção como questão de estrutura

A maioria dos líderes interpreta a própria dispersão como falta de disciplina, e boa parte das conversas de coaching sobre foco começa com culpa. Considero esse diagnóstico equivocado. Um executivo cujo celular entrega interrupções a cada poucos minutos, cuja agenda se enche por padrão com as prioridades dos outros e cuja cultura premia a resposta instantânea está sendo bem-sucedido dentro de uma estrutura projetada para fragmentá-lo. A atenção é uma condição operacional produzida pela estrutura, e estruturas podem ser redesenhadas. A mudança de enquadramento importa porque a culpa produz promessas de ano-novo e o desenho produz resultado.

O raciocínio ganhou respaldo normativo. Desde 26 de maio de 2026, a fiscalização da nova NR-1 exige que as empresas incluam fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, entre eles a compatibilidade entre carga de trabalho, recursos e tempo disponível. Aquilo que era boa prática de liderança passou a integrar o dever jurídico do empregador.

A auditoria de atenção

Quando um executivo me diz que não tem tempo para pensar, meu primeiro passo é uma auditoria. Peço que registre, durante uma semana, para onde a atenção realmente foi: cada reunião, cada interrupção, cada bloco de trabalho ininterrupto com mais de 45 minutos. Em seguida, comparamos o registro com as três prioridades que, segundo ele, definirão o seu ano. A distância costuma ser dramática, e enxergá-la no papel muda a conversa mais depressa do que qualquer modelo teórico.

O passo seguinte é examinar os padrões automáticos, porque é neles que a atenção morre em silêncio. Quais reuniões existem apenas por hábito? Quais notificações merecem o direito de interromper o trabalho profundo? Quais decisões pedem uma janela protegida no lugar de uma resposta reativa? O objetivo é uma agenda que reflita a estratégia. A agenda funciona como sintoma do sistema que a produz.

Foco também é sinal de liderança

A relação de um executivo com a atenção nunca fica restrita a ele. O líder que responde mensagens à meia-noite ensina à equipe que a fragmentação é a norma. O líder que protege tempo para pensar, de forma aberta e sem pedir desculpas, autoriza todos abaixo dele a fazer o mesmo.

Esse efeito de exemplo ganha peso à medida que a IA absorve a camada rotineira do trabalho. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta pensamento analítico, pensamento criativo e autoconsciência entre as competências que mais ganham valor. Todas dependem de atenção sustentada. As máquinas já executam muito bem o trabalho fragmentado, e a contribuição humana que resta é justamente o tipo de pensamento que a fragmentação destrói.

O executivo que governa a própria atenção

Nos processos de coaching, os executivos que mudam de trajetória tratam a atenção como o ativo mais escasso e a governam como tal: auditada como orçamento, alocada como capital e protegida como posição estratégica. A prática é pouco glamorosa. Exige uma disciplina semanal de subtração, revisão de padrões e blocos protegidos, mantida muito depois que o entusiasmo inicial se esgota. A recompensa é uma vantagem que se acumula ao longo de uma carreira inteira. A agenda existe para proteger a atenção, e todo o resto deveria se organizar em torno dela.


Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Faustino Júnior | Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida por Faustino da Rosa Júnior (@faustinojunior.adv.br) advogado tributarista, empreendedor digital, investidor imobiliário, escritor best-seller e criador do Método Nerd. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.

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