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A Depreciação do Dólar e a Aritmética do Imóvel: uma janela que raramente se abre assim

A combinação de moeda depreciada e autossuficiência energética não é garantia de retorno, mas configura uma equação estrutural que o investidor transfronteiriço não pode ignorar, nem superestimar.

Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino da Rosa Junior / Divulgação
Faustino Júnior | Nerd de Negócio

por Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Publicado em 06/04/2026, às 18h36

Há um paradoxo operando silenciosamente nos mercados globais neste momento: o mesmo período em que o mundo enfrenta um dos choques de petróleo mais severos dos últimos anos é aquele em que ativos americanos se tornaram mais acessíveis ao capital estrangeiro. Essa não é uma coincidência — é o resultado de duas forças estruturais que raramente se alinham com essa clareza.

O mecanismo da queda e o debate que ela provoca

Desde janeiro de 2025, o dólar acumulou uma desvalorização de cerca de 10% frente a uma cesta de moedas relevantes, atingindo mínimas de quatro anos. No ciclo anterior, a divisa americana registrou o recuo mais expressivo em mais de meio século. Parte dos analistas atribui esse movimento a expectativas fiscais, diferenciais de taxa de juros e reposicionamento de apetite por risco. Outra leitura, articulada com mais precisão pelo presidente do Conselho de Assessores Econômicos, Stephen Miran, e associada a debates de política econômica em curso, sugere que um dólar mais fraco pode ser menos efeito colateral do que resultado tolerado da combinação de políticas vigente: uma moeda depreciada torna as exportações americanas mais competitivas, sustenta a manufatura doméstica e pressiona os déficits comerciais crônicos que marcam décadas de comércio exterior dos EUA.

Ambas as interpretações merecem peso analítico equivalente. Os investidores que descartarem qualquer uma delas estão tomando um risco de leitura que vai além do risco de mercado.

Energia como colchão estrutural

O conflito no Irã empurrou o petróleo Brent para além de US$ 90 o barril. O Estreito de Ormuz, corredor por onde transita aproximadamente um quarto do comércio marítimo de petróleo mundial, opera sob perturbação severa. Em qualquer momento anterior da história econômica americana recente, esse cenário representaria uma exposição sistêmica direta.

A situação atual é diferente. Os Estados Unidos produzem mais de 13,6 milhões de barris de petróleo bruto por dia em 2025 e consolidaram sua posição de exportador líquido de energia já em 2020. Essa realidade altera o cálculo de risco associado a uma moeda mais fraca. Economias dependentes de energia importada e sensíveis à variação cambial carregam dupla exposição; a economia americana, pelo menos neste ciclo, não compartilha nenhuma das duas de forma estrutural. Para alocadores de mercados emergentes que já convivem com desvalorização de suas próprias moedas e com pressão nos custos energéticos, ativos reais denominados em dólares passam a ter uma racionalidade de alocação crescente.

Dito isso, o dólar fraco não é uma notícia irrestritamente positiva. Inflação de insumos importados, instabilidade em mercados de capitais e complexidade de alocação para investidores que dependem da previsibilidade cambial são riscos que persistem independentemente da narrativa adotada.

O que a aritmética cambial faz com os imóveis

Quando o dólar recua, a conversão de moedas estrangeiras rende mais em metros quadrados americanos. Um investidor brasileiro convertendo reais hoje captura, de forma concreta e mensurável, mais propriedade do que capturaria dezoito meses atrás. Esse movimento já se reflete em dados de mercado: a Associação Nacional de Corretores de Imóveis registrou a ascensão dos compradores britânicos ao grupo dos cinco maiores compradores estrangeiros nos EUA pelo mesmo mecanismo, o ganho de poder de compra proporcionado pelo câmbio.

O argumento estrutural, porém, não se sustenta apenas pela arbitragem cambial. A legislação americana recente restaurou a depreciação acelerada de 100% (bonus depreciation) e manteve a dedução da Seção 199A sobre rendimentos qualificados de negócios. Acrescentam-se a esse quadro ativos que sofreram reprecificação de 20% a 25% ao longo dos últimos três anos e estão encontrando novos compradores. Para investidores transfronteiriços que estruturem suas operações com rigor, navegando pelas retenções do FIRPTA, os requisitos de blocker corporation e as posições aplicáveis em tratados tributários, os retornos líquidos podem ser sensivelmente superiores ao que a análise de superfície indicaria.

Riscos que merecem nome específico

Este não é um posicionamento sem atrito. Um dólar depreciado combinado à inflação de custos induzida por tarifas eleva o custo de reposição de materiais de construção e pressiona taxas de capitalização quando o crescimento de renda não acompanha o ritmo. Uma queda prolongada do dólar também arrisca corroer a confiança estrangeira nos Treasuries americanos, o que pode empurrar taxas de longo prazo para cima e comprimir avaliações em setores imobiliários sensíveis a juros. A volatilidade cambial em si gera um custo de hedge que pode silenciosamente neutralizar a vantagem de entrada que o comprador estrangeiro acredita estar capturando.

O cenário iraniano introduz uma incógnita com peso próprio: se os preços do petróleo permanecerem elevados por meses, e não semanas, a inflação ao consumidor pode se reacender, limitando o espaço do Federal Reserve para reduzir juros. O ex-presidente do Fed de Dallas, Robert Kaplan, já sinalizou que a estabilidade cambial pode ter mais valor do que a competitividade exportadora quando se administra uma dívida nacional de quase US$ 39 trilhões. Qualquer mudança no ambiente de política, uma nova administração, uma inflexão do Fed ou uma estabilização do dólar, pode reverter rapidamente as condições que hoje tornam a entrada atraente.

Investidores sofisticados devem modelar os dois cenários: estabilização do dólar e continuidade da queda. A exposição assimétrica que o ambiente atual parece oferecer depende de qual desses caminhos se materializa.

Onde a demanda estrutural ancora a tese setorial

Os setores onde o reshoring e a política comercial criam demanda com visibilidade de prazo mais longo oferecem as teses mais robustas: galpões logísticos e espaços industriais modernos nos corredores do Sudeste e do Centro do país, instalações de manufatura preparadas para automação e imóveis com exposição a gastos de infraestrutura sustentados por política pública. A habitação multifamiliar permanece um pilar central de alocação.

Uma limitação que merece atenção específica é a infraestrutura elétrica. A demanda por data centers impulsionada por inteligência artificial e por plantas industriais automatizadas transformou a disponibilidade de energia em critério decisivo para a seleção de ativos, sobrepondo-se em muitos casos a outros fatores tradicionais de localização.

Uma convergência que não é permanente

O ambiente atual combina variáveis que são incomuns individualmente e notáveis em conjunto: aparente tolerância da política econômica a um dólar mais fraco, autossuficiência energética que isola parcialmente os EUA das consequências do conflito no Oriente Médio, tratamento fiscal favorável para imóveis comerciais e compressão de diferenciais de rendimento nos mercados emergentes, que empurra capital para fora dessas economias.

A Morgan Stanley Research projeta que o dólar pode recuar mais 10% até o fim de 2026. Se esse cenário se confirmar, os investidores que posicionaram capital durante o processo de reprecificação, e não depois da confirmação, podem ter capturado um patamar de entrada que não se repetirá por anos.

Seja esse movimento resultado de tolerância política deliberada ou de um ajuste macroeconômico transitório, a implicação prática para o investidor estrangeiro é a mesma: os ativos reais americanos podem estar se reprecificando de formas que exigem análise séria. Essa análise deve ser conduzida por fundamentos, estrutura tributária e risco cambial — não por entusiasmo político nem por FOMO de mercado.


Faustino Júnior | Nerd de Negócio

Faustino Júnior | Nerd de Negócio

A presente coluna é presidida por Faustino Júnior (@faustinojunior.adv.br) advogado tributarista, empreendedor digital, investidor imobiliário, escritor best-seller e criador do Método Nerd. São abordados temas atuais relacionados ao mundo dos negócios, da tecnologia, do direito, da medicina, de investimentos, de inovação, de entretenimento, de cultura pop, de economia, de política e de personalidades, sempre sob um olhar nerdístico.

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