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Filha de Bussunda revela: "Quando meu pai morreu, eu fiquei míope"

Júlia Besserman é diretora de um dos episódios da série sobre o pai

Júlia Besserman, filha de Bussunda
Júlia Besserman, filha de Bussunda - Foto: Reprodução / O Globo / Lucas Seixas

Redação Publicado em 15/06/2021, às 09h44

Estreia na próxima quinta-feira (17/06) o documentário Meu Amigo Bussunda, na Globoplay, que fala sobre a vida do humorista do Casseta & Planeta. A filha do comediante, Júlia Besserman, dirige um dos episódios, e fala sobre as memórias que tem do pai em entrevista ao O Globo.

Lembra o que passou pela cabeça ao receber a notícia da morte do seu pai?

Me perguntei: “Por quê? Por que com a gente?”. Achei uma injustiça enorme. A sensação foi de um balde de água fria, que gela da cabeça aos pés. Imediatamente, comecei a chorar.

Na série, você conta que teve um problema na visão logo após a partida dele. Acha que teve a ver com a perda?

Quando meu pai morreu, eu fiquei míope. Meu avô era, tem genética aí. Tive convergência nos olhos antes, e o médico disse que eu, provavelmente, ia ser míope. Mas foi coisa de quatro meses depois da morte, acho que ela acelerou o processo.

Fez terapia?

No início, não quis fazer. Tive a sensação de que tinha que passar por cima dos meus sentimentos. Fiquei de luto por um mês, e voltei à escola na época das provas. Botei na minha cabeça que tinha sido suficiente. Aí, cheguei na faculdade muito mal. Claramente, não lidei com nada. Há dez anos faço terapia.

Que sentimentos teve que elaborar?

A revolta e um sentimento infundado de culpa. Pensava: “Se tivesse ligado no dia, talvez ele tivesse ido ao médico” ou “Se estivesse perto, não teria acontecido”. Essas fantasias que a gente cria.

No que a série ajudou?

Me forçou a revisitar a relação que tinha com ele e com o trabalho dele. Essa coisa da praia e da miopia eu também não tinha juntado até o documentário. Ele era meu parceiro de praia e, depois que morreu, fiquei míope e não fui muito mais à praia. Não vou sozinha, preciso ter alguém para saber se está seguro, porque mal enxergo as ondas. Ver o legado que deixou e a escola com o nome dele (um colégio municipal em Rio das Pedras) também foi bom.

A série mostra você diante do mar. Superou o trauma?

Superei um pouco. Nesse dia de gravação, consegui entrar na água com a prancha dele e senti como se fosse um fechamento. Ela nunca tinha ido para a água. Teve uma única vez em que ele tentou levá-la e brincou que ela tinha ficado com medo e não quis entrar... Mas, dessa vez, eu entrei ( ela se emociona).

No documentário, você questiona piadas de Bussunda com mulheres e outros assuntos que, dificilmente, passariam pelo crivo de 2021. E procura a nova geração do humor para entendê-lo melhor. Conseguiu?

O saldo foi positivo. Eu fiquei um tempão sem revisitar o humor do meu pai, e, quando revisitei, nos tempos atuais, vi piadas que falei “Nossa”. Fiquei nessa dúvida se elas significavam algo maior sobre o que ele pensava. As conversas ajudaram, principalmente com a Noemia Oliveira (humorista entrevistada no doc), que fala sobre a relação com um pai que também errou.

Alguns humoristas criticam o politicamente correto. Onde seu pai estaria nessa discussão?

Tento não adivinhar para não ficar numa espiral de sempre pensar no que ele estaria achando sobre o que eu estou fazendo. Ele era uma pessoa que ouvia críticas e mudava de posição sem sofrimento, penso que aceitaria as mudanças. O máximo que falaria é que era outra época, havia outras regras no humor. O que ele gostava era fazer as pessoas rirem. Se soubesse que tinha magoado alguém, dificilmente defenderia a piada.

Como homem daquela geração, acha que ele estaria fazendo autocrítica do machismo?

Gostaria de acreditar que sim. Minha avó, a mãe dele, era muito feminista, minha mãe também. Difícil seria não fazer.

Se tivesse oportunidade de reencontrá-lo, o que lhe diria hoje?

Cheguei a um ponto do luto em que nem sinto mais pena por mim, mas pelo que ele não pôde presenciar. Minhas formaturas, eu virar professora... Ele não viu os filmes da Marvel, adorava quadrinhos. Ia adorar Tik Tok, se amarraria em rede social por vídeo. A questão do humor eu não ia questionar, seria o último assunto que puxaria, não ia gastar o encontro com isso. Seria mais colocar o papo em dia sobre o mundo mesmo.

O que teria dito se soubesse que ele partiria tão cedo?

Aquele clichê sobre o quanto eu o amava. Queria que soubesse que foi um puta pai mesmo pelo tempo curto, que isso eu não por trocaria por nada.

Fisicamente você é parecida com ele. O que mais têm em comum? E de mais diferente?

Minha cara é do meu pai, mas meu superpoder não é minha barriga (risos). Meu humor é parecido com o dele, a timidez. Se me mandam mensagem de trabalho sábado, fico irritadíssima, como ele ficava. O apetite é diferente. Ele comia de tudo, eu sou chata para comer.

Depois do seu nascimento, ele, ateu convicto, passou a pedir para “alguém” que tudo desse certo. Como se sente ao ter despertado isso nele? Acredita que há algo além, que a morte precoce dele tem um significado?

É emocionante saber que só a nossa existência tocou alguém assim. Sou agnóstica, não sei se tem ou não. Tento ser positiva. Se tem algum significado a morte dele foi aproximar a mim e minha mãe ainda mais. A gente virou uma unidade. Tenho amigas e fãs do meu pai que dizem que sonharam com ele e acreditam que está precisando de algo. Eu já pedi a ele que, se estiver, venha aqui escrever com sangue na parede (risos). Mas acho que minha mãe ameaçou que, se ele escrever algo na parede, vai ter que limpar. Então, ele não quis (risos).

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