Da infância em Porto Alegre ao reconhecimento global como um dos maiores jogadores da história, a produção refaz a trajetória de Ronaldinho Gaúcho com depoimentos exclusivos de lendas como Messi, Neymar, Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, Carles Puyol e Cafu

Redação Publicado em 18/05/2026, às 12h14
A minissérie documental Ronaldinho: The One and Only (Ronaldinho: O Único e Exclusivo) registrou 4,7 milhões de visualizações em sua primeira semana de exibição na plataforma Netflix. A obra alcançou o segundo lugar entre as produções de língua não-inglesa mais assistidas globalmente, liderando o ranking em 15 países. O interesse do público se concentra na reconstrução da carreira de Ronaldo de Assis Moreira, com ênfase no episódio de sua prisão no Paraguai em 2020.
O engajamento em torno da produção reflete a curiosidade de diversos perfis de público, incluindo analistas e apostadores de futebol que acompanham a trajetória de ídolos históricos para compreender o impacto de eventos extracampo na imagem de grandes atletas. A série utiliza um vasto material de arquivo para conectar a infância em Porto Alegre ao sucesso internacional na Europa e na Seleção Brasileira.
A narrativa, estruturada de forma linear em três episódios, aborda desde a revelação no Grêmio até a consagração com o prêmio Ballon d’Or (Bola de Ouro, concedida pela revista France Football ao melhor jogador do mundo). O diretor Luis Ara teve acesso exclusivo ao ex-jogador durante um ano de gravações. Segundo Ara, a postura de Ronaldinho nos bastidores contrasta com a imagem pública: "Todo mundo conhece um Ronaldinho muito extrovertido, mas, na intimidade, é um cara super tímido, reservado e com valores familiares importantes".
O vigor do mercado de apostas e entretenimento no país, exemplificado por empresas como a Stake Brasil, evidencia a demanda por figuras que dominam o imaginário popular. O documentário mostra que, para além dos gramados, a “Marca Ronaldinho” permanece como um ativo de interesse para esse ecossistema, independentemente das crises que marcaram sua trajetória pessoal nos últimos anos.
O interesse por informações sobre por que Ronaldinho Gaúcho foi preso impulsionou o volume de buscas relacionadas à produção. O episódio ocorrido em março de 2020, quando o atleta e seu irmão ingressaram no Paraguai com passaportes adulterados, é apresentado como um ponto marcante na biografia do ídolo. A série reconstrói os 171 dias de detenção, divididos entre o regime fechado e a prisão domiciliar em um hotel de luxo em Assunção.
A detenção na Agrupación Especializada, em Assunção, é descrita como o capítulo mais sombrio e, paradoxalmente, lúdico da vida do ex-jogador. Ronaldinho permaneceu 32 dias em regime fechado após uma tentativa mal-sucedida de entrar no Paraguai com passaportes adulterados, no que foi considerado o "rolê aleatório" mais grave de sua trajetória. Embora o documentário da Netflix trate o episódio com certa superficialidade, os registros da época detalham que a prisão de segurança máxima abrigava detentos perigosos, mas a presença do craque transformou a rotina da unidade. Sob o olhar de guardas e oficiais que registravam tudo com câmeras, o ídolo participou de partidas de futsal, mantendo a serenidade e utilizando seu talento com a bola para criar um ambiente de entretenimento em meio ao confinamento.
Relatos do documentário indicam que o atleta manteve a cordialidade com os detentos, chegando a participar de um torneio interno de futebol, no qual o prêmio foi um "suckling pig" (leitão de 16 quilos). Ronaldinho declarou em entrevistas para a série: "Achei que iriam me bater e fazer todas as coisas terríveis que costumam acontecer na prisão, mas, em vez disso, chamaram os guardas para organizar partidas de futebol e pediram para eu fazer alguns dribles para entretê-los. Posso dizer que meu tempo lá foi bom".
O desfecho jurídico ocorreu em agosto de 2020, após quase seis meses de detenção (incluindo o período de prisão domiciliar em um hotel de luxo), mediante o pagamento de uma multa de 200 mil dólares, cerca de 1,1 milhão de reais na cotação da época. O processo foi suspenso após um acordo com a Justiça paraguaia, que entendeu não haver outros crimes atrelados à conduta da dupla, permitindo que Ronaldinho e seu irmão, Roberto de Assis, retornassem ao Brasil.
A estrutura da série foi dividida em três capítulos. O primeiro foca na gênese do talento, com vídeos domésticos de Ronaldinho ainda criança demonstrando habilidades incomuns. O segundo explora o estrelato global e a "festa" constante que cercava sua vida em Barcelona e Milão. Depoimentos de Lionel Messi e Neymar Jr. reforçam a influência técnica de Ronaldinho para as gerações seguintes.
O terceiro episódio é dedicado ao declínio físico, à aposentadoria oficial em 2018 e às subsequentes crises de imagem. A produção utiliza uma "aspect ratio" (proporção de tela) reduzida em clipes antigos para capturar a estética dos anos 1990 e 2000, conferindo um tom nostálgico que contrasta com as imagens em alta definição dos depoimentos atuais de autoridades do esporte como Galvão Bueno e Felipão.
O carisma de Ronaldinho Gaúcho transcende os gramados. Recentemente, sua participação na versão turca do reality show No Limite viralizou nas redes sociais. No programa, o ex-jogador não apenas interagiu com os competidores, mas também demonstrou sua habilidade eterna ao marcar um golaço de bicicleta em uma partida de futebol de areia.
Essa é apenas uma das muitas facetas do "Bruxo". Em sua vasta lista de experiências peculiares, Ronaldinho já se aventurou na China para aprender a arte de confeccionar charutos e marcou presença na Paris Fashion Week 2024, desfilando para a marca KidSuper com um casaco de pele e uma camiseta estampada com seu próprio rosto. Sua versatilidade também o levou às telas de cinema, onde atuou no longa Kickboxer: A Retaliação ao lado de nomes como Jean-Claude Van Damme e Mike Tyson.
Eventos globais de grande porte frequentemente contam com suas aparições inesperadas. Na cerimônia de encerramento da Copa do Mundo de 2018, na Rússia, ele surpreendeu o público ao aparecer tocando percussão. Além disso, Ronaldinho já visitou uma fábrica de suplementos usando óculos escuros por cima dos equipamentos de proteção obrigatórios e, em uma viagem à Bolívia pela Libertadores, foi homenageado com presentes tradicionais, incluindo um poncho e um barco artesanal.
A música também faz parte de seu repertório de momentos inusitados, destacando-se a parceria com Wesley Safadão no sucesso "Solteiro de Novo". Em outra ocasião memorável nos Emirados Árabes Unidos, ele se disfarçou de segurança no reality show The Victorious para surpreender jovens talentos, o que posteriormente lhe rendeu um convite para participar de um simpósio internacional sobre práticas policiais.
Seja incorporando um cavaleiro Jedi em campanhas temáticas ou registrando o momento de sua vacinação contra a Covid-19 em Dubai, o craque continua a colecionar histórias em lugares improváveis.
Apesar da profundidade da série, críticos de TV apontam que certos temas foram tratados de forma superficial. A passagem do jogador pelo Querétaro, no México, é um dos momentos que não foram explorados. Segundo o diretor Luis Ara, essa foi uma decisão estratégica baseada na força narrativa de outros períodos. O cineasta explicou que a história esportiva do craque atingiu um "clímax" natural com seu retorno ao Brasil, passando pelos conflitos com o Grêmio e o Flamengo até a consagração na Copa Libertadores com o Atlético Mineiro. Em contraste, a fase no Querétaro (assim como no Fluminense) foi marcada por um volume de jogo muito baixo por parte do atleta. Para a produção, foi priorizado o fechamento do arco esportivo nesse auge competitivo, abrindo espaço para abordar acontecimentos mais recentes e impactantes dos anos 2020, como o episódio de sua prisão no Paraguai.
O envolvimento do atleta com investimentos em criptomoedas e NFTs (tokens não-fungíveis, ativos digitais que representam propriedade de itens únicos) gerou controvérsias ainda não plenamente exploradas. Projetos como a Ronaldinho Coin (STAR10) e a Atari Token tiveram desvalorizações acentuadas, superiores a 80%, resultando em prejuízos para investidores que seguiram as recomendações do ídolo.
A fortuna Ronaldinho Gaúcho, estimada em dezenas de milhões de dólares, também enfrentou bloqueios judiciais. Em 2018, as autoridades brasileiras apreenderam 57 imóveis e os passaportes dos irmãos Assis devido ao não pagamento de uma multa ambiental de 2 milhões de libras (aproximadamente 14 milhões de reais) pela construção de um trapiche irregular em Porto Alegre. Esses dados financeiros, embora públicos, ocupam pouco espaço na narrativa mais voltada ao entretenimento.
Além das questões financeiras e jurídicas, uma ausência notada por entusiastas da cultura digital foi a falta de um olhar sobre o impacto cultural de seus comerciais icônicos, especificamente o lendário vídeo de 2005 para a Nike. Na peça publicitária que lançava a nova chuteira Tiempo, Ronaldinho calça o modelo e, com uma precisão sobrenatural, chuta a bola contra o travessão quatro vezes consecutivas sem que ela toque o chão. Esse conteúdo é amplamente reconhecido como o primeiro "viral" da história da internet, tendo sido o primeiro vídeo a alcançar a marca de um milhão de visualizações na plataforma YouTube, um feito que alterou permanentemente a forma como marcas e atletas interagem com o público no ambiente digital.
A série perdeu a oportunidade de explorar o mistério lúdico que envolve essa gravação há duas décadas: a eterna dúvida sobre o que era real e o que era edição. Embora o diretor de arte do comercial, Stevie Laux, e outros envolvidos na produção mantenham um pacto de silêncio parcial, relatos de bastidores sugerem que, se por um lado houve edição para a sequência perfeita, por outro, o craque de fato acertou o travessão diversas vezes de forma isolada e em duplas. Ao não dedicar um espaço para dissecar esse episódio, a série teria perdido a oportunidade de explorar esse folclore moderno da era digital, a do "Bruxo" capaz de realizar o impossível.
Independentemente das escolhas autorais da série, a trajetória de Ronaldinho Gaúcho é uma crônica sobre perfeição técnica e complexidade humana. Profissionalmente, ele atingiu um patamar de domínio que poucos na história do esporte experimentaram. Seu auge no Barcelona (2003-2008) não foi apenas sobre títulos, como a Champions League de 2006 ou os dois prêmios de Melhor Jogador do Mundo da FIFA; foi sobre devolver o sorriso ao futebol mundial. Ele é um dos raros membros do "clube da tríplice coroa", tendo vencido a Copa do Mundo, a Champions League e a Copa Libertadores, esta última em uma ressurreição épica com o Atlético Mineiro em 2013, onde provou que sua magia era capaz de transformar clubes historicamente sofridos em campeões continentais.
Na Seleção Brasileira, Ronaldinho foi peça fundamental da campanha perfeita de 2002, integrando o lendário "Tridente dos Erres" ao lado de Ronaldo e Rivaldo. Naquele mundial, o Brasil estabeleceu um recorde que hoje, com a mudança para 48 seleções em 2026, torna-se virtualmente irrepetível: sete vitórias em sete jogos. Seu gol de falta contra a Inglaterra e a assistência magistral no esquema tático de Luiz Felipe Scolari o imortalizaram como o arquiteto da última grande glória canarinho.
Pessoalmente, a vida de Ronaldinho é indissociável da figura de seu irmão, Roberto de Assis Moreira, que assumiu o papel de agente e figura paterna após a morte precoce do pai. Essa relação de lealdade extrema é, muitas vezes, apontada como a razão de seus maiores triunfos e de seus piores reveses jurídicos. A dimensão familiar ganhou contornos emocionais profundos com o falecimento da mãe, Dona Miguelina, em 2021, evento que o próprio atleta descreve como o golpe mais duro de sua vida, superando qualquer derrota em campo.
Hoje, o legado de Ronaldinho se ramifica através de seu filho, João Mendes. Atualmente jogando no Hull City, na Inglaterra, João representa a continuidade da linhagem nos gramados, mantendo uma relação de amizade próxima com o pai, que já celebra inclusive o papel de avô. Entre o brilho eterno da Bola de Ouro e as sombras dos processos judiciais, Ronaldinho Gaúcho permanece como o "Único e Exclusivo": um homem que, apesar de ter conhecido as celas frias do Paraguai, nunca permitiu que o mundo esquecesse o seu sorriso com a bola nos pés.
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