
por Eduardo Graboski
Publicado em 24/04/2026, às 16h01
O retorno do Viva a Noite à grade do SBT não chama atenção só pela nostalgia, pelo nome forte ou pelo resgate de um formato clássico. Chama atenção porque escancara uma coisa que a televisão foi perdendo pelo caminho: alma. E, nesse caso, essa alma atende por Luís Ricardo.
Ele não entra em cena com cara de quem está apenas cumprindo escala. Entra como quem gosta daquilo de verdade. E isso muda tudo. Porque ele não é só um apresentador. Ele é animador de TV. E isso, hoje, virou artigo raro.
Numa época em que muita gente aparece tentando performar espontaneidade, Luís Ricardo simplesmente é. Tem ritmo, calor, carisma, graça e aquela vibração de quem empurra o programa para frente de forma natural, genuína.
Talvez por isso o Viva a Noite faça tanto sentido só com ele. O programa pede astral, jogo de cintura, alegria sem cinismo, comunicação popular de verdade. Não aquela versão plastificada, treinada e excessivamente consciente de si mesma que tomou conta de boa parte da TV.
Luís Ricardo tem algo que não se fabrica: DNA de auditório. Ele vem dessa televisão que entendia que sábado à noite precisava ter energia, sorriso, surpresa, bagunça organizada e sensação de festa.
E aí está o pulo do gato: o Viva a Noite não funciona só porque é um nome conhecido voltando do passado. Funciona porque encontrou alguém que combina genuinamente com sua proposta. Luís Ricardo não parece deslocado dentro do formato. Ao contrário. Parece que o programa foi guardado numa gaveta esperando a hora certa de voltar para as mãos de alguém que entendesse sua vibração. E ele entende.

Mas não é só isso. O programa também acerta porque existe direção. Existe produção. Existe costura. É nítido que houve estudo de acervo, preocupação em preservar identidade e atualização de dinâmica e ritmo.
O diretor Jefferson Candido resgata a atmosfera da época e, ao mesmo tempo, apresenta essa experiência para uma nova geração. E é exatamente isso que aparece no ar. Não é uma homenagem solta nem uma colagem de lembranças. É um produto conduzido.
Talvez esse seja, aliás, um dos méritos mais interessantes do Viva a Noite: ele não tenta pedir desculpas por ser popular, familiar, musical, caloroso e comercial. Assume tudo isso. Assume que quer unir gerações, quer convidado reconhecível, quadro clássico, clima de festa e televisão raiz. Num momento em que muita atração parece ter vergonha de ser popular, o Viva a Noite vai na direção oposta e ganha força justamente aí.
No fim, o programa vira acerto porque junta três coisas que raramente andam juntas hoje: alma, direção e apelo comercial. Tem um apresentador que sustenta o espírito da atração, uma equipe que sabe organizar esse espírito em formato e uma emissora que entende o valor afetivo e estratégico daquele produto. Não é pouca coisa.

E, sejamos honestos, Luís Ricardo merecia isso faz tempo. Merecia mais tempo de tela, mais protagonismo, mais espaço para ser exatamente o que sabe ser. Em vez de encaixá-lo apenas como peça funcional de grade, o SBT fez o óbvio que às vezes a TV esquece de fazer: colocou no centro alguém que tem tamanho, repertório, identidade e brilho para segurar um programa inteiro sem parecer esforço.
No meio de tanta televisão ansiosa para parecer moderna, o Viva a Noite acerta ao lembrar que, antes de qualquer embalagem, TV boa continua dependendo de uma coisa muito simples: alma. E Luís Ricardo é isso.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.
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