
por Eduardo Graboski
Publicado em 30/03/2026, às 12h46
Existe um fenômeno curioso na televisão brasileira: apresentadores que todo mundo lembra, mas que ainda não voltaram para as telinhas. Volta e meia, nomes conhecidos voltam a circular: Márcio Garcia, Fernanda Lima, Gilberto Barros, Claudete Troiano, Raul Gil, Cátia Fonseca e, mais recentemente, Luciana Gimenez.
Todos com história. Todos com público. Todos relevantes na TV aberta. E ainda assim, fora do centro do jogo. A pergunta vem quase automática: por que não voltam? A resposta curta é simples. Porque a TV não precisa. A resposta longa é um pouco mais desconfortável.
Durante muito tempo, a televisão funcionou como um clube. Hoje, funciona como mercado. E mercado não tem memória emocional. Tem interesse.
Tem apresentador que sai da TV e tenta voltar negociando como se ainda estivesse no auge. Chega com ideia pronta, formato fechado, conceito “inovador”, geralmente algo que faria muito sentido para si próprio ou em outra época. Quer fazer do próprio jeito. Não abre mão. E espera que a emissora compre a ideia de qualquer forma. Só que a emissora não quer.
Enquanto isso, tem gente chegando sem apego nenhum. Topa piloto, muda formato, ajusta linguagem, corta quadro, testa tudo. A diferença é simples: um quer fazer o programa que imaginou. O outro quer continuar na TV.
Mas existe um ponto ainda mais estrutural e pouco falado. Alguns apresentadores não ficaram conhecidos apenas por eles mesmos. Ficaram conhecidos por um formato muito específico.
É difícil deixar de associar Raul Gil a um programa de calouros. Ou Gilberto Barros de um auditório popular, direto, quase performático. No caso de Cátia Fonseca, por exemplo, o público muitas vezes nem separa apresentadora e programa, é tudo a mesma coisa.
E isso, que um dia foi força, hoje vira limitação. Porque voltar para a TV, nesses casos, não é só contratar um nome. É reinventar uma imagem inteira. É convencer o público de que aquela pessoa funciona em outro formato, outro ritmo, outra proposta. E isso custa. Custa tempo, criatividade, risco, coisas que a TV aberta atual evita ao máximo.
Hoje, a lógica é outra: apostar no que já vem pronto ou no que pode ser moldado rapidamente. Reinvenção profunda virou exceção.
Também existe o erro mais silencioso de todos: o sumiço. Alguns nomes saem do ar e desaparecem. Param de gerar assunto. Param de circular. Param de existir no radar. E aí acontece o inevitável: o público esquece. E quando o público esquece, a televisão acompanha. Porque a TV pode até lançar alguém. Mas dificilmente resgata.
Outro ponto pouco falado é o custo. Não só financeiro, mas de operação. Em um cenário cheio de nomes novos, mais rápidos, mais adaptáveis, a escolha é quase automática.
E tem o detalhe mais sensível: a falta de narrativa. Quem essa pessoa é hoje? Por que o público deveria se interessar de novo? Sem resposta, não tem volta. Porque televisão não trabalha com saudade. Trabalha com atenção, audiência e faturamento. É um negócio.
Claro, ainda existem aqueles que se encontraram em outros meios e formatos, a maioria no YouTube. E está tudo bem. Se bem que, no fundo, acredito que todos desejam voltar de fato à TV aberta, ainda que não assumam publicamente.
No fim, o maior erro de alguns apresentadores não é falta de talento. É acreditar que talento, sozinho, ainda resolve. Não resolve. Hoje, quem quer estar na TV precisa entender uma coisa simples: não volta quem merece. Volta quem entende de mercado, se reinventa rápido e topa se adaptar a todo momento.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do CENAPOP.
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