EDUARDO GRABOSKI

“Deus, por favor, apareça na televisão”: Nunca foi tão fácil fabricar uma verdade

Música do Kid Abelha embala uma pergunta curiosa: hoje acreditamos mais na TV ou internet?
Música do Kid Abelha embala uma pergunta curiosa: hoje acreditamos mais na TV ou internet? - Foto: IA
Eduardo Graboski

por Eduardo Graboski

Publicado em 31/08/2026, às 10h07

Depois de assistir a um show do Kid Abelha, uma música ficou na minha cabeça. "Deus Apareça na Televisão" é daquelas que ficam guardadas em alguma gaveta da memória. Dia desse passei a questionar o sentido da letra, o significado da música.

Na década de 80, quando ela foi lançada, a televisão era o lugar onde a realidade acontecia. Não porque ela fosse perfeita, não porque nunca errasse. Mas porque, para milhões de brasileiros, aquilo que passava na TV ganhava um selo de verdade.

Se apareceu no Jornal Nacional, aconteceu. Se foi mostrado no Fantástico, era assunto da semana. Se estava no Domingão do Faustão, existia de fato. A televisão não era só entretenimento, era uma chancela de sucesso e da realidade.



O trecho “Deus, por favor, apareça na televisão” traz justamente essa ideia. Hoje isso mudou, mas será mesmo? Vivemos repetindo que “ninguém mais assiste TV”. Ao mesmo tempo, basta um artista aparecer num programa de auditório, numa novela ou numa grande entrevista para que sua carreira ganhe outro peso.

Porque audiência e credibilidade são coisas diferentes, sempre digo isso. As redes sociais venceram a guerra da atenção, a TV ainda disputa a da confiança. E talvez seja justamente aí que mora uma das maiores confusões do nosso tempo. Nunca foi tão fácil construir uma vida (sic) perfeita.

Tudo parece verdadeiro, mas nem sempre é. Muita coisa na internet é montada, é irreal e ilusória. Cada um mostra o que quer, da maneira como bem interessa. Existe toda uma indústria especializada em fabricar verdade e ela funciona muito bem.

A televisão também criou personagens ao longo dos anos, também exagerou. vendeu sonhos e editou realidades. Mas tem um detalhe importante. Entre a câmera e o público existem produtores, chefes de reportagem, diretores, editores e uma emissora que colocava sua reputação em jogo.

Nas redes, muitas vezes existe apenas alguém dizendo: "confia em mim". E milhões de pessoas confiam. Sem perguntar, sem verificar, sem desconfiar. Talvez por isso eu ache curioso quando alguém diz que "a TV acabou". Não acabou. Ela perdeu o monopólio da atenção, mas continua sendo um dos poucos lugares onde ainda existe algum tipo de filtro antes que uma informação seja transformada em verdade.

É claro que a televisão erra, a diferença é que existe alguém para cobrar, uma emissora para responder, um jornalista para assinar e se responsabilizar por uma matéria, uma reputação a perder. Nas redes, muitas vezes, a mentira dura o suficiente para cumprir seu objetivo. Depois, basta apagar o post e seguir a vida.

Talvez seja justamente por isso que aquele trecho da música tenha voltado à minha cabeça. Nos anos 80, Deus precisava aparecer na televisão para que acreditassem nele. Hoje, provavelmente bastaria abrir um perfil, comprar alguns seguidores, gravar vídeos convincentes e conseguir um selo de verificação.

A TV perdeu o monopólio da verdade, e talvez isso tenha sido saudável. O problema é que entregamos esse poder para muitas pessoas sem perguntar quem está de fato do outro lado da tela. No fim, a pergunta já não é se Deus precisa aparecer na televisão. É em qual tela nós decidimos acreditar. E, principalmente, por quê.


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