A cirurgia plástica pode ajudar uma mulher a recuperar confiança, corrigir algo que a incomoda ou harmonizar; mas ela não foi criada para corrigir a crueldade das redes sociais

por Dr. Lúcio Romão
Publicado em 08/06/2026, às 18h26
Nos últimos dias, acompanhei algo que me fez refletir não apenas como cirurgião plástico, mas como alguém que convive diariamente com mulheres e suas inseguranças. Duas pacientes minhas, Bruna Pinheiro e Jéssica de Paula, tiveram seus nomes envolvidos na separação de Virginia Fonseca e Vini Jr. Em questão de horas, passaram a receber uma avalanche de comentários nas redes sociais.
O que mais me chamou a atenção, porém, não foi a polêmica em si. Foi perceber como os ataques rapidamente deixaram de ser sobre a história e passaram a ser sobre seus corpos, seus rostos e suas aparências. E isso me levou a uma pergunta simples: em que momento o corpo da mulher virou espaço público?
Existe algo curioso acontecendo nas redes sociais. Nunca se falou tanto sobre autoestima, liberdade feminina e aceitação. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão comum encontrar mulheres sendo julgadas pela própria aparência.
Quando uma mulher vira assunto na internet, parece que seu corpo também entra automaticamente em julgamento. Não importa qual seja o tema da discussão. Em poucos minutos surgem comentários sobre peso, beleza, idade, procedimentos estéticos, formato do corpo ou qualquer característica física que possa servir como alvo.
Muitas vezes, a conversa deixa de ser sobre os fatos e passa a ser sobre a aparência. Como cirurgião plástico, acompanho diariamente mulheres que desejam mudar algo que as incomoda. Mas existe uma diferença enorme entre uma transformação feita por vontade própria e uma insegurança criada pelo olhar dos outros.
Muitas das inseguranças que chegam ao consultório não nasceram no espelho. Nasceram em comentários. Nasceram em comparações. Nasceram em críticas repetidas tantas vezes que passaram a parecer verdades. O mais curioso é que, frequentemente, esses comentários vêm de outras mulheres.
Quando uma mulher aprende a enxergar a si mesma através das críticas dos outros, a autoestima deixa de ser uma construção interna e passa a depender da aprovação externa. E esse é um dos danos mais silenciosos que vejo chegar ao consultório. É como se a aparência feminina continuasse sendo um território público. Como se qualquer pessoa tivesse autorização para opinar. Como se toda mulher precisasse ser aprovada pelo tribunal da internet.
E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores desafios da autoestima feminina atualmente. Não na busca pela perfeição. Mas na tentativa de sobreviver a uma cultura que transformou a crítica em entretenimento.
A cirurgia plástica pode ajudar uma mulher a recuperar confiança, corrigir algo que a incomoda ou harmonizar características que deseja mudar. Mas ela não foi criada para corrigir a crueldade das redes sociais. Nenhum procedimento resolve o problema de uma sociedade que ainda acredita ter o direito de opinar sobre corpos que não lhe pertencem.
Nenhuma técnica é capaz de apagar completamente as marcas deixadas por anos de julgamento. Por isso, acredito que a discussão sobre autoestima precisa ir além da estética. Talvez o verdadeiro avanço aconteça quando entendermos que o corpo de outra mulher não é um assunto público.
Porque toda mulher merece o direito de se olhar no espelho sem carregar o peso das opiniões de quem nunca conheceu sua história. E talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja se uma mulher está bonita, magra, gorda ou dentro de algum padrão. Talvez a pergunta seja outra: por que ainda nos sentimos no direito de julgar corpos que não nos pertencem?
Ver essa foto no Instagram

Dr. Lúcio Romão
Dr. Lúcio Romão é formado em medicina em Juiz de Fora, fez residência em cirurgia plástica no ABC Paulista e aprimorou sua formação com fellowship pela USP, um dos centros mais respeitados do país. É reconhecido por seu padrão estético internacional, admirado por famosas, modelos e influencers. Sua trajetória é marcada por rigor técnico, ética e foco em resultado e segurança. Instagram: @drlucioromao
COLUNISTAS
Faustino Júnior | Nerd de Negócio
O CARF da Reforma Tributária: O Conselho que Está Sendo Remodelado Antes da Tempestade